A propaganda oficial não pode ocultar a continuidade das políticas imperialistas e anti-sociais

A 20 de Abril, Joe Biden cumpria os seus primeiros 90 dias na Casa Branca. Três meses marcados por anúncios bombásticos e declarações, apresentados por muitos meios de comunicação estadunidenses e internacionais como uma mudança radical face às políticas de Donald Trump. Uma campanha propagandística que tem muito pouco a ver com a realidade.

A luta nas ruas obriga a condenar o assassino de George Floyd, mas o racismo policial continua

Biden e a sua equipa não hesitaram em apresentar a condenação de Derek Chauvin, o polícia que assassinou George Floyd, como prova de que as coisas estão a mudar. O painel de jurados declarou Chauvin como culpado nas acusações de homicídio em vários graus e um de homicídio por negligência, o que se pode traduzir em penas de prisão de 40, 25 e 15 anos respectivamente, apesar da sentença final só ser anunciada daqui a várias semanas. Milhares de ativistas anti-racistas encheram as ruas para celebrar esta vitória, que não resulta de qualquer mudança nas políticas governamentais ou do funcionamento do sistema, mas sim da mobilização nas ruas e do medo que a classe dominante tem de uma explosão social.

No mesmo dia em que Chauvin é declarado culpado, Ma’Khia Bryant, uma jovem afro-americana de 16 anos, foi assassinada pela polícia em Ohio. Aliás, o próprio julgamento do homicídio de Floyd tinha terminado dois dias antes com fortíssimas medidas de segurança devido a novos protestos contra a violência policial. O motivo era outro homicídio racista na mesma cidade de Minneapolis, às mãos de outro agente a 11 de abril: Daunte Wright, afro-americano de 20 anos, perdeu a vida vítima de racismo policial a 15 minutos de onde ocorria o julgamento. A indignação cresceu ainda mais a 15 de abril, ao se descobrir que Adam Toledo, adolescente latino de 13 anos assassinado a 29 de Março em Chicago, estava desarmado e que a polícia tinha falsificado provas para justificar este homicídio como tendo ocorrido em defesa pessoal.

Uma vez mais se demonstra que não estamos perante ações isoladas de polícias racistas ou fascistas. Os gestos calculados de Biden, nomeando afro-americanos e latinos para a sua administração e reunindo-se com os familiares das vítimas, não podem ocultar que o racismo e a violência policial são intrínsecos ao capitalismo estadunidense e ao seu aparelho estatal. Biden deixou claro os limites das suas políticas, negando-se a levar a cabo qualquer saneamento. Tão pouco pensa em cortar o financiamento da polícia racista, para depois utilizar esse dinheiro em serviços sociais, prevenção da pobreza e das causas materiais que provocam a marginalidade, a delinquência e a dependência de drogas, tal como reclama o movimento. Do mesmo modo, não tocará nos grupos racistas de extrema-direita que atuam sem consequências neste mesmo aparelho estatal, alguns até fazendo parte dele.

A crise na fronteira e a resposta do Governo

Outra área onde as declarações grandiloquentes da Casa Branca contrastam escandalosamente com as medidas praticadas, é a da crise migratória na fronteira com o México. Durante a campanha eleitoral, Biden prometeu regularizar 11 milhões de migrantes não documentados e acabar com as medidas repressivas de Trump, começando por travar o famoso muro contra a imigração.

Quando centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, vindos de diferentes países da América Central, chegaram a pedir asilo, fugindo da miséria causada nos seus países pelas crises capitalistas e pelas políticas imperialistas da própria burguesia estadunidense, qual foi a resposta de Biden? Enviar o exército e as temidas patrulhas fronteiriças para persegui-los e deportá-los massivamente enquanto repete cinicamente “Não venham agora, porque teremos de vos enviar de volta” (La Vanguardia, 18/03/21).

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Quando centenas de milhares de homens, mulheres e crianças chegaram a pedir asilo, qual foi a resposta de Biden? Enviar o exército e as temidas patrulhas fronteiriças para os perseguir.

Juan Sebastián González e Ricardo Zuñiga, responsáveis pela América Latina e América Central da administração Biden, admitiram que “se continua a utilizar o artigo 42 (o mesmo que usava Trump, anotação nossa), uma lei aprovada durante a pandemia que permite a deportação imediata de migrantes sem qualquer entrave” (El País 27/03/21) 1. Só em fevereiro, segundo a Patrulha Fronteiriça, foram “apreendidos mais de 100.400 migrantes”. “Para encontrar um número semelhante a este, teríamos de voltar a junho de 2019, o mês após Trump chegar a um acordo com o México, obtido sob ameaça, para que travasse a imigração ilegal. (...) Se se mantiver este ritmo (de detenções e deportações), poder-se-ão alcançar níveis maiores que nos últimos 20 anos” (El País 22/03/21) 2.

Da “America First” de Trump ao “Made in America” de Biden

À medida que Biden concretiza as suas medidas para enfrentar os males da economia estadunidense, fica claro que a essência destas não é diferente das de Trump. O plano “Made in America” de Biden, apenas se distingue do “America First” de Trump a nível linguístico, mais sóbrio e calculado, implantando medidas protecionistas muito semelhantes.

A verdade é que este tipo de medidas ou a adoção de uma política externa agressiva não se deviam à vontade pessoal de Trump, mas sim às necessidades estratégicas da burguesia estadunidense. Há divisões profundas nesta burguesia. O setor que apoia Biden aposta em disfarçar, com recurso a linguagem conciliadora e medidas cosméticas, o que realmente quer com as suas políticas de cortes contra as massas e a sua ofensiva para manter a hegemonia imperialista mundial. Têm medo que uma ofensiva frontal — como pretende o setor que apoia Trump — provoque uma explosão social. Mas a profundidade da crise capitalista mundial e o enfraquecimento do imperialismo estadunidense perante o imperialismo chinês emergente, reduzem a sua margem de manobra. 

As primeiras decisões da administração Biden demonstram que a sua política externa é, em essência, a mesma que a de Donald Trump: manter o apoio ao golpista de extrema-direita Juan Guaidó na Venezuela e as sanções criminosas que pioram, a níveis dramáticos, o colapso da economia venezuelana, afectando a alimentação e a saúde de milhões de pessoas, assim como as sanções ao Irão ou os bloqueios a Cuba. Porta-vozes governamentais declararam que levantar o bloqueio “não está entre as prioridades” e qualquer suavização deste tipo de sanções será condicionada pela atuação dos governos destes países (aliados da China e da Rússia). Em poucas palavras: uma chantagem que procura fortalecer a posição das multinacionais estadunidenses na luta pelos mercados e fontes de matérias-primas. 

A respeito do novo plano de estímulo económico apresentado por Biden e aprovado pelo congresso, a campanha mediática alcançou o seu clímax. O New York Times falou do “esforço maior na luta contra a pobreza numa geração”. Outros media falam do fim do neoliberalismo. Bernie Sanders e outros dirigentes da ala esquerda do partido democrata, apoiaram o plano praticamente de forma incondicional, concedendo a Biden o verniz progressista que precisava para dissimular as suas políticas ao serviço de Wall Street. Algumas vozes dentro da esquerda reformista, mesmo que criticando aspectos do plano, até consideravam que isto se poderia tratar do primeiro passo para um novo estado de bem-estar. Que falência política!

Se analisarmos o plano, todas as ajudas sociais, para além de serem uma quantia muito limitada quando comparada com as necessidades e a situação dramática em que vivem milhões de famílias trabalhadoras, têm setembro como limite temporal. Para além disso, não inclui nenhuma das medidas estruturais e reivindicações exigidas durante anos por sindicatos e movimentos sociais, como o salário mínimo de $15 por hora, a luta contra a precariedade laboral ou a criação de um sistema de saúde público, universal e gratuito. Na verdade, as ajudas aos custos com saúde são inferiores ao previsto e consistem em subvenções de carácter limitado, a serviços oferecidos pelos seguros privados. 

Os defensores deste plano evidenciam isso, destacando que a sua quantia — 1,9 mil milhões de dólares — é o dobro do plano da UE contra a pandemia e supera amplamente o plano que Obama aplicou para enfrentar a crise de 2008. Este dinheiro representa 50% do total injetado durante 2020 pela administração Trump. Somando ambos, representa 32% do PIB. O governo espera que este plano permita reativar a economia finalmente, em conjunto com a vacinação massiva. O objectivo não é melhorar as condições de vida das massas, mas aumentar o consumo a curto e médio prazo, para que a economia e as empresas estadunidenses recuperem pelo menos parte do peso que perderam no mercado mundial. Ao mesmo tempo, pretendem que a propaganda sobre o plano e o apoio dos dirigentes da esquerda reformista apaziguem o mal-estar social. Mas a profundidade da crise capitalista mundial torna-se um obstáculo à concretização de ambos os objetivos.

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Só há uma maneira de fazer frente ao desastre que sofrem milhões de famílias trabalhadoras e de derrotar a extrema-direita trumpista: a mobilização massiva nas ruas.

Recuperar a luta nas ruas e construir um partido de trabalhadores com um programa socialista

Os últimos anos de intensa luta de classes nos Estados Unidos da América e estes primeiros três meses de mandato de Biden, demonstram que há apenas uma maneira de fazer frente ao desastre que sofrem milhões de famílias trabalhadoras, e de derrotar a extrema-direita trumpista: a mobilização massiva nas ruas, unificando a luta contra o racismo e a violência policial com a luta das mulheres trabalhadoras contra o machismo e a opressão de género, dos trabalhadores migrantes pelos seus direitos, da juventude e da classe trabalhadora pelo direito ao emprego e salários dignos, contra os despejos e os cortes, por uma educação e um sistema de saúde público.

A tarefa da esquerda é mobilizar toda essa força e organizá-la para construir um partido de trabalhadores armado com um programa marxista que lute pela expropriação da oligarquia financeira e a nacionalização de toda a riqueza do país sob o controlo democrático dos trabalhadores, para levar a cabo uma verdadeira transformação social.

[1] El asistente especial de Biden: “No tenemos una frontera preparada. Trump desmanteló nuestra capacidad”

[2] La frontera sur saturada: así se llegó a la primera crisis migratoria de la era Biden

Sindicato de Estudantes

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