A luta de classes é o caminho para derrubar Trump!

Na segunda-feira passada, 25 de maio, George Floyd, um trabalhador negro de 46 anos, foi cruelmente morto por um polícia na cidade de Minneapolis. No vídeo da sua detenção, pode-se ver como o agente, Derek Chauvin, pressiona o pescoço do trabalhador afro-americano com o joelho — uma prática proibida em grande parte do país, mas não no estado do Minnesota —, enquanto o imobiliza no chão durante nove minutos, apesar de este suplicar dizendo que não conseguia respirar. Outros três polícias contemplavam o crime, impassíveis. Floyd morreu horas depois, no hospital, e o seu homicídio foi a gota de água que fez transbordar o copo: uma levantamento social, com elementos típicos de insurreição, deflagrou inicialmente em mais de 25 grandes cidades do país, colocando o governo de Trump contra as cordas.

O movimento espalha-se pelos EUA

Este novo episódio de violência policial racista — que soma um novo nome à lista interminável de jovens e trabalhadores afro-americanos assassinados por um aparato criminoso e protegido pelos poderes de Estado — provocou algo que a classe dominante estado-unidense temia há muito: a convergência, num mesmo movimento, de todas as contradições desde há muito em incubação na sociedade.

O desemprego massivo, causado por uma crise económica selvagem, combina-se com a ausência de serviços sociais básicos e de uma saúde pública que proteja a vida da população; uma elite empresarial que acumula fortunas obscenas, mergulha dezenas de milhões de famílias na pobreza e na exclusão social enquanto os políticos de Washington aprovam planos de resgate para Wall Street. A pandemia do coronavírus só colocou a nu a podridão do capitalismo estado-unidense: o país com mais mortes (o número pode chegar a 200.000 nas próximas semanas) e com um abismo entre as classes que não pára de aumentar.

Sob os slogans “No justice, no peace” ​​e “Black Lives Matter”, os protestos começaram no dia seguinte ao homicídio de Floyd, em Minneapolis, onde milhares de pessoas saíram às ruas pacificamente e marcharam em direcção ao Departamento da Polícia segurando cartazes e exigindo justiça. A polícia respondeu disparando gás lacrimogéneo e balas de borracha, mas a repressão brutal, continuando nos dias seguintes, não intimidou os manifestantes, que se defenderam legitimamente.

Trump ordenou o envio de 550 efectivos da Guarda Nacional para a cidade. No segundo dia de confrontos, um manifestante foi morto a tiro pela polícia, entre cargas policiais com gás lacrimogéneo. A coragem, a ousadia e a determinação de dezenas de milhares de jovens negros, latinos, brancos, asiáticos, de trabalhadores, até de idosos, tornaram-se visíveis para o mundo inteiro, graças às centenas de vídeos que circulam nas redes sociais. Nem toda a brutalidade policial, que foi aplicada à discrição e sem contemplações, pôde impedir que uma das esquadras da cidade fosse queimada e que os polícias tivessem de fugir perante o avanço da população.

Estas imagens recordam-nos os grandes acontecimentos revolucionários em Santiago do Chile, em Bogotá, em Quito ou em Paris, nos últimos meses. São os oprimidos em pé de guerra contra um sistema assassino que não tem nada para nos dar excepto repressão, homicídio e a exploração mais implacável. Contra este tacão de ferro, está a erguer-se uma nova geração de combatentes e os capitalistas estão a percebê-lo com clareza.

Como esperado, a classe dominante e os meios de comunicação ao seu serviço iniciaram uma campanha de criminalização das mobilizações, desculpando os assassinos de Floyd e aqueles que, na Casa Branca, os protegem. A imprensa burguesa estado-unidense nem por um segundo hesitou em censurar os manifestantes como "saqueadores" e "criminosos". Um pivot da Fox News — seguidor fanático de Trump — declarou: “Os distúrbios são uma forma de tirania. Os fortes e violentos oprimem os fracos e desarmados. É opressão!”. Tudo isto depois de as forças policiais de 17 cidades terem realizado mais de 1.400 detenções.

Luta de classes em estado puro

Donald Trump reagiu a este conflito atirando gasolina ao fogo. O campeão da incompetência na crise sanitária, de tornar a saúde um negócio lucrativo para as multinacionais, o plutocrata que abandonou o seu povo para enriquecer a oligarquia financeira e empresarial, não hesitou em lançar uma mensagem belicosa, apelando a que se começasse os tiroteios o quanto antes e propondo a ilegalização imediata das organizações de esquerda e antifascistas que participaram activamente nos protestos.

E é precisamente esta atitude provocadora e desafiante que fez crescer massivamente as mobilizações por todo o país. O chicote da contra-revolução espicaçou a revolução. Em menos de quatro dias, trinta cidades, entre as quais Miami, New York, Los Angeles, Philadelphia, Atlanta, Dallas, Washington e muitas outras, encheram-se de dezenas de milhares de pessoas denunciando a brutalidade policial e lançando-se contra Trump e o seu governo. A raiva rebentou como um barril de pólvora.

Nem o recolher obrigatório estabelecido em mais de uma dezena destas cidades, governadas tanto por republicanos como por democratas, nem a crescente mobilização da Guarda Nacional — só no Minnesota, foram mobilizadas 13.000 tropas, a maior mobilização nos últimos 160 anos — conseguiram reprimir este impressionante levantamento.

A solidariedade que este movimento despertou entre a população, farta de tantas humilhações e empobrecimento, causa suores frios aos capitalistas estado-unidenses. Um exemplo significativo é a resposta dos motoristas de autocarros que estão a desobedecer às ordens da polícia para transportar os detidos nos seus veículos. Assim se expressou um deles: “Como trabalhador dos transportes e membro do sindicato [ATU Local 1005], recuso-me a transportar a minha classe e a juventude radicalizada para a cadeia. [...] O protesto é completamente justificado e deve continuar até que se cumpram as suas exigências.”

O apoio às reivindicações e ao grito colocado no epicentro da batalha, “I can’t breathe” (Não consigo respirar), também foi ouvido em cidades como Londres, Paris, Berlim ou Auckland (Nova Zelândia), onde, no domingo passado se realizaram marchas e concentrações massivas contra o racismo e a brutalidade policial. O movimento está a ganhar uma dimensão internacional inspiradora.

As imagens deste choque entre classes convivem com as aterradoras cenas de mortos e infectados em plena pandemia de coronavírus. A disseminação da doença expôs a situação precária em que vive a maioria da classe trabalhadora e da juventude norte-americana e, mais especificamente, a população negra, que representa 13,4% dos habitantes dos Estados Unidos (327 milhões de pessoas).

Segundo dados compilados pelo Laboratório de Investigação APM, em 40 estados, os afro-americanos morrem a uma taxa quase três vezes superior à dos brancos. Nos três estados com a maior percentagem de população negra — Mississippi, Louisiana e Georgia — 70% das mortes por COVID19 são negros. Em Chicago, os negros comportam 73% das mortes, em Milwaukee, 81%, e o mesmo acontece na capital: 77% das mortes no Condado de Columbia, em New York, são de afro-americanos.

Não são casos excepcionais. Esta é a consequência da ausência de assistência pública de saúde, da segregação racial e económica da população afro-americana em bairros marginais e pobres, da lógica do capitalismo senil que condena a maioria à pobreza e à miséria. De acordo com dados de “Poverty in the USA” (Pobreza nos EUA), de 2016, a pobreza extrema afecta 26,2% da população negra e 23,4% da latina.

Um aparato de Estado racista ao serviço do capital e da elite branca

Esta explosão social nas ruas da primeira potência mundial assinala directamente o racismo orgânico das instituições da burguesia estado-unidense. A opressão racial está incrustada no ADN da polícia, dos tribunais e de todo o Estado capitalista.

Donald Trump é a expressão máxima deste supremacismo racial branco, capitalista e extremamente reaccionário. O seu “Make America Great Again” é a bandeira onde estão inscritos o racismo e a xenofobia, e a bandeira que não pára de agitar entre a sua base social: desde a construção do muro na fronteira com o México à sua autorização para disparar sobre os imigrantes mexicanos, aos seus constantes insultos contra muçulmanos ou à sua defesa de fascistas brancos que se manifestaram em defesa do Ku Klux Klan em 2017. É todo um longo historial.

O ódio aos trabalhadores e jovens negros e latinos é sem dúvida um selo de distinção de Donald Trump, mas não é novidade na Casa Branca. Foi na era Obama que os casos de jovens e trabalhadores negros assassinados pela polícia dispararam. O anterior presidente forneceu equipamento militar aos departamentos de polícia de todo o país, e esta é uma das causas que explica o aumento das mortes por violência policial.

O racismo é, sobretudo, uma questão de classe. O único delito de Eric Garner, Trayvon Martin, Mike Brown, George Floyd e de todos os mortos pela actuação da polícia foi ser negro e de classe trabalhadora. As forças de segurança, as suas leis e a sua justiça estão ao serviço dos interesses da classe dominante, dos banqueiros e empresários que golpeiam com punho de ferro as camadas mais pobres da sociedade. A diferença entre o tratamento dado aos manifestantes brancos pró-Trump — que à mão armada de espingardas exigiam o fim do confinamento — e a brutalidade policial contra aqueles que hoje saem às ruas é abismal.

Se o polícia que asfixiou Floyd foi acusado de homicídio involuntário — e não apenas removido de seu posto, como inicialmente se pretendia —, foi graças à massiva mobilização que se ergueu por todo o país. Mas trata-se somente de um gesto que foram obrigados a fazer nestas circunstâncias, numa tentativa de refrear a crescente indignação. A questão é que a luta deve continuar, aumentar o seu alcance e também a clareza dos seus objectivos, que não podem ser senão a completa depuração da polícia de elementos reaccionários, que devem ser expulsos e punidos exemplarmente — algo que, em muitos casos, levará à dissolução destes corpos tal como existem actualmente em muitos municípios e cidades, devido ao seu carácter corrupto e racista. Os departamentos de polícia devem estar sob o controlo das comissões de moradores e das organizações da classe trabalhadora, começando com os sindicatos, grupos sociais e comunitários, como o próprio Black Lives Matter e muitos outros, que estão na vanguarda da luta pelos direitos democráticos e contra o racismo.

Esta medida deve ser complementada com um programa para aumentar os salários para 15 dólares à hora; com a implementação imediata da saúde e educação públicas, gratuitas, universais e de qualidade; com a reforma integral dos bairros pobres, dotando-os de casas dignas e das necessárias instalações sociais e culturais; com transporte ecológico, gratuito e de qualidade; e com a aprovação de um subsídio federal de desemprego, para todos os trabalhadores desempregados, de 2.000 dólares por mês até que encontrem emprego.

Esta é a forma eficaz de combater a catástrofe que se aproxima da classe trabalhadora e da juventude estado-unidense.

Para um partido dos trabalhadores e da juventude. Nenhuma confiança no Partido Democrata!

O aparato do Partido Democrata demonstrou mais uma vez que é um pilar do sistema e que nas suas raízes está a defesa dos interesses da classe dominante. O candidato presidencial Joe Biden agradeceu ao mayor de Minneapolis por ter suspendido os polícias envolvidos e pediu a abertura de uma investigação! Parece que os vídeos da morte de Floyd não são prova suficiente. Com esta posição, Biden tenta esconder as suas responsabilidades na opressão sofrida por milhões de negros pobres nos Estados Unidos: sob o governo Clinton, em 1994, foi ele o autor da conhecida "Crime Bill", que defendia a segregação no transporte escolar.

Após a renúncia de Bernie Sanders, o debate sobre a necessidade de criar um partido da classe trabalhadora e da juventude está mais vivo do que nunca. Se algo demonstrou o movimento Bernie — que teve um apoio massivo entre a juventude e amplos sectores da população negra e latina — é a inadiável necessidade dos oprimidos e oprimidas de transformar as suas vidas. As condições de opressão e desigualdade que provocaram a onda pró-Sanders só vão aumentar nos próximos meses e anos.

O surgimento do Black Lives Matter em 2016, que reuniu dezenas de milhares de activistas em todo o país, foi o desenvolvimento mais sério do movimento de libertação negro desde os Black Panthers. Os protestos contra o assassinato de Floyd bebem hoje dessa e de muitas outras experiências que influenciaram a consciência de milhões de pessoas nos Estados Unidos e em todo o mundo.

Que, em plena pandemia e crise sanitária, milhares de pessoas tenham saído às ruas demonstra a vontade e determinação da juventude e dos trabalhadores negros, e de muitos jovens e trabalhadores brancos, para que se faça justiça e acabem para sempre os assassinatos. É um movimento unificado que passa por cima das barreiras raciais, que se une por pertencer à mesma classe social: a classe trabalhadora.

Todas as organizações da esquerda combativa e de classe nos Estados Unidos devem manter e ampliar esta mobilização, e tomar medidas enérgicas para criar um grande partido da classe trabalhadora e da juventude que rompa com o establishment democrata, com a burguesia e as suas políticas. Sanders renunciou lamentavelmente a este objetivo e ajoelhou-se perante o aparato democrata, tal como Ocasio-Cortez. No entanto, atrelar-se a Biden não é a alternativa pela qual dezenas de milhares lutam hoje nas ruas.

Um partido dos trabalhadores, que não adopte ideias ou métodos sectários, que trabalhe com audácia nos movimentos sociais e nos grandes sindicatos, que defenda uma política socialista genuína, que exponha com clareza a necessidade de nacionalizar a banca e os grandes monopólios estado-unidenses e planificar democraticamente a economia para resgatar os trabalhadores e não a plutocracia. Esta é a alternativa pela qual se luta.

Há-que fazer um chamamento a toda a classe trabalhadora e à juventude para que participem nestes protestos — organizando novas manifestações coordenadas e massivas nas principais cidades do país —, e há-que dotá-las deste programa anticapitalista e revolucionário.

Somente acabando com este sistema podre será possível pôr fim à opressão de raça, de género e de classe. Para responder a todas estas aspirações, a classe trabalhadora e a juventude estado-unidenses, que estão a demonstrar uma força extraordinária, precisam das suas próprias ferramentas. Construir um partido operário nos Estados Unidos é uma necessidade incontornável, desde já para enfrentar esta batalha e levá-la à vitória.

Black Lives Matter!

Sindicato de Estudantes

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