Mais de 880 mil pessoas foram afetadas pelas inundações que devastaram o leste da Líbia na semana passada. 40 mil é o número provisório de pessoas deslocadas devido à passagem do ciclone Daniel. 11.100 desaparecidos, 20.000 mortos só na cidade de Derna, a área mais devastada, e centenas mais noutras partes do país, como Benghazi.

A magnitude exacta desta tragédia humana e social ainda está por apurar totalmente, mas o último relatório da ONU aponta para a possível destruição de 30% do que antes era Derna e de cerca de 2.200 edifícios afectados. As principais estradas continuam bloqueadas, as pontes ruíram e permanecem os cortes na rede eléctrica e no fornecimentos de outros bens fundamentais.

Este horror, contudo, não foi apenas o produto de uma tempestade feroz. É claro que a crise climática é uma ameaça que contribui para o aumento dos desastres naturais, fazendo com que fenómenos como chuvas, furacões ou terramotos se tornem cada vez mais incontroláveis e causem mais danos. Mas é impossível explicar o sofrimento do povo líbio apenas com base nas condições meteorológicas.

Um Estado fracassado e fantoche

O que desencadeou o cataclismo foi a ruptura de duas barragens de 70 metros de altura que ficavam perto de Derna, e que funcionavam como reservas de aquíferos que abasteciam o consumo desta cidade costeira. A passagem do ciclone provocou o colapso total das suas estruturas e a libertação de mais de 30 milhões de centímetros cúbicos de água, arrastando tudo a seu caminho.

Que as barragens tinham fissuras já se sabia desde 1998. Ao longo dos anos os próprios trabalhadores da manutenção foram alertando para o perigo de as barragens poderem ruir. O próprio Governo de Fayez al Sarraj aprovou um orçamento milionário para que fossem restauradas, mas esse dinheiro nunca chegou.

Esta é precisamente a marca corrupta, clientelista e ditatorial que permanece nas instituições líbias. Após a queda do ditador Gaddafi em 2011 e a intervenção militar da NATO, da União Europeia e do imperialismo ocidental, a Líbia está imersa numa guerra permanente entre diferentes bandidos capitalistas enquanto a classe trabalhadora, os camponeses e a juventude se afogam na pobreza e em condições desumanas. O país está dividido em dois governos: o do oeste, governado por Abdul Hamid Dbeibah, um milionário próximo da família Gaddafi que goza de reconhecimento internacional da ONU, e o do leste, controlado por Khalifa Haftar, comandante-chefe do exército líbio, que conta com o apoio do Egito, da Rússia e da Arábia Saudita.

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Que as barragens de Al-Bilad e Abou Mansour tinham fissuras era sabido desde 1998. Ao longo dos anos os próprios trabalhadores da manutenção foram alertando para o perigo de as barragens poderem ruir.

A crise política que o país vive há anos e o cenário de guerra permanente nada mais são do que um exemplo à pequena escala das mudanças abruptas nas relações internacionais e da luta pela hegemonia mundial entre os EUA e a China, que se disputa também em África. Especialmente num país que possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do continente.

A UE tem sangue nas mãos

De facto os principais responsáveis pelo estado político e social em que se encontra o país norte-africano são o imperialismo estado-unidense, francês e britânico, com a cumplicidade e aprovação da União Europeia.

Todos estes civilizados e abnegados democratas europeus que agora mostram a sua cínica preocupação pela população líbia após as cheias e que encorajam presidentes de todo o mundo e ONGs a angariar fundos e “ajuda”, são os mesmos que mantêm acordos com os mafiosos que governam o país e lhes enchem os cofres de milhões de euros para travar a imigração nas suas fronteiras e, assim, pôr fim à chegada de refugiados à Europa através do Mediterrâneo.

130 milhões para equipar a guarda costeira líbia, para manter e construir mais campos de detenção, para transformar a Líbia num “muro” anti-imigração. Em que resultou isso? Que na última década o tráfico de seres humanos tenha disparado na região e que um dos negócios mais terríveis do capitalismo esteja na sua idade de ouro.

Os mercados de escravos na Líbia são mais do que conhecidos. Muitas organizações de direitos humanos e centenas de relatórios denunciaram o que está a acontecer. Leilões onde por 800, 900 ou 1.000 dinares se podem comprar homens e mulheres subsaarianos. Pessoas que são mantidas em centros de detenção superlotados, em condições deploráveis e sujeitas a tortura, humilhação e maus-tratos.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), existem cerca de 600 mil migrantes no país. 4.000 morreram nas inundações. Um rio de sangue, exploração e barbárie que chega aos gabinetes de quem manda em Bruxelas.

Doze anos de intervenção imperialista

A Líbia foi uma página chave na onda revolucionária que abalou todo o mundo árabe em 2011. Em poucos dias, as massas exploradas tomaram o controlo da maior parte do país, derrotando a repressão brutal de Muammar Gaddafi – que governou durante 40 anos – criando comités e assembleias populares que dirigiam os aspectos fundamentais da vida social. As massas líbias colocaram contra as cordas o ditador, a oligarquia líbia e o imperialismo que a financiava. Um regime capitalista despótico baseado em redes clientelistas, totalmente repressivo para com os trabalhadores e gerido como um feudo privado.

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Os principais responsáveis pelo estado político e social em que a Líbia se encontra são o imperialismo estado-unidense, francês e britânico, com a cumplicidade e aprovação da União Europeia. Na foto, os EUA bombardeiam Gardha, Líbia, 2016.

A colaboração de Gaddafi com os EUA e a UE foi notória: apoiou fantoches ocidentais na região durante anos, entregou supostos membros da Al Qaeda ao governo Bush, atuou como gendarme da UE no Mediterrâneo perseguindo imigrantes... Foi um grande negócio. Mas o imperialismo ocidental começou a ver a Primavera Árabe e a mobilização revolucionária da classe trabalhadora Líbia com enorme preocupação. O plano inicial de Paris e Washington era uma negociação entre Gaddafi e a oposição para partilhar o poder político, mas o impulso da luta a partir de baixo, pelas massas, fez com que tudo explodisse.

É por isso que os governos europeus e estado-unidense mudaram o seu discurso e abandonaram o seu homem. A intervenção militar da NATO e dos imperialistas começou com a desculpa de “evitar a guerra civil e proteger os cidadãos”. Foi uma farsa. Bombas com a bandeira yankee somaram-se à repressão lançada por Gaddafi.

A aceitação da intervenção imperialista por parte daqueles que foram inicialmente elevados à liderança dos comités populares pelo movimento de massas significou o primeiro passo no descarrilamento da revolução. A Administração Obama e os imperialistasbritânicos e franceses – que queriam recuperar a influência numa área chave para eles na qual já tinham perdido posições – usaram a “ajuda” militar contra Gaddafi para impedir que o exemplo das massas de Benghazi – onde a revolução foi mais longe – se espalhasse por toda a Líbia e outros países da região, especialmente a Arábia Saudita. Isto é o que explica o porquê de um processo revolucionário iniciado a partir de baixo se transformar numa sangrenta guerra civil que custou milhares de vidas.

A captura e assassinato de Gaddafi marcaram um ponto de viragem no desenvolvimento dos acontecimentos. O veneno da guerra foi usado durante meses como desculpa não só para justificar a intervenção militar imperialista, mas também para deixar as exigências que impulsionaram a revolução sem resposta.

Desde então até agora, os imperialistas ocidentais transformaram a Líbia num protectorado sob o seu controlo que fornecia petróleo seguro e barato e usavam a área como base de operações contra a propagação da revolução árabe, fomentando a divisão ao longo de linhas religiosas e étnicas... Para alem de cenário de caos, guerra, pobreza e confusão, a Líbia tornou-se num novo foco do jihadismo na região.

Entretanto, um terço da população da Líbia vive abaixo do limiar da pobreza. Este é o saldo assustador de doze anos de manobras imperialistas no país.

O único caminho é a revolução socialista

A catástrofe ambiental e humana que abala a Líbia colocou em cima da mesa o abandono e a inacção das autoridades locais. Depois de superar o choque inicial, milhares de pessoas saíram às ruas de Derna para mostrar a sua raiva, exigir demissões e condenar os culpados.

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A classe trabalhadora e a juventude têm a força para expulsar estas camarilhas corruptas e os seus amos imperialistas. E assim poder reconstruir o país, alcançar condições de vida dignas, liberdade e acabar com a divisão criminosa imposta que assola o país.

A 18 de setembro os manifestantes reunidos em frente à mesquita Al Sahaba, apontaram o chefe do Parlamento como o maior responsável e declararam: todos os líbios são irmãos! em resposta à tentativa de alimentar divisões étnicas entre os trabalhadores. Posteriormente, a manifestação chegou à casa do então presidente da câmara da cidade.

Que no meio do desespero, enquanto milhares de corpos continuavam a aparecer na praia e milhares de famílias continuavam à procura dos seus entes queridos, este grande protesto tenha sido realizado reflecte a vontade da população líbia de dar uma volta de 180 graus nas suas condições de vida.

A parte este do país está desolada. Mas a única forma de reconstruí-la e evitar que um capítulo semelhante volte a acontecer no país é expulsar de uma vez por todas a máfia capitalista que usurpa o poder na Líbia. Aos mesmos que durante anos ganharam dinheiro cortando e abandonando infraestruturas, que transformaram muitas cidades e vilas em ruínas sem água, eletricidade ou abastecimento e o país num quintal de ladrões.

A classe trabalhadora e a juventude têm a força para expulsar estas camarilhas corruptas e os seus amos imperialistas. Só assim será possível resolver, antes de mais, o desastre provocado pelas cheias, mas também o altíssimo desemprego juvenil, as desigualdades sociais, conquistar a liberdade de expressão e de manifestação e acabar com a criminosa divisão imposta que assola o país.

Há pouco mais de dez anos, as massas líbias tocaram o céu com as pontas dos dedos. Com base nessa experiência e em todas as lições da Primavera Árabe, com uma organização de massas que defenda um programa revolucionário que defenda a expropriação da burguesia e que todos os riquíssimos recursos que a Líbia possui estejam nas mãos da sua classe trabalhadora, o triunfo da revolução socialista estará assegurada.

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