A segunda volta das eleições presidenciais teve lugar a 8 de fevereiro e foi ganha, tal como a primeira volta, pelo candidato António José Seguro, de forma inequívoca. É inegável que houve uma concentração do voto de várias camadas sociais em Seguro com o intuito de impedir que um fascista chegasse ao Palácio de Belém.
Embora a classe trabalhadora e os oprimidos tenham respirado de alívio, pouco ou nada mudará nos próximos tempos. O Governo de Montenegro continuará com as suas políticas de extrema-direita e decidido a avançar com o pacote laboral.
Um voto antifascista
Os resultados não deixam margem para dúvidas: Seguro ganha com 66,83% e 3.505.846 votos expressos. Este resultado representa o dobro do alcançado por André Ventura, que obteve 1.739.745 votos, 33,17%. Seguro vence em 306 dos 308 concelhos, sendo as excepções Elvas e São Vicente. É o maior número de votos alcançados por um candidato presidencial no pós-25 de abril e a segunda maior vitória em percentagem, apenas ultrapassado pela vitória de Mário Soares com 70,35% em 1991.
O perigo que representaria a eleição de um fascista foi perfeitamente compreendido por várias camadas da sociedade portuguesa que, apesar da catástrofe climática e de não se sentirem plenamente representadas, se mobilizaram principalmente nas grandes cidades para dar uma vitória esmagadora a Seguro. Em vários concelhos periféricos, como Amadora, Almada ou Oeiras, Seguro ultrapassa os 70% de votação. Já Ventura alcança os melhores resultados nas zonas mais rurais, na Madeira e no Algarve.
Além disto, parece agora certo que a classe dominante optou por continuar a privilegiar a manutenção do status quo e da paz social, optando por um candidato mais confiável e perspectivando idealmente novas eleições apenas em 2029. Obviamente, num contexto internacional absolutamente explosivo este é um mero desejo impossível, mas parece ter sido este o plano da burguesia para esta segunda volta.
Assim se explica como, nas últimas semanas, os apoios à candidatura de Seguro tenham surgido de um espectro político muito amplo, feitos em defesa da “democracia”, isto é, em defesa do atual regime. Uma a uma, várias personalidades da direita, incluindo os candidatos derrotados na primeira volta, apoiaram Seguro. Face à primeira volta, António José Seguro praticamente duplicou a votação, enquanto que o fascista arrecadou mais 400 mil votos. Estes apoios também surtiram o seu efeito, sobretudo no eleitorado de Gouveia e Melo e Marques Mendes. Em sondagem à boca das urnas, 85% dos que votaram Marques Mendes e 81% dos que votaram no Almirante transferiram o seu voto para Seguro. Já o eleitorado de Cotrim de Figueiredo repartiu-se em 69% para Seguro e 31% para Ventura.
O Presidente de todos os portugueses?
Seguro fez campanha contra o “ódio” e prometeu unir todos os portugueses. No discurso de vitória, aliás, dirigiu-se aos eleitores de Ventura afirmando que também os iria representar. Mas como se pode representar ao mesmo tempo os trabalhadores e o povo e fazer juras de “lealdade e cooperação institucional” a um Governo como o de Luís Montenegro, que nos ataca diariamente?
Numa sociedade de classes, falar em unidade, totalidade ou no País é uma impossibilidade prática. Não é possível estar com o patrão que escraviza imigrantes na agricultura e com esses mesmos trabalhadores. Não é possível estar com a mãe trabalhadora que não consegue pagar a renda e com o seu senhorio avarento. Não é possível estar com o polícia que brutaliza a juventude periférica e estar com esses mesmos jovens. Em suma, não é possível estar com os capitalistas e com os trabalhadores ao mesmo tempo.
Por estas razões, quando Seguro — ou qualquer outro político, na verdade — afirmam que vão unir o País e o povo, isso é uma mentira absoluta. Na realidade, o que isto significa é que os trabalhadores continuarão a ser explorados e a viver na miséria e os patrões, senhorios e latifundiários deste país continuarão a viver à nossa custa. No fundo, a função do Presidente é mesmo esta. Manter o regime, o estado atual de coisas através de mecanismos legais, funcionando como escudo constitucional do Governo.
Estabilidade? Não, luta de classes
O novo Presidente da República e o Primeiro-Ministro entraram imediatamente em sintonia nos discursos da noite. Montenegro afirmou que estas eleições “não mudaram nada” e Seguro tranquilizou-o, dizendo que “Não será por mim que será interrompida” a legislatura. Para nós, trabalhadores e jovens, isto significa apenas uma coisa. Que a política de extrema-direita que Luís Montenegro e os seus ministros têm implementado vai continuar. Os problemas que todos conhecemos na saúde, na educação, na habitação não serão resolvidos e os imigrantes continuarão a servir de bode expiatório para esconder a realidade.
Votámos em Seguro conscientes de que não havia outra alternativa. Mas não temos qualquer ilusão no personagem. Seguro não será um Presidente “de esquerda”, como alguns afirmam, nem será o garante dos direitos dos trabalhadores, dos imigrantes e dos oprimidos em geral. Seguro é um homem do regime. Esta presidência, ainda que com um estilo diferente, será no essencial uma continuação da cessante. Seguro afirmou claramente ao que vem: preservar as instituições da burguesia e a estabilidade social e política. Os oprimidos dão-lhe outro nome: continuação da exploração.
A classe dominante continua a precisar de aumentar a taxa de exploração sobre a classe trabalhadora. O contexto de instabilidade e incerteza internacional emprestam alguma urgência a este plano, mas os burgueses também sabem que não podem dar um passo maior do que a perna. A histórica Greve Geral de dezembro de 2025 enviou uma mensagem clara à burguesia: a classe trabalhadora rejeita em absoluto o pacote laboral e está preparada para ir à luta sem medo. Esta mensagem foi recebida e analisada com cuidado nas administrações das principais empresas e transmitida ao Governo: o plano de choque frontal inicialmente pensado terá de ser revisto.
Mas o pacote laboral não desapareceu nem foi derrotado. Após algumas alterações cosméticas que o Governo será obrigado a efetuar, mas mantendo o essencial, Seguro já admitiu que basta que a UGT aprove o pacote laboral na concertação social para que o mesmo seja promulgado. Mais além da retórica moderada e conciliadora, a realidade nua e crua impõe-se. O pacote laboral e o retrocesso em termos de direitos dos trabalhadores que o mesmo representa só será derrotado nas ruas com uma nova greve geral, ainda mais potente do que a anterior, e com grandes manifestações de massas.
Numa coisa concordamos com Montenegro: nada mudará. Amanhã todos os trabalhadores, jovens e a esquerda combativa continuará na rua e nos locais de trabalho a lutar contra o patronato, contra este Governo e todos os que o apoiarem.









