No passado dia 22 de Maio, Beatriz Lebre, de 23 anos, trabalhadora no Colombo e estudante universitária, foi brutalmente assassinada por um homem de 25 anos à bastonada, como resposta à rejeição de um relacionamento amoroso. O seu corpo, escondido pelo assassino, só foi encontrado uma semana mais tarde, no rio Tejo, junto a Santa Apolónia.

Beatriz foi mais uma vítima mortal do machismo e do ódio misógino. Transformada em objecto de prazer masculino, perdeu a vida por ter recusado esse papel. Desde 2005, ano em que se iniciou o registo, mais de 540 mulheres foram vítimas de femicídio em Portugal. E a situação tem piorado nos últimos anos. Agora, com o eclodir da crise económica, a situação das mulheres trabalhadoras e pobres torna-se ainda mais precária.

Está claro que a ideologia por detrás desta morte não é apenas do assassino, mas de todo o sistema capitalista, que continua a dividir a humanidade em linhas de género, assim explorando e oprimindo as mulheres trabalhadoras duplamente. Não é por acaso que mais de 90% das vítimas de violência doméstica, ou seja, da violência feita em contexto familiar ou “amoroso”, são mulheres.

A forma como o femicídio tem sido tratado pela comunicação social burguesa deixa isto claro. Uma parte, mais discreta, tratou a notícia de mais uma mulher assassinada como um simples caso de polícia. O seu silêncio sobre o machismo deste crime é ensurdecedor. A outra parte, mais estridente e sensacionalista, vende-nos uma trágica “história de amor”, procurando lucrar com a morte de Beatriz da forma mais obscena e, pelo caminho, reforçando todo o machismo que resulta nesta e em tantas mortes.

Para estes papagaios do capital, foi “amor doentio” e “ciúmes” o que levou ao femicídio. Pior ainda, fazem todo um esforço de humanização do agressor, desumanizando a vítima, apresentando-a como “objecto amado” e relegando-a para segundo plano. Repugnante! Não se trata de amor, mas de misoginia, de ódio às mulheres!

O sistema capitalista não pôde até hoje nem poderá jamais acabar com esta chaga da sociedade de classes. A burguesia não pode abdicar do trabalho doméstico que recai esmagadoramente sobre as mulheres de classe trabalhadora. Muito menos pode abdicar do modelo de família burguesa como unidade económica básica, em que o homem é o chefe de família, saindo de casa para ganhar o sustento, enquanto a mulher deve cuidar da casa, dos filhos e dos velhos. Que outra forma para absorver o desemprego massivo gerado a cada nova crise? Que outra forma de poupar milhões em serviços públicos como creches, lares, lavandarias ou cantinas públicas? Afinal, há que salvar os accionistas do Novo Banco, da TAP, da Brisa, etc.

E o que esperar da justiça burguesa? Recordemos o juíz Neto de Moura, com a sua Bíblia e o Código Penal de 1886. Recordemos os constantes arquivamentos, as penas suspensas, a constante desvalorização da violência contra as mulheres. A justiça burguesa é benevolente com os agressores machistas porque ser dura com eles ameaçaria o equilíbrio de todo este sistema. Terá a burguesia melhor maneira de manter as mulheres trabalhadoras e pobres “no seu lugar” do que instigando no maior número possível de homens trabalhadores e pobres um sentimento de superioridade face às mulheres, tornando os homens da nossa classe nos carrascos da outra metade dentro de cada família? A violência contra as mulheres tem profundas raízes na sociedade de classes (raízes que recuam a tempos anteriores ao próprio capitalismo), e é por isso que não alimentamos qualquer ilusão na justiça burguesa, que será, por necessidade impreterível, contra os trabalhadores, será contra os oprimidos, será machista e racista.

Precisamos de uma esquerda combativa, com um programa de classe que garanta a todas as mulheres o direito a uma vida independente, segura e digna! Exigimos a condenação de todos os responsáveis de crimes contra as mulheres, com o saneamento de todos os polícias e juízes que com a sua actuação protegem os agressores. Exigimos o controlo democrático da justiça pelas organizações da classe trabalhadora. Exigimos saúde e habitação gratuitas, públicas e de qualidade para todas as vítimas de violência doméstica. Trabalho com direitos, um salário mínimo de 900€ e subsídio de desemprego por tempo indefinido. Exigimos uma rede pública de creches, lares, lavandarias e cantinas que liberte as mulheres do trabalho doméstico, transferindo-o para a sociedade como um todo, socializando-o.

A nossa revolta tem de fazer-se luta: só a organização colectiva pode pôr fim ao machismo, pôr fim ao capitalismo, construir uma sociedade nova: o socialismo!

Queremo-nos vivas, livres e combativas!

Sindicato de Estudantes

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