[Este artigo foi originalmente publicado a 9 de Março, em castelhano, aqui.]

A economia capitalista entrou em estado de pânico. Nas últimas semanas as bolsas de todo o mundo caíram, perdendo quase 20% do seu valor, e o barril de Brent caiu num só dia mais de 20%, uma situação que não se via desde a guerra do Golfo em 1991. As previsões económicas são corrigidas para valores mais baixos a cada semana, e o patronato bancário afirmou que o crescimento mundial manter-se-á no 1%, o que implica uma situação de recessão global.

Sectores como o das companhias aéreas enfrentam perdas de até 102.000 milhões de euros, tendo já falido uma grande empresa [Flybe]. A epidemia do coronavírus está a evidenciar a debilidade da economia e as enormes contradições e desequilíbrios acumulados durante anos que agora ameaçam explodir virulentamente. Ainda assim, este vírus é só o acidente que fez adoecer gravemente uma economia já senil.

A enorme crise de legitimidade do capitalismo, consequência de um crescimento acelerado da desigualdade e da miséria em todo o mundo, levou a que um dos seus porta-vozes tradicionais, o Financial Times, levantasse a necessidade de fazer um reset ao capitalismo, posto em causa “por concentrar-se em maximizar os lucros e o valor para os accionistas”. Estas palavras são dos mesmos que durante a grande recessão de 2007-2008 defendiam refundar o capitalismo, conter os seus abusos e humanizá-lo. O problema, no entanto, como apontaram Marx e Engels, são as próprias leis sob as quais opera o mercado, e que tornam inviável um capitalismo de rosto humano.

Uma recessão com consequências imprevisíveis

A agenda capitalista usada para lidar com a crise de 2008 foi incapaz de responder ao desafio e piorou as contradições estruturais que emergiram há uma década. 2019 terminou com um crescimento do comércio de 1% face aos 4% de 2018, o ritmo mais baixo da última década. Agora, após a eclosão da epidemia, a questão é até onde pode chegar esta crise.

A China, que contribuiu com um terço do crescimento mundial durante os últimos dez anos, enfrenta o seu menor aumento em quase 30 anos, 4% — segundo o Instituto Internacional de Finanças —, após contabilizar já parte do efeito do coronavírus. O gigante asiático converteu-se num actor central. A sua fulgurante expansão económica, que implicou também a acumulação de enormes desequilíbrios e contradições, deu grande estabilidade ao capitalismo, mas agora tudo isto parece converter-se no seu oposto.

O crescimento para os EUA, já moderado em 2019, prevê-se mais baixo: uns pírricos 1,3% para 2020, por enquanto. O seu sector industrial, apesar das promessas de Trump, continua em declínio. Em 2019, 16.000 trabalhadores do rust belt nos EUA perderam o emprego. O presidente estado-unidense teve que levantar o pé do acelerador na guerra aduaneira com a China, já que, entre outros factores, 77% das exportações chinesas correspondem a produtos semi-acabados para produzir mercadorias em indústrias norte-americanas. O facto de no recente Fórum de Davos ter sido assinalada, pela primeira vez, a política norte-americana como um dos principais factores de instabilidade mundial é um bom reflexo das debilidades dessa economia e do tipo de recuperação a que temos assistido.

A União Europeia (UE), que enfrentava uma situação de estagnação, entrará abertamente em recessão, destacando-se a Alemanha com uma queda constante da sua produção industrial. A locomotiva europeia enfrenta um retrocesso agudo das suas exportações, que em 2018 representavam 47,4% do seu PIB. A produção de automóveis registou o número mais baixo desde 1997, com as exportações a cair 13% numa indústria que exporta 77% da sua produção. Dados que põem em xeque a economia alemã, especialmente pela abrupta interrupção do comércio mundial. Por outro lado, a Itália enfrenta uma situação de completa paralisia económica, com um enorme endividamento que pode explodir a qualquer momento. A posição da Europa no mundo continua em declínio.

Endividamento recorde e especulação financeira

A esta situação crítica junta-se um crescimento exponencial da dívida e da especulação financeira completamente desenfreada. A dívida global alcança a cada ano novos recordes, muito acima dos valores anteriores ao estalar da grande recessão. A dívida pública, empresarial e das famílias no mundo chegou aos 253,6 biliões de dólares, 322% do PIB mundial, com uma nova subida em 2019 de quase 8 biliões de dólares. 60% do aumento da dívida mundial deve-se à China e aos EUA, e 70% do aumento da dívida empresarial a multinacionais estado-unidenses. Por outro lado, os países “emergentes” aumentaram a sua dívida a 72,5 biliões, 223% do seu PIB, a vaga “maior, mais rápida e generalizada” desde 1970, segundo o Banco Mundial.

Esta situação completamente anómala explodiu em Setembro passado no chamado mercado de recompra (repo), nos EUA, onde bancos e operadores da bolsa se dirigem diariamente para obter empréstimos. Perante a escassez de dinheiro em efectivo, registou-se uma subida das taxas de juros de 2,21% para 10%, e a Reserva Federal (Fed) viu-se obrigada a disponibilizar numa semana 203.000 milhões de dólares, a maior injecção de liquidez desde 2008. Desde então, teve de introduzir outros 60.000 milhões por mês e reduzir as taxas que, devido aos efeitos do coronavírus, foram cortadas novamente, permanecendo perto de 1% e reduzindo muito a margem de manobra futura. Christine Lagarde, Presidente do Banco Central Europeu (BCE), confessou que estão a ficar sem munição após a instalação de taxas negativas na zona do euro, especialmente na Alemanha. Uma situação sem precedentes que sustenta artificialmente uma parte importante da economia capitalista, conduzindo a uma descontrolada espiral especulativa que ameaça explodir a qualquer momento.

A capitalização das bolsas internacionais também alcançou números recorde, 86 biliões de dólares, 100% do PIB mundial. Este crescimento histórico dos lucros nas bolsas não corresponde a um avanço da economia real e transforma-se, perante o pânico, em perdas multimilionárias. Encontramo-nos perante uma expansão do capital fictício enquanto o investimento produtivo continua estagnado ou em colapso, destacando nestas subidas o papel jogado pela recompra de acções: só a Apple gastou 239.000 milhões de dólares nos últimos dez anos. Encontramo-nos perante o sonho do capital: obter dinheiro do dinheiro sem passar pelo processo de produção — algo que inevitavelmente acaba por chocar com a economia real.

A ditadura do capital financeiro e dos monopólios

Desde a grande recessão que a concentração da riqueza e da propriedade deu um salto sem precedentes, confirmando-se as tendências monopolistas inerentes ao desenvolvimento capitalista. Recentemente deu-se a fusão bancária mais importante desde 2008, entre a BB&T (BBT) e a SunTrust (STI), que resultou na sexta maior entidade financeira dos EUA. Estes seis grandes bancos e entidades financeiras açambarcam mais de 65% de todos os activos financeiros e depósitos do país. Também ocorreu a fusão entre a Charles Schwab e a TD Ameritrade, que eram a primeira e a terceira maior empresa de correcção de bolsa (brokers) estado-unidenses. A BlackRock, actualmente a maior empresa de gestão de fundos de investimento no mundo, gere capitais no valor de 6,3 biliões de dólares, o equivalente ao PIB combinado da Alemanha e da França.

Quando se deu a crise das subprime, sisudos analistas e economistas burgueses apontaram a existência de bancos e entidades financeiras de dimensões gigantescas como um dos principais problemas. Dez anos depois, a concentração de capital financeiro é ainda maior. Este processo de concentração e monopolização, que deita por terra o mito capitalista da “livre concorrência”, estendeu-se a todos os sectores de actividade económica. A revista Nature, num recente estudo sobre as alterações climáticas, demonstrava até que ponto os recursos naturais do planeta, a produção agropecuária, mineira, farmacêutica ou de qualquer outro sector se concentram hoje nas mãos de uma punhado ínfimo de grandes monopólios.

Numerosos economistas burgueses, e especialmente dirigentes reformistas, mostram a sua frustração perante a actual deriva do capitalismo, com saudades dos velhos tempos nos quais o capital se comportava de forma “responsável”, permitindo uma concorrência “justa”. Não obstante, como já explicou o marxismo, há muito tempo que as bases materiais desse capitalismo idílico desapareceram: “A eliminação da concorrência pelo monopólio marca o começo da desintegração da sociedade capitalista. A concorrência era o principal mecanismo criador do capitalismo e a justificação do capitalista. Por isso, a eliminação da concorrência marca a transformação dos accionistas em parasitas sociais”.

Proteccionismo e guerra comercial

Os meios de comunicação burgueses culpam a guerra comercial por esta situação. Apesar de todos estarem de acordo que um aumento das taxas alfandegárias e do proteccionismo é negativo para o conjunto da economia capitalista, que poderia levar a uma recessão e inclusive a uma depressão económica — tal como ocorreu durante os anos trinta do século passado —, as tendências objectivas do capitalismo empurram inexoravelmente nesse sentido. A burguesia bem gostaria de travar este processo, mas as leis que regem o seu sistema tornam isto impossível. A recessão fortalecerá estas tendências, e fará prevalecer a lei do salve-se quem puder.

As políticas proteccionistas não são uma invenção de Trump. Desde 2008, países por todo o mundo aprovaram 10.035 normas de proteccionismo económico face a 3.544 medidas de liberalização. Esta dinâmica, como noutros momentos da história, impôs-se como fruto da crise de sobreprodução e da necessidade sentida pelas burguesias de entrar numa competição mais feroz pelo mercado mundial.

No ano 2000 a China superava os EUA como principal parceiro comercial apenas em Cuba, no Paraguai, no Iraque, no Irão, numa dezena de países africanos e nos seus países fronteiriços do sudeste asiático. Hoje, converteu-se no principal parceiro comercial e exportador de todos os países de África, Ásia e Oceânia, e da maior parte da Europa e da América Latina. Os EUA mantêm a sua proeminência apenas em relação ao Canadá e ao México, na Europa com a Grã Bretanha, Irlanda, França e Suíça, num par de países em África, e na América Central, Colômbia e Equador. Este enorme retrocesso do imperialismo norte-americano explica o agravamento da guerra comercial e a aposta estratégica da burguesia estadunidense em travar esta batalha.

A suposta trégua alcançada entre os EUA e a China é pura propaganda. Este tipo de acordos só podem ser parciais e temporários, ameaçados perante qualquer novo acontecimento, uma vez que assistimos a uma luta decisiva pela supremacia mundial entre estes dois actores. No entanto, a vociferante retórica nacionalista de Trump não nos deve levar ao engano. A realidade concreta é que nestes quatro anos de presidência, o seu Governo e a burguesia norte-americana não foram capazes de avançar um milímetro na esfera internacional. Contrariamente, todas as suas tentativas de reverter os retrocessos do imperialismo estadunidense fracassaram.

Por isso mesmo, semanas depois da assinatura da suposta trégua, o conflito voltou a estalar à volta da Huawei, acusada agora pelo Governo norte-americano de organização criminosa pelo roubo de propriedade intelectual. Em 2019, a Huawei afastou a Apple do segundo para o terceiro lugar mundial na venda de telemóveis, e actualmente cinco das dez maiores empresas de Internet e telecomunicações são chinesas, enquanto que em 2009 as dez eram norte-americanas. Um dos pontos de maior conflito é o desenvolvimento da nova tecnologia 5G. A China já instalou 400.000 postos de 5G, dez vezes mais que os EUA; assinou acordos com 60 países para o desenvolvimento desta nova rede, muitos deles aliados dos EUA; e calcula-se que em 2025 irá dispor de 650 milhões de utilizadores, 40% à escala mundial. Os temas centrais do conflito, as subvenções de Pequim a determinadas indústrias, a propriedade intelectual e a guerra tecnológica, ficaram fora dos acordos. O Departamento de Defesa dos EUA advertiu que a “China prepara-se para repetir com o 5G o que ocorreu com o 4G nos EUA”, transformando “uma economia manufactureira intensiva em capital e trabalho, num sistema liderado pela inovação e pelo consumo, com uma dependência cada vez menor do investimento e da tecnologia estrangeira”.

Polarização social e desigualdade

A toda esta situação precária na economia mundial junta-se o crescimento da miséria e da desigualdade sem precedentes, confirmando-se a previsão de Marx e Engels no Manifesto Comunista. O último relatório anual da Oxfam Intermón indica que o 1% mais rico da população tem o dobro da riqueza que 6.900 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo duplicaram o número de multimilionários.

A precarização generalizada da força de trabalho e os baixos salários deram lugar nos países desenvolvidos à proliferação da figura do trabalhador que, apesar de ter um ou dois empregos, mantém-se no limiar da pobreza ou na pobreza. Assim o reflete o referido relatório: “um trabalhador que hoje se situa entre os 10% dos trabalhadores mais pobres, teria que trabalhar três séculos e meio para conseguir o mesmo rendimento que um trabalhador que se situa entre os 10% dos trabalhadores mais ricos”. Enquanto que 10% dos trabalhadores com melhores salários recebem quase 50% da massa salarial mundial, os 20% com piores remunerações não chegam a 1%.

É esta a situação que está por detrás das explosões e dos levantamentos revolucionários em boa parte do planeta, desde o Chile e Bolívia, passando pela Argélia, Líbano, Iraque, até França e Catalunha. Países como os EUA e a Grã Bretanha, no passado bastiões da estabilidade capitalista, estão corroídos por uma polarização social extrema, dando lugar a fenómenos como o de Bernie Sanders. A luta de classes não dá tréguas e daí o profundo pessimismo existente entre a classe dominante. As condições para a revolução estão completamente maduras, mas a ausência do factor subjectivo, de um partido revolucionário de massas capaz de canalizar a energia, a raiva e a frustração da classe operária e da juventude, não permite chegar ao derrube do capitalismo. Esta é, portanto, a tarefa do momento!

Sindicato de Estudantes

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