Se a verdade é a primeira vítima de uma guerra, em tempos de pandemia não há melhor sorte. Na era dourada das tecnologias de informação — em 2020, mais de 4.540 milhões de pessoas, ou 60% da população mundial, estavam conectadas à Internet —, a censura dos meios de comunicação é insuportável. Como sempre, quando se trata de assuntos estratégicos para o capital, nada se dá por acidente. Uma informação correta poderia revelar a decadência social dos EUA e da Europa, e desmontar a tentativa de transformar o vírus numa espécie de maldição bíblica e de justa punição pela irresponsabilidade individual dos cidadãos. Acima de tudo, essa informação evidenciaria o crime que os governos ocidentais estão a perpetrar através de uma gestão calamitosa na qual a maioria das mortes, contadas aos milhões, são evitáveis.

Como parte da guerra que está a ser travada, o imperialismo ocidental tem implementado uma cuidadosa estratégia de desinformação para ocultar o que se passa na China um ano após a eclosão da pandemia. Não é um acidente. A luta pelo mercado mundial e pela hegemonia capitalista determina que assim o seja. Desde abril, as informações nos meios de comunicação de massas desapareceram e apenas tangencialmente se fala da China para afirmar que os seus êxitos são fruto de seu regime ditatorial, afirmando que, nas sociedades abertas e “livres”, o aumento exponencial de mortes é o preço a pagar por viver em democracia e sob um Estado de Direito. Dá para acreditar neste discurso?

Os números são reveladores

Dada a disparidade populacional dos diferentes países — variando entre mais de 1.400 milhões na China e 330 milhões nos Estados Unidos — há um dado conscientemente ignorado, porém extraordinariamente útil: o número de mortes por cada 100.000 habitantes. Considerando esta taxa, os EUA multiplicam por 400 a mortalidade da China, e a Alemanha multiplica-a por 200. No Estado espanhol, segundo os dados oficiais do governo, a mortalidade multiplicaria por 390 a taxa da China. Mas se considerarmos os dados do Instituto Nacional de Estatística, que informa que em 2020 foram registradas 80.000 mortes a mais do que o esperado, a mortalidade é multiplicada por mais de 600.

 

Dados covid-19 (até 26/01/2021)

Mortos
Diagnosticados
Taxa de mortalidade
População
100.000 hab.
em milhões
Mundo
2.144.452
99.875.897
não disponível
7.700
EUA
421.670
24.631.890
128,10
330
China
4.808
99.470
0,30
1.440
Alemanha
53.317
2.158.407
63,80
83
Grã Bretanha
98.723
3.680.102
146,20
67
Espanha (1)
56.799
2.629.817
121,50
47.4
Espanha (2)
80.000
171,13

(1) Números do Governo. (2) Números do INE para aumento da mortalidade em 2020 em relação a 2019
(Fonte: EL PAÍS1)

 

Definitivamente, se a China tivesse a taxa de mortalidade dos EUA por cada 100.000 habitantes, ultrapassaria 1.700.000 mortes, não teria menos que 5.000. Inversamente, se os Estados Unidos tivessem a taxa da China, o número de mortes seria 1.000, não mais de 420.000.

Ainda que sejam muitas as insinuações de falsificações dos números fornecidos pelas autoridades asiáticas, é óbvio que, se o regime de Pequim tentasse esconder 1,7 milhões de corpos, os serviços de espionagem já teriam divulgado essa mentira com grandes manchetes. Suponhamos, ainda, que a taxa chinesa seja o dobro, o triplo ou 20 vezes maior do que a oficial. Mesmo assim, este resultado significaria que seria possível salvar milhões de vidas em todo o mundo.

As razões da diferença chinesa

Deixando de lado que Bolsonaro alertou que a vacina poderia fazer-nos “virar jacarés”,2 ou que Trump tenha sugerido “injetar desinfetante nos pulmões”,3 não é difícil estabelecer comparações entre as medidas aplicadas em cada país. O que aconteceu na primeira semana de 2021 é esclarecedor.

A 7 de janeiro, a cidade chinesa de Shijiazhuang, com 11 milhões de habitantes, entrou em quarentena após serem detetados 117 contágios. Nas primeiras 24 horas, foram realizados mais de 6 milhões de PCRs (testes à covid-19) e analisados 40% deles, as aulas foram suspensas e as estações de comboio, os autocarros e o aeroporto foram fechados.4 Neste mesmo dia, o Ministério de Saúde espanhol anunciou 42.160 novos contágios e 241 mortes das 24 horas anteriores, mas não adotou nenhuma medida especial. Na Alemanha, a 5 de janeiro, o governo decidiu encerrar escolas e o comércio não-essencial, mas o motivo para fazê-lo foi o facto de se terem alcançado 12.000 contágios e mais de 900 óbitos num único dia. Quanto aos Estados Unidos, basta lembrar que, no Dia de Reis, dezenas de milhares de racistas, fascistas e negacionistas do vírus invadiram o Capitólio.

Nada mais distante das nossas intenções do que elogiar as autoridades chinesas. Somos muito conscientes de que o regime de Pequim, ainda que se revista de uma bandeira vermelha com a foice e o martelo, representa os interesses da burocracia capitalista e da nova burguesia chinesa. Não é um Estado operário nem tem nada a ver com o socialismo, e o caráter capitalista e bonapartista da presidência de Xi Jinping está para lá de qualquer dúvida.

Mas o que também não tem nenhum sentido é seguir a propaganda imperialista ocidental, que pretende ocultar que a China tem sido capaz de dar uma resposta à pandemia e de superá-la. A questão a clarificar é concreta: como foi possível? A resposta a esta pergunta não se encontra no Brasil de Bolsonaro ou nos EUA de Trump serem a quintessência da liberdade e da democracia, basta formular a pergunta para descartar isso. Não, a questão tem uma base material e não moral: a extraordinária potência económica do dragão vermelho. O discurso das potências capitalistas ocidentais coloca-nos o seguinte dilema: há que escolher entre o direito à saúde e manter de pé a economia. Milhões de famílias trabalhadoras vêem-se entre a opção de morrer com o vírus ou, no melhor dos casos, cair na pobreza caso a atividade não-essencial seja paralisada para impedir a sua propagação. Entretanto, o facto de a covid-19 se ter tornado uma pandemia tão mortal é uma consequência e não a causa da nossa trágica situação.

A origem da catástrofe atual são décadas de políticas selvagens de cortes e austeridade, da ditadura exercida pelos grandes monopólios — inclusive do setor de saúde — perante os quais se curvam todos os governos da Europa e o dos Estados Unidos. Em suma, a crise orgânica do sistema capitalista, que após a grande recessão de 2008 tem sido incapaz de superar a estagnação, pondo em evidência o declínio prolongado do imperialismo estado-unidense e europeu.

O regime chinês conseguiu dar uma importante resposta na luta contra a pandemia, mas isto não tem nada a ver com razões de ordem moral ou com uma maior preocupação com o bem-estar do povo. O motivo é outro: a China encontra-se em plena ofensiva para capturar a maior parcela possível do mercado mundial e precisa que o seu aparelho produtivo e exportador não se afrouxe. Conta com uma situação interna muito mais estável, com uma legislação repressiva que protege a super-exploração intensiva da força de trabalho,5 com a possibilidade de alocar recursos de forma mais centralizada… Tudo isto devido a um capitalismo de Estado que se sustenta sobre uma estrutura económica e política herdada do período maoísta, um enorme superávit comercial, vastas reservas de divisas e uma alta competitividade.

A política é economia concentrada

Vejamos a experiência chinesa a partir desta perspetiva. Após os erros e as ocultações iniciais, confirmada a letalidade e a velocidade de propagação do vírus, as autoridades decidiram parar subitamente a atividade económica. Os efeitos desta decisão foram imediatos: o primeiro trimestre de 2020 registou dados similares aos das potências ocidentais, o PIB caiu 6,8% e a atividade industrial 6%, enquanto o consumo interno e o investimento também tiveram números negativos.

O regime chinês compreendeu que, se a pandemia escapasse ao seu controlo, o problema não seria um ou dois trimestres negativos, mas um grande e agonizante retrocesso. Esta atuação rápida e drástica produziu os seus frutos. A China é a única grande economia que fechou 2020 com um crescimento positivo e, de acordo com as previsões, em 2021 continuará a superar os seus concorrentes diretos.

 

Crescimento do PIB

2021
2020
Mundo
4,0
-4,3
China
7,9
2,3
EUA
3,5
-3,6
União Europeia
3,6
-7,4
Japão
2,5
-5,3

(Fonte: Banco Mundial)

 

Durante a crise de 2008, o regime já mostrou as suas diferenças em relação aos seus homólogos ocidentais. Desde então, de acordo com dados oficiais, foram destruídos mais de 20 milhões de postos de trabalho. Mas, a implementação de diferentes planos de investimento estatal — que ultrapassaram um bilião de dólares — e aos quais foi possível recorrer graças ao enorme superávit, permitiu recuperar uma parte substancial do emprego e da procura das suas grandes indústrias.

A “eficácia” dos planos chineses contra a pandemia é nutrida pelo seu gigantesco e vigoroso tecido produtivo e comercial, que reflete o avanço das forças produtivas nos últimos anos, e que assenta, evidentemente, sobre a exploração brutal de centenas de milhões de camponeses que migraram para as cidades, submetidos a condições de trabalho semi-escravas, para maior benefício dos capitalistas chineses e das multinacionais ocidentais. Além disso, a terrível destruição ambiental é outra característica deste crescimento.

Como é óbvio, a economia chinesa também sentiu os efeitos da crise de sobreprodução, a instabilidade do seu setor financeiro (que levou, há três anos, ao colapso das suas bolsas de valor), o acelerado crescimento da sua dívida empresarial e bancária — uma bomba relógio alojada nas entranhas de seu organismo económico… Mas a questão, aqui, é que os seus concorrentes estão numa posição muito mais deteriorada e numa fase de retração muito mais intensa e profunda.

Há dois dados que podem ajudar-nos a perceber a dimensão real deste processo histórico. A partir de 1980, centenas de milhões de pessoas abandonaram o campo em busca de um futuro laboral — um movimento migratório interno equivalente a quatro vezes o total da população alemã — dando lugar a uma modificação qualitativa do país: a população urbana passou de 26%, em 1990, para 60%, em 2020. Hoje, as cidades chinesas abrigam mais de 840 milhões de habitantes.

Um movimento demográfico destas dimensões foi possível graças aos grandes investimentos na indústria, numa primeira fase fundamentalmente estrangeira. A abundância de força de trabalho semi-escrava, carente de direitos sindicais, atraiu montanhas de capital ocidental, levando à famosa deslocalização de empresas da Europa e dos Estados Unidos para o sudeste asiático. Este fenómeno, que absorveu uma parte da liquidez das grandes metrópoles capitalistas e gerou retornos milionários para as multinacionais, contribuiu para modernizar a planta económica da China, os seus transportes e as suas infraestruturas. Um desenvolvimento desigual e combinado que, partindo de um estado de atraso e avançando sob o duro controlo do aparelho stalinista, conduziu o país a altos níveis de modernidade sem ter de atravessar as mesmas fases históricas das potências ocidentais.

A restauração capitalista chinesa seguiu um caminho sensivelmente diferente do caminho da Rússia e dos países do leste Europeu: em vez de atravessar um prolongado período de colapso, com retrocessos do PIB somente comparáveis aos de um período de guerra, além de um empobrecimento generalizado da população, a China apresentou décadas de crescimento sustentado. Um único dado demonstra amplamente o que afirmamos: se, no ano de 2000, a formação bruta de capital fixo na China era estimada em 400.000 milhões de dólares, em 2018 alcançou os 5,5 biliões, superando o número dos EUA. Não é de somenos que o ponto de inflexão tenha ocorrido, precisamente, entre 2008 e 2010.

 

Formação Bruta de Capital Fixo (Biliões de dólares)

Ano
China
EUA
Relação (1)
China/EUA
2000
0,4
2,4
16,7
2010
2,9
2,8
103,6
2018
5,7
4,3
132,6

(1) Percentagem que a China representa no total dos EUA (Fonte: Indexmundi)

 

Graças a este investimento maciço, a China foi batizada “a fábrica do mundo” e os seus produtos inundaram todos os continentes. Desde 2008, o valor total das suas exportações nunca esteve abaixo de 1,2 biliões de dólares. A partir de 2012, o limite mínimo foi estabelecido em mais de 2,2 biliões. Em 2020, no ano da pandemia, atingiu o número recorde de 2,49 biliões, obtendo com isso um superávit comercial também recorde de 535.030 milhões de dólares, o maior em cinco anos!6

A supremacia estado-unidense sob ameaça

A ascensão chinesa e a decadência ocidental, embora se desenvolvam em sentidos opostos, estão dialeticamente inter-relacionadas e são marcadas por saltos de quantidade para qualidade. Ainda que ao país asiático tenha sido atribuído o papel de produtor de mercadorias de baixo valor e montador de componentes importados, as coisas mudaram muito.
É importante lembrar que quando os dirigentes da burocracia stalinista chinesa iniciaram o processo de restauração capitalista, estudaram cuidadosamente a dissolução da URSS. A nomenclatura do PCC decidiu pilotar o desmantelamento da economia planificada, protegendo, a todo custo, os seus interesses, e por isso recorreu à manutenção de uma forte centralização e de um poderoso setor estatal. O partido e o Estado continuaram fundidos, ainda que o fizessem agora como ferramentas a serviço da acumulação capitalista.
O peculiar regime de capitalismo de Estado chinês não aceitou o papel que as grandes potências lhe haviam atribuído na divisão internacional do trabalho. A burguesia chinesa entendeu que as condições para competir contra os maiores estavam a amadurecer rapidamente. A enorme quantidade de capital de que dispunha graças ao superávit comercial permitiu cobrir as suas necessidades de abastecimento de matérias-primas e realizar investimentos milionários em todo o mundo. A América Latina e Central, África e muitos países asiáticos estão cada vez mais dependentes de compras e crédito chineses.

A evolução foi de tal envergadura que a quantidade se converteu em qualidade. Os Estados Unidos perderam sua posição como banqueiros do mundo. A China é atualmente credora de mais de 5 biliões de dólares, um número equivalente a 6% do PIB mundial.7 A parcela do gigante asiático sobre o total devido aos países do G20 por outras nações aumentou de 45%, em 2013, para 63%, no final de 2019. No mesmo período, a participação do Japão, o segundo maior credor do G20, manteve-se inalterada nos 15% (dados do Banco Mundial). A China é o maior detentor de dívida estado-unidense depois do Japão.

Mas as mudanças não se limitam ao âmbito financeiro. A China luta por sua supremacia tecnológica, e fá-lo de forma consciente e perseverante, conforme demonstra o seguinte quadro:

 

Investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (percentagem do PIB)

2018
2010
2000
1998
Mundo
2,27
2,02
2,06
1,98
EUA
2,84
2,74
2,63
2,50
Alemanha
3,09
2,71
2,40
2,21
China
2,19
1,71
0,89
0,65

(Fonte: Banco Mundial)

 

Embora a Alemanha tenha destinado, em 2018, uma percentagem maior do PIB ao investimento em pesquisa do que a China, está abaixo no que diz respeito ao volume de dinheiro vivo: 0,1 biliões de dólares perante os 0,31 da China.

A corrida pelo domínio tecnológico está a ser ganha por Pequim. Basta considerar a obsessão do imperialismo estado-unidense com os avanços da Huawei. A sua participação na corrida espacial também é relevante, fechando 2020 com o sucesso da missão Chang’e 5 à lua, o que certamente levou à inclusão da China no grupo elitista de países que já conseguiram trazer amostras lunares à Terra. Das duas potências com semelhante título, uma são os Estados Unidos e a outra é a extinta União Soviética.
Dizíamos acima que a covid-19 é a consequência e não a causa do enorme sofrimento pelo qual passamos, mas, como explica o marxismo, os acontecimentos sociais e económicos estão em constante movimento e transformação e, sob determinadas circunstâncias, as consequências transformam-se em causas.

Se, mesmo antes de surgir a pandemia, havia já uma enorme dependência mundial de material sanitário chinês,8 a crise económica deu mais oportunidades à China para dominar este mercado. Paralelamente, as ameaças de guerra comercial dos EUA, com as suas sanções tarifárias, não têm dado frutos. Durante a presidência de Trump, o déficit comercial estado-unidense com a China, longe de diminuir, aumentou 13%.9

A China, todavia, não ultrapassou os EUA como potência hegemónica. A economia estado-unidense mantém a primazia em áreas importantes: maior PIB, maior produtividade do trabalho, o dólar continua a ser a moeda mais utilizada no mercado mundial… Mas trata-se de um processo de forças vivas que ainda não terminou. Quem irá prevalecer? Seria precipitado apresentar uma perspectiva taxativa e definitiva, mas as atuais circunstâncias económicas e políticas beneficiam o regime de Pequim.

Existem antecedentes históricos que vale a pena estudar seriamente. Quando os Estados Unidos tomaram o cetro da Grã-Bretanha — e foi precisamente a terrível crise iniciada em 1929 que permitiu aos estado-unidenses desferir o golpe final e decisivo —, Trotsky escreveu a respeito disso: “... tampouco descartamos que, dada a atual dimensão mundial do capitalismo norte-americano, a próxima crise seja extremamente profunda e aguda. Mas não há absolutamente nada que justifique a conclusão de que isso irá restringir ou debilitar a hegemonia dos Estados Unidos. (...) Dá-se exatamente o contrário. Num período de crise, os EUA exercerão a sua hegemonia de forma mais completa, descarada e brutal do que num período de ascensão. Os Estados Unidos tentarão superar os seus principais problemas e males às custas da Europa.”10

A crise atual dará mais vantagens à China.

Luta interimperialista e luta de classes

Em novembro do ano passado, o imperialismo chinês obteve uma nova vitória graças à Parceria Económica Abrangente Regional (RCEP, na sigla em inglês), firmada por 15 países da região Ásia-Pacífico. Os seus integrantes somam mais de 2.200 milhões de habitantes, representam cerca de um terço da economia mundial e um PIB combinado de cerca de 26,2 biliões de dólares na região com o maior crescimento do mundo. É uma boa resposta à guerra comercial desencadeada pelos EUA: a China já exporta mais para o sudeste asiático do que para os Estados Unidos ou para a Europa.11 Tendo em conta que a ultrapassagem ocorreu durante a pandemia, podemos vislumbrar o que poderá ocorrer no próximo período.
Há anos os Estados Unidos estão a perder posições a favor da China em áreas estratégicas, da América Latina à África, passando pelo Médio Oriente e chegando ao Pacífico. Esta redução de suas fontes de exploração externas traduz-se, internamente, numa grande instabilidade social, num incremento da luta de classes, e numa profunda polarização política. Movimentos históricos como o Black Lives Matter ou o apoio angariado por Bernie Sanders são a expressão da radicalização à esquerda de milhões de trabalhadores e trabalhadoras de todas as raças. Mas há o reverso da medalha. O enorme apoio eleitoral a Trump nas últimas eleições, a ofensiva de grupos fascistas e a recente invasão do Capitólio também mostram a raiva e a impotência das camadas médias empobrecidas e de um aparelho de Estado que se sente humilhado mundialmente.

Quando olhamos para o gigante asiático, observamos relações diferentes entre as classes, a começar pela situação das camadas médias — um setor social que, quando se encontra satisfeito e otimista em relação ao futuro, se transforma num verdadeiro amortecedor da luta de classes. Apesar de os números apresentados pelos analistas burgueses padecerem de parâmetros muito frouxos para considerar quem faz parte da classe média e pequena-burguesia, a transformação sofrida nos últimos anos foi evidente. Em 1990, os Estados Unidos e a Europa Ocidental compreendiam três quartos da classe média mundial apesar de representarem um terço da população total.12 A partir de 2018, é a China que concentra quase 50% das camadas médias.13

Enquanto o tom geral da luta de classes se debate com contínuas explosões revolucionárias, lutas defensivas contra as políticas de austeridade e o crescimento do populismo de extrema-direita, na China observa-se um cenário que oscila entre greves ofensivas por uma maior partilha do bolo e uma impressionante estabilidade social em comparação com o que ocorre nos EUA e noutras partes do mundo. Entre 2008 e 2019, o salário real foi duplicado na China, até ao ponto de, em 2016, os salários chineses ultrapassarem aqueles dos maiores países da América Latina e de alguns países da União Europeia, como Romênia e Bulgária. Enquanto o salário médio por hora na indústria chinesa triplicou entre 2005 e 2016, atingindo os 3,60 dólares, no mesmo período, o salário do setor industrial do Brasil caiu de 2,90 para 2,70 dólares, e no México de 2,20 para 2,10 dólares.14
Também é interessante notar as contradições que este processo de acumulação está a provocar no seio da própria classe dominante chinesa. O caso de Ma Yun, dono do empório de Alibaba, é bastante significativo.

Segundo variadas informações, este abastado capitalista estava a concentrar demasiado poder — alguns investidores avaliam seu conglomerado em 359.000 milhões de dólares —, especialmente a sua subsidiária Alipay que, com seus empréstimos a 20 milhões de particulares e 500 empresas, representava uma concorrência ameaçadora para muitos bancos com apoio direto do Estado. Em reação a este crescimento e às críticas feitas publicamente pelo magnata à política económica do governo, as autoridades adiaram sine die a cotação em bolsa de valores da sua empresa Ant Group, 48 horas antes de esta se realizar, e esperando Ma Yun obter uma capitalização superior aos 30.000 milhões de dólares. Desde então, existem rumores de uma possível nacionalização.

O capitalismo chinês encontra-se num período de ascensão e, provavelmente, os efeitos da atual crise sobre seus concorrentes permitirão à China escalar ainda mais posições. Mas é necessário ressaltar que não estamos diante de uma nova modalidade de capitalismo virtuoso capaz de excluir as contradições. Nenhum país, nenhuma economia nacional, por mais poderosa que seja, pode desvincular-se do mercado mundial e da sua crise orgânica neste período de decadência imperialista.

Numa série de setores, a China começa a desenvolver a Síndrome de Werner, uma doença que faz com que o organismo envelheça demasiado rápido: cabelos grisalhos, endurecimento das artérias, insuficiência cardíaca, diabetes… uma doença que, no caso de um organismo económico, se traduz numa dívida gigantesca,15 em especulação financeira, numa bolha imobiliária, na destruição do meio-ambiente…

Para concluir, tomamos a liberdade de citar Trotsky, pedindo ao leitor que troque o termo “capitalismo americano” por “capitalismo chinês”: “Uma nova ascensão económica (não podemos excluí-la de antemão) terá de se apoiar não sobre um equilíbrio interno, mas sobre o atual caos económico mundial. O capitalismo americano entrará numa fase de imperialismo monstruoso, de corrida armamentista, de interferência nos assuntos do mundo inteiro, de choques militares e de conflitos.”16

 


 Notas:

1. Casos confirmados de coronavírus em Espanha e no mundo

2. Bolsonaro diz que a vacina Pfizer pode ter o efeito colateral de transformar as pessoas em jacarés

3. Trump sugere injetar desinfetante em pacientes com covid-19 para matar o vírus

4. Dados da Agência EFE publicados em La Vanguardia. China fecha uma cidade de 11 milhões de habitantes após mais de 100 casos

5. A capacidade do regime no momento de realizar um controlo pandémico sistemático e seguro sobre uma parte considerável da população reclusa (cinco milhões) — que realiza trabalhos produtivos — é, evidentemente, muito questionável. O mesmo se passa com milhões de camponeses e trabalhadores que, amontoados, produzem para grandes empresas tecnológicas, têxteis, de brinquedos… As condições para o distanciamento social, EPIs e segurança sanitária destacam-se, muitas vezes, pela sua inexistência. O que parece é que, nos grandes centros urbanos, as medidas adotadas têm sido muito mais drásticas, contundentes e eficazes do que nos países ocidentais.

6. Indexmundi. Quadros de Dados Históricos Anuais da China.

7. Os créditos ocultos da China aos países em desenvolvimento e seu crescente poder como o "grande credor" do mundo

8. De acordo com o Peterson Institute for International Economics, 50% dos trajes de proteção EPI, 71% das máscaras, 38% das luvas e 58% dos óculos de proteção usados ​na Europa foram fabricados na China.

9. A pandemia cria uma nova ordem mundial: todos perdem, a China ganha

10. Citação de um artigo intitulado Molotov’s Prosperity in Knowledge, setembro de 1930.

11. O Sudeste Asiático torna-se o maior parceiro comercial da China

12. A emergência da classe média: uma coisa de emergentes

13. Relatório anual do Credit Suisse Wealth Report. China já concentra metade da classe média mundial

14. Todos os dados sobre salários vêm do Global Wage Report 2018-2019 da Organização Mundial do Trabalho.

15. Embora o PIB tenha duplicado nos últimos dez anos, a proporção da dívida pública da China em relação ao PIB aumentou de 34% em 2010 para mais de 63% no terceiro trimestre de 2019, de acordo com dados do Instituto de Finanças Internacionais. Somando a dívida das famílias e das empresas não financeiras, o aumento da relação entre dívida e PIB passou de 178% para 289% no mesmo período.

16. Está na Alemanha a Chave da Situação Internacional, 26 de novembro de 1931, Leon Trotsky. Lucha contra el fascismo en Alemania. FFE 2004, p. 96

 
 
 
 
 

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