A classe operária britânica está a ser a protagonista de um levantamento social e grevista. Anos de precariedade e pobreza, de cortes e privatizações nos serviços públicos, de degradação e abandono de cidades e bairros da classe trabalhadora, de aventuras imperialistas — como no Iraque ou, agora mesmo, na Ucrânia — que as famílias trabalhadoras acabam a pagar com a vida e com cortes sociais, geraram um profundo descontentamento que está a tornar-se uma rebelião social generalizada.

Crise e decadência do capitalismo britânico

O Reino Unido enfrenta uma crise económica, social e ecológica sem precedentes. Ondas de calor que paralizaram a economia e causaram milhares de mortes; uma seca sem precedentes que se espera que continue até outubro; uma inflação que já atingiu os 10,1%, e que pode chegar aos 22% em 2023, condenando à miséria milhares de famílias trabalhadoras que terão de escolher entre comer ou aquecer-se; uns serviços públicos, especialmente o NHS (Sistema Nacional de Saúde), à beira do colapso e uma recessão gravíssima no horizonte.

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Os sindicatos combativos, como o RMT, a esquerda trabalhista, Corbyn e Momentum, devem agora de promover uma campanha para que a convocação da Greve Geral se torne realidade.

E tudo isto durante o caos nos círculos políticos da classe dominante, após a queda de Boris Johnson, que nem com todo o seu furioso nacionalismo foi capaz de esconder o completo fracasso do Brexit e o profundo e irreversível declínio daquela que foi outrora uma das principais potências imperialistas do planeta. Esta situação é igualmente um sério golpe para o imperialismo estado-unidense, que vê o seu principal aliado na guerra da Ucrânia a ter problemas crescentes e com consequências cada vez mais imprevisíveis.

Uma crise que, novamente como em 2008, significa sangue, suor e lágrimas para as trabalhadoras e os trabalhadores da Grã-Bretanha, mas lucros estratosféricos para a City de Londres, para os bancos e os grandes monopólios capitalistas. Os gestores das 100 maiores empresas britânicas cotadas na Bolsa de Londres viram as suas receitas aumentar 39% em 2021! O governo conservador afirma não existirem recursos para o NHS e para outros serviços públicos enquanto destina milhares de milhões de euros à guerra da Ucrânia e forra os bolsos dos capitalistas da indústria militar.

Uma onda de greves que ameaça transformar-se numa rebelião social

Neste contexto, a classe trabalhadora britânica disse "enough is enough" (já basta!), com conflitos e greves dos trabalhadores, legais e ilegais, espalhados por todo o país. Ao recusar-se a oferecer aumentos salariais proporcionais à inflação  ficando-se por aumentos ridículos de 4,5% ou 6% nos melhores casos, o que equivale a um empobrecimento selvagem , o patronato está a provocar a ira da classe trabalhadora.

Durante o mês de agosto, mais uma vez, as trabalhadores e os trabalhadores dos caminhos-de-ferro britânicos, sob a direção do sindicato RMT, voltaram a paralisar o país com uma greve de três dias que se estendeu ao Metro de Londres e à qual também se juntaram os trabalhadores dos autocarros de Londres. Esta foi uma greve que paralisou o Reino Unido e provocou uma campanha de calúnias e criminalização por parte do Partido Conservador (os Tories) e dos meios de comunicação social do grande capital.

A favorita nas primárias do Partido Conservador (Tory), Liz Truss, uma reacionária que tenta imitar Thatcher, não hesitou em acusar os trabalhadores britânicos de serem preguiçosos, questionando abertamente o seu direito à greve e ameaçando apertar ainda mais a legislação anti-sindical, com um aumento da margem de aprovação necessária para se convocar legalmente a greve a passar de 40% para 50%, e permitindo que sejam contratados fura-greves. Em suma, pretende abolir na prática o direito à greve ou, como notou o Secretário-Geral do RMT, Mick Lynch, "regressar à época vitoriana".

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O governo conservador diz que não há recursos para o NHS e outros serviços públicos enquanto destina milhares de milhões de euros à guerra da Ucrânia e dá lucros à indústria militar.

Mas todas estas ameaças estão a cair em ouvidos moucos. Cada vez mais setores aprovam esmagadoramente convocatórias de greve para as próximas semanas naquilo que, na prática, se está a tornar um movimento generalizado das bases rumo à greve geral: os estivadores do porto de Felixstowe  através do qual passa um terço de todas as mercadorias que saem e entram no Reino Unido — e também os do porto de Liverpool, os 115.000 trabalhadores do Royal Mail (correios), as universidades, os bombeiros, os cantoneiros e outros serviços municipais, enfermeiros e professores, até mesmo os advogados que irão entrar em greve indefinida — e os jornalistas. O secretário-geral do sindicato dos ferroviários, RMT, declarou após as últimas greves que, se as reivindicações não forem atendidas, poderão entrar em greve por tempo indeterminado.

Esta é uma onda de greves que está a contagiar setores sindicalmente desorganizados, como o são os trabalhadores da Amazon, assim como empresas onde os sindicatos assinaram acordos de aumentos salariais ridículos de 2% ou de 2,5%. Uma onda na qual as bases estão a passar por cima dos próprios dirigentes sindicais. Dão-se greves espontâneas  "selvagens", de acordo com os meios de comunicação de propaganda burguesa  que questionam sem quaisquer contemplações a legislação anti-sindical aprovada nos tempos de Margaret Thatcher.

É uma situação à qual se soma o temor que sentem milhões de famílias britânicas perante a possibilidade de não se conseguirem aquecer no inverno, dado o aumento desenfreado dos preços da energia: 110% no caso dos combustíveis líquidos, 95% no caso do gás e 54% no caso da eletricidade. Em janeiro, estima-se que dois terços das famílias britânicas, 45 milhões de pessoas, cairão em pobreza energética. Os bancos de alimentos já lançaram o alerta, avidando que, se não receberem mais alimentos, terão de reduzir as porções ou mesmo rejeitar diretamente 70% dos pedidos. A situação tem levado diferentes grupos a promover uma campanha de desobediência civil para não pagar as contas da energia, inspirada na campanha contra o Poll Tax1 que fez cair Thatcher.

Keir Starmer e a direcção trabalhista contra os trabalhadores

Os Tories, sem liderança, estão mergulhados numa crise profunda, talvez a maior da sua história. Uma crise que já teria derrubado o governo em funções e forçado novas eleições se não fosse a política de colaboração de classes e paz social da direção do Partido Trabalhista e do seu atual líder, Keir Starmer, assim como da burocracia sindical do TUC.

Keir Starmer opõe-se publicamente às greves, proibindo os dirigentes e militantes do partido de participar em piquetes: "O Partido Trabalhista na oposição deve ser o Partido Trabalhista no poder... E um governo não participa em piquetes, um governo resolve os conflitos." é toda uma declaração de intenções no caso de ganharem as eleições amanhã: se governarmos, será para os patrões e pelos capitalistas.

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Keir Starmer opõe-se publicamente às greves, proibindo dirigentes e militantes do partido de participar nos piquetes.

Apesar de tudo, deputados e militantes trabalhistas revoltaram-se contra esta posição abertamente pró-patronal e anti-sindical, fruto da enorme pressão da luta de classes. Até um dos principais porta-vozes da equipa de Starmer, Sam Tarry, responsável pela pasta dos transportes do Partido Trabalhista, foi despedido depois de ter participado num piquete do RMT em Londres na greve de junho.

Uma nova confirmação, depois da caça às bruxas contra Corbyn que terminou com a sua expulsão do partido, da impossibilidade de conciliar os interesses da classe trabalhadora com uma direção trabalhista completamente dedicada à gestão dos interesses dos capitalistas britânicos. Ou com a classe trabalhadora ou com os patrões!

A posição de Starmer está a abrir um sério conflito com os sindicatos, especialmente com aqueles que ainda estão filiados no Partido Trabalhista. A secretária-geral do sindicato Unite, o segundo maior da Grã-Bretanha e aquele que mais financia o Partido Trabalhista, ameaçou deixar o Partido por este se estar a tornar "irrelevante para os trabalhadores" e, sob a direção de Keir Starmer, estar a "mostrar-lhes o dedo do meio" quando decidem entrar em greve.

Por seu turno, Starmer e os atuais dirigentes trabalhistas, como bons lugar-tenentes do grande capital no movimento operário, eliminaram do programa qualquer referência às nacionalizações  que Corbyn tinha reintroduzido quando mais de 65% da população apoia a nacionalização da energia, da água,2 dos transportes e dos correios.

As condições estão maduras para uma greve geral

Apesar dos ataques do Partido Conservador e da atual liderança trabalhista, assim como da campanha de difamação dos meios de comunicação burgueses, os trabalhadores em luta estão a demonstrar uma força extraordinária e contam ainda com a simpatia da maioria da população que sofre na pele o empobrecimento imparável.

Em vez de escreverem cartas a suplicar aos patrões e ao governo Tory para que aceitem negociar, como em julho, ou de lançarem campanhas impotentes para exigir um salário mínimo de 15 libras nas palavras enquanto, nos actos, efetivamente tentam impedir que as greves se generalizem, o que os dirigentes do TUC e dos principais sindicatos no seu interior devem fazer é convocar uma greve geral já. Milhões nas ruas, a paralisar a economia e a atividade do país, disfeririam um golpe devastador no patronato e acabariam de uma vez por todas com um governo conservador moribundo.

A pressão é tanta que o debate sobre a greve geral se tornou uma realidade, chegando inclusive à comunicação social. O sindicato Unite já afirmou que apresentará uma resolução na Conferência do TUC, no dia 11 de setembro, exigindo "facilitar e promover a coordenação industrial entre os sindicatos para que os trabalhadores em conflito possam ... vencer". O secretário-geral do sindicato ferroviário, RMT, setor que se tornou a ponta de lança e referência desta crescente onda grevista, afirmou o mesmo, mas apenas no caso de os tories cumprirem suas ameaças contra o direito à greve, e ainda apontando que cabe ao TUC decidir.

Os sindicatos militantes, como o RMT, a esquerda trabalhista, Corbyn e Momentum, a nova plataforma "Enough is enough" por eles impulsionada  que se apresentou em Londres, num encontro multitudinário, e que já reuniu a adesão de meio milhão de pessoas , bem como todas as organizações que se reivindicam marxistas e revolucionárias, devem impulsionar uma campanha militante para exigir ao TUC a convocatória imediata de uma greve geral.

Uma greve geral que unifique os conflitos que dia após dia se espalham e multiplicam, que se construa a partir de baixo com a formação de Comités de Greve em todos os setores e locais de trabalho, que conflua com os movimentos de desobediência civil que já estão a ser organizados e que se arme com um programa revolucionário, socialista, que defenda a expropriação da banca e dos grandes monopólios britânicos para dedicar esses recursos a garantir salários dignos, habitação pública, saúde e educação, a garantir que ninguém tem de escolher entre comer e aquecer-se

Há que passar das palavras aos actos, à ação, e aprender com os erros que cometidos durante a experiência Corbyn, quando se confiou plenamente na via institucional e parlamentar e se renunciou à batalha militante nas ruas e no seio dos sindicatos e do TUC.

Há força para derrubar o Partido Conservador e expulsar dos sindicatos todos os dirigentes corrompidos que desistiram de defender a classe trabalhadora e os oprimidos. Mas para isto, há que construir uma esquerda revolucionária de massas, marxista e internacionalista, que defenda o programa do socialismo.

A classe trabalhadora britânica não está sozinha, conta com a simpatia, a solidariedade e o apoio do resto da classe trabalhadora europeia, que enfrenta uma situação igualmente catastrófica. Um capitalismo de rosto humano não é possível. Temos de erguer a bandeira do socialismo internacionalista e revolucionário! É o único caminho!


Notas:

1. A Community Charge – literalmente "imposto comunitário" também conhecida como Poll Tax, foi um imposto que obrigava cada cidadão ao pagamento de um montante igual, independentemente do seu rendimento ou de qualquer outra circunstância pessoal ou social, afetando especialmente a classe trabalhadora e os sectores mais empobrecidos. O Militant promoveu uma campanha de desobediência civil para não pagar este imposto e milhões de pessoas juntaram-se. Finalmente, a campanha de desobediência civil e centenas de manifestações massivas e combativas levaram à retirada da Poll Tax e à queda de Margaret Thatcher.

2. No caso da água, por exemplo, privatizada por Thatcher em 1989, à gravidade da seca somam-se a obsolescência das infraestruturas, fruto de um investimento nulo por parte dos concessionários, o que significa que um quinto da água se perde em consequência de fugas e roturas, e que há décadas que não se construem novos reservatórios. O mesmo se pode dizer sobre os caminhos-de-ferro, privatizados por Thatcher e pelo seu sucessor John Major. As privatizações nunca foram revertidas pelo Partido Trabalhista sob o comando de Tony Blair ou de Gordon Brown.

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