Na manhã de domingo de 7 de dezembro centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em mais de 80 cidades do Brasil, em protesto contra o crescente número de feminicídio no país. Manifestantes clamam por justiça e pedem o fim desse sistema que permite tamanha violência de gênero.

A mobilização convocada pelo movimento Levante Mulheres Vivas contou com o apoio do Movimento Olga Benário, Instituto Mariele Franco e outra tantas organizações que lutam pela causa feminista e emancipação feminina. A mobilização também contou com a presença de diversas famílias que fizeram suas vozes serem ouvidas e suas perdas relembradas, com a esperança de que um dia cesse o derramamento de sangue que as mesmas foram vitimadas.

Feminídios aumentam no Brasil

As últimas semanas no Brasil foram marcadas por mais de 10 casos de feminicídio, sendo um dos mais repercutidos o caso da professora Allane de Souza Pedrotti Matos, de 41 anos, e da psicóloga Layse Costa Pinheiros, de 40 anos, duas educadoras do Centro Federal De Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET-RJ) que foram covardemente assassinadas a tiros dentro do campus. O caso foi registrado como feminicídio motivado por misoginia, com base em depoimentos que indicam que o algoz “não aceitava ser chefiado por mulheres”.

O autor do ataque foi João Gonçalves, funcionário do CEFET-RJ que já tinha um histórico de agressividade para com mulheres, mas o que apenas lhe valeu afastamento do trabalho por 120 dias. Era registrado como atirador “CAC”, uma categoria que reúne atiradores desportivos, colecionadores e caçadores, o que teria facilitado a compra de uma pistola e munições. A negligência institucional não só perante o antecedente agressivo e misógino do mesmo mas também em relação a facilidade com que este entrou armado no campus foram fatores decisivos para que essa tragédia acontecesse, Tudo isso se deu claro sobre a tutela do Estado que cedeu a licença e a permissão para a compra da arma do crime.

Esse caso revoltante representa apenas 2 dos mais de 2000 casos de feminicídios registrados até à data no ano de 2025 no Brasil segundo o Ministério das Mulheres, que também registra quase 3 mil atendimentos diários pelo número 180 (central de atendimento à mulher). Também é importante ressaltar o recorte de raça e classe. Segundo o Datasenado as mulheres negras são as maiores vítimas de violência doméstica e feminicídio no Brasil, com números que chegam até os 67%. Afetadas pela desigualdade social e pelo racismo estrutural que com a vulnerabilidade econômica se encontram impedidas de sair do ciclo de violência e de buscar ajuda.

O crescente número de casos de feminicídio no Brasil e no mundo se dá por uma cultura machista, patriarcal, racista, e por uma banalização dos discursos de ódio, submissão feminina e violência de gênero.

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A 7 de dezembro centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em mais de 80 cidades do Brasil em protesto contra o crescente número de feminicídio no país. O caminho é a organização e mobilização das massas!

Esta violência machista tem causas materiais. Durante o mandato de Bolsonaro a taxa de desemprego duplicou e a pobreza teve um aumento recorde. As mulheres, com os trabalhos mais precários e mal-pagos, foram as mais penalizadas. Foi perante esta situação que o governo ultra-reacionário atacou particularmente as mulheres cortando 90% da verba destinada ao combate da violência contra a mulher. Verba que seria usada em centros de atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica, que realizam serviços de saúde, assistência e campanhas de prevenção contra crimes de ódio voltados à mulher. O corte afetou diretamente o atendimento prestado às vítimas e também o canal de denúncias de violência doméstica. Bolsonaro também prejudicou politicas de saude publica ao dificultar o acesso ao aborto legal e vetar a distribuição gratuita de absorventes.

Após a vitória de Lula, se esperava políticas de reparação e mais investimentos nas áreas afetadas pelo governo Bolsonaro, assim como foi prometido na campanha presidencial. Mas ficaram muito àquem tanto o aumento de investimento quanto a própria execução do orçamento - que se ficou pelos 15% da verba do plano de prevenção do feminicídio. O resultado é o aumento do número de feminicídios.

O bolsonarismo normalizou a violência machista, que encontrou terreno fértil nas redes sociais

Bolsonaro e bolsonaristas também instrumentalizaram e normalizaram o discurso de ódio e fizeram disso o seu projeto com falas punitivistas, machistas, misóginas e com teor pedófilo. Plantaram a semente dos números que vemos hoje, pois o feminicídio é o último ato, antes dele vem a piada machista, a difamação, a culpabilização da vítima, etc… todos atos que legitimam essa violência de gênero e simpatizam com o algoz e não com a vítima. A grande mídia também teve o seu papel no aumento do discurso de ódio ao dar palco em rede aberta a figuras de extrema-direita com falas machistas e misóginas, incluindo durante décadas a Bolsonaro antes da presidência, o que terá facilitado a sua eleição anos mais tarde.

Esta normalização fez com que o discurso de ódio que antes era praticado em fóruns anônimos, hoje circula nas principais redes sociais sem maiores consequências. Tem viralizado nos últimos anos diversos discursos misóginos que tiveram origem nos chans, fóruns online cuja principal característica é o seu anonimato, nesse ambiente a frustração e o ressentimento foram convertido em ódio a minorias e esse poder de conversão foi cooptado pela extrema-direita, grupos extremistas e influenciadores que viram no ressentimento um mercado lucrativo e uma base política.

Nas redes sociais o discurso continuou o mesmo mas dessa vez com maior poder de alcance. são diversos os grupos que por conta da moderação branda por parte da meta, que já deixou claro em seu posicionamento a extrema-direita e que pretende deixar suas redes um espaço ainda mais seguro para os discursos de ódio, encontraram no facebook e no antigo twitter seu lugar de destaque.

As redes sociais também têm sido um palco para o apagamento e a distorção histórica. Think Tanks como o Brasil Paralelo, que é uma produtora financiada pela burguesia brasileira, tem usado do audiovisual para fazer uma propaganda de extrema-direita. Há alguns anos o Brasil Paralelo produziu um “documentário” que tentou deslegitimar e conspirar contra o caso da Maria da Penha, Mulher vítima de violência doméstica e tentativa de homicídio por tante do seu até então marido e que devido a sua luta e resistência seu caso resultou na criação da lei Maria da Penha, que visa combater e prevenir a violência contra a mulher. No documentário entrevistam o agressor de Maria da Penha com o intuito de deslegitimar a lei e desmoralizar as organizações que combatem a violência doméstica.

Falsificações como essas são as armas do movimento “Redpill”, cujo nome foi inspirado no filme Matrix, os “redpills” se denominam assim pois se autodenominam portadores da “verdade oculta” e afirmam que vivemos em uma sociedade aonde o homem “de verdade” está em “extinção”, pregam que o modo de vida masculino esta em ataque e que seu principal inimigo é o feminismo e a cultura “woke”, esse discurso pretensioso tem ganhado popularidade na juventude e enaltecendo uma masculinidade tóxica que se confirma na negação do outro: “eu tenho valor porque elas não tem valor.” assim a misoginia se mascara de “self improvement” e tem conseguido passar uma imagem de alternativa para jovens frustrados e ressentidos. um dos precursores desse discurso foi Andrew Tate que viralizou com falas misóginas e que recentemente foi preso acusado de abuso sexual e tráfico de humanos na Romênia.

Thiago da Cruz Shoba, conhecido na internet como “calvo do campari”, foi outro que também surfou na onda do movimento redpill, em 2023 já tinha sido acusado de ameaçar duas mulheres, foi preso recentemente por violência doméstica e lesão corporal, ficou popularmente conhecido nas rede sociais por falas misóginas. Através desse discurso, não só Thiago como outros influencers machistas conseguiram monetizar suas falas de ódio através das redes sociais e plataformas de vendas de cursos.

A violência machista em ascenção também em Portugal

Face ao aumento da pobreza e da extrema-direita em portugal a situação não é diferente, registados 25.327 casos de violência doméstica nos primeiros nove meses desse ano, o valor mais alto dos últimos sete anos.

A polícia e justiça machistas desencorajam as mulheres a denunciar os seus agressores.
Um caso marcante nesse ano foi o de uma jovem que foi abusada por três indivíduos que não tiveram sua identidade revelada em Loures que além de abusarem da jovem em estado vulnerável também gravaram e compartilharam o ataque em um grupo de telegram com centenas de pessoas. Os abusadores foram liberados após interrogatório judicial com apenas uma proibição de contato com a vítima. Um grupo de jovens revoltadas com a situação mobilizaram uma manifestação em frente à Assembleia da República que contou com centenas de pessoas a pedir justiça, condenando a impunidade do Estado face aos inúmeros casos de abusos e violência machista.

A crise habitacional em Portugal também é um fator que condiciona as vítimas a um ciclo de violência que por conta da dificuldade em achar moradia e o alto valor das rendas se encontram em uma situação de insegurança habitacional e violência doméstica, impossibilitadas de mudar de ambiente ou denunciar o agressor.

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Uma manifestação em frente à Assembleia da República que contou com centenas de pessoas a pedir justiça, condenando a impunidade do Estado face aos inúmeros casos de abusos e violência machista.

Só com a organização e mobilização das massas poderemos derrubar este sistema e acabar com a lacra da violência machista

A proposta de vários partidos políticos da extrema-direita à esquerda passa por muitas vezes abordar o tema do feminicídio como se fosse um problema simples, suas propostas são punitivistas e negam o machismo estrutural na sociedade capitalista e o papel da cultura e do discurso de ódio nesses números. O punitivismo vem apenas depois da tragédia já ter acontecido.

Para acabar com os feminicídios e a violência machista precisamos de um programa capaz de derrubar o sistema de classes e patriarcal em que vivemos. Por isso, exigimos:
- Habitação acessivel e digna, para que casos como os já mencionados não voltem a se repetir.
- Pleno emprego, com trabalhos dignos e salários que se adequem às nossas necessidades.
- Saúde pública, gratuita e de qualidade, com acesso facilitado a planeamento familiar, métodos contraceptivos, de interrupção da gestação e também apoio médico a pessoas transgênero em processo de transição.
- Mais creches públicas e um sistema público de lavanderias e cantinas para acabar com a tripla jornada de trabalho suportada esmagadoramente por mulheres.
- Uma educação pública e de qualidade, com currículos que incluiam o combate ao machismo, à queerfobia, o racismo e o preconceito que dividem e atacam nossa classe.
- Políticas públicas e financiamentos para socorrer as mulheres vitimadas pela violência doméstica e também vítimas de queerfobia, e campanhas de prevenção a violência de gênero.

Temos de por um fim aos feminicídios e restante violência machista!

Toda a solidariedade às companheiras e companheiros em luta contra a violência machista no Brasil!

Junta-te à Esquerda Revolucionária para construir o partido revolucionário e derrubar este sistema capitalista e patriarcal.

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