A maioria das sondagens concordam que, muito provavelmente, a segunda volta das eleições presidenciais francesas de 2022 terá o liberal Emmanuel Macron e um candidato de extrema-direita, que poderá ser Marine Le Pen.

Já nas presidenciais de 2002, o candidato da direita tradicional Jacques Chirac e o candidato da extrema-direita Jean-Marie Le Pen, pai de Marine, disputaram a última volta eleitoral. Mas nesta situação há dois fatores novos que merecem toda a nossa atenção.

Em 2002, chegou-se às eleições presidenciais depois de um governo do Partido Socialista encabeçado por Lionel Jospin, que realizou privatizações massivas de empresas públicas, criando um forte descontentamento social que debilitou eleitoralmente a esquerda. Mas em 2022 as eleições terão lugar depois de cinco anos de uma presidência de direita de Macron, e uma agenda de intensos cortes que enfrentou grandes mobilizações sociais, incluíndo a revolta dos “coletes amarelos”. Como é possível que a esquerda seja incapaz de canalizar este descontentamento e possa sofrer uma grande derrota?

A ascensão de Éric Zemmour ressalta o perigo

O segundo fator que caracteriza as próximas campanhas eleitorais é que outro candidato da extrema-direita, Éric Zemmour, tem hipóteses de superar Le Pen e passar à segunda volta. Esta divisão na extrema-direita, em vez de debilitá-la eleitoralmente, reforça-a. A sua intenção de voto aumentou quase 5 pontos percentuais desde que Zemmour e Le Pen competem pelo mesmo eleitorado.

Zemmour, comentador televisivo, centrou o seu discurso no que chama de “soberania nacional” francesa, que se resume a um programa de nacionalismo económico extremo e a um ataque claro à população emigrante e aos refugiados, com argumentos que remetem para as campanhas anti-semitas do czarismo e do nazismo. Zemmour faz suas as teorias da conspiração que retratam os imigrantes como um exército dirigido por uma mão oculta e cujo objetivo é iniciar uma guerra civil e destruir a civilização francesa.

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Zemmour, comentador televisivo, centrou o seu discurso num programa de nacionalismo económico extremo e num ataque claro à população imigrante.

Em conjunto com esta mensagem belicista e racista, também direciona o seu ódio contra as mulheres e a população LGBTI, difundindo as mentiras mais repugnantes do pensamento reacionário como por exemplo, que as feministas querem “castrar os homens” ou que os homossexuais querem adotar meninos para os violar.

Que com este tipo de mensagens Zemmour possa alcançar uma intenção de voto de 18% é um indicador de quão profunda é a crise social francesa, que atinge duramente uma pequena-burguesia rural e urbana que sempre desempenhou um papel importante na vida política do país.

Essa pequena-burguesia, cuja mesquinhez e estreiteza de pensamento tão bem descreveu Marx, vive aterrorizada entre o medo da classe trabalhadora e da revolução, e da hipótese de perder o seu património a meio de uma furiosa crise económica.

Nos anos 30 do século passado, as camadas médias atingidas pela crise converteram-se na base social do fascismo francês e do colaboracionismo com os nazis. Em 1968, aterrorizados pelo grande levantamento operário e juvenil de maio, um amplo setor dessas camadas médias mobilizou-se em defesa da propriedade e da ordem, apoiando o programa bonapartista do general De Gaulle.

A crise de 2008 voltou a atingir a pequena-burguesia francesa, tanto economicamente como nas suas perspetivas de ascensão social e no seu orgulho nacional. Estes pequenos proprietários direcionam a sua raiva contra a ordem financeira internacional e contra os imigrantes e refugiados, que consideram um “encargo” para as finanças públicas. Por isso ouvem pessoas que, como Zemmour, falam energicamente contra “as elites” e que oferecem a recuperação de um suposto passado esplendoroso. O trumpismo francês, com sólidas raízes sociais, irrompe com força no cenário político.

O colapso da social-democracia e do neo-reformismo

Muito mudou desde os anos 30, mas as palavras de León Trotsky em Para onde vai a França? mantêm-se atuais: “Os pequeno-burgueses desesperados vêem no fascismo uma força combativa contra o grande capital, e acreditam que, ao contrário dos partidos operários que trabalham apenas com a linguagem, o fascismo utilizará os seus punhos para impôr mais “justiça” [...]. É falso, três vezes falso, afirmar que atualmente a pequena-burguesia não se dirige aos partidos operários porque teme as suas “medidas extremas”. Pelo contrário: a camada inferior da pequena-burguesia, as suas grandes massas, não vêem nos partidos operários mais do que máquinas parlamentares, não acreditam na sua força, não os vêem capazes de lutar, não acreditam que esta vez estejam dispostos a levar a luta até ao fim”.

E a história volta a repetir-se. A recusa da esquerda em lutar por uma alternativa revolucionária perante a decadência capitalista é o que atira os setores médios – e as camadas atrasadas e desesperadas da classe trabalhadora – para os braços da extrema-direita.

A social-democracia governou a França durante muitos anos. Em 1981, em aliança com o Partido Comunista Francês, Miterrand ganhou as eleições com um programa que incluía importantes nacionalizações e reformas para a classe trabalhadora. Mas esse governo foi incapaz de fazer frente às pressões da burguesia e renunciou a qualquer tipo de medidas anticapitalistas, regredindo todas as reformas iniciadas. Desde então, os diversos executivos do Partido Socialista aplicaram políticas indistinguíveis das da direita.

Foi o fracasso da coligação PS-PC que abriu o terreno para a Frente Nacional (FN), dirigida então por Jean-Marie Le Pen. Em 1986 conseguiu entrar no parlamento e, apesar de rapidamente voltar a ser uma força extraparlamentar, conservou desde então uma considerável percentagem de votos e uma forte presença municipal.

As grandes mobilizações operárias do princípio dos anos 2000, em conjunto com as campanhas antifascistas, debilitaram o apoio à Frente Nacional. Mas as consequências da crise de 2008 voltaram a oferecer-lhe grandes possibilidades. O crescimento do desemprego e a destruição de importantes setores industriais pela deslocalização dos capitalistas franceses, permitiram à FN avançar em zonas tradicionais da esquerda, com um programa chauvinista.

Em 2011, Marine Le Pen substituiu o seu pai à frente da FN e tentou desligar o partido dos traços mais claramente fascistas e racistas do seu passado, mudando inclusivamente o nome para Rassemblement National (União Nacional). As suas intenções de substituir a direita tradicional em crise, modernizando-se, ganhou um sucesso indiscutível: em 2017 conseguiu disputar a Macron a segunda volta das eleições presidenciais. Mas, por sua vez, em direção à “modernização”, deixou um flanco aberto à sua direita, que numa altura de aguda polarização social e após a pandemia, foi aproveitado por Zemmour.

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Mas Mélenchon, longe de propor um programa socialista, fez sua a retórica da “soberania nacional” e ataca a imigração em nome da defesa dos direitos sociais dos trabalhadores autóctones.

O fracasso da coligação de esquerda, e dos sucessivos governos socialistas, teve também como resultado a pulverização eleitoral da esquerda reformista tradicional. A candidata socialista, Anne Hidalgo, atual presidente da câmara de Paris, tem uma intenção de voto de 5% e o candidato comunista roça apenas os 2%.

A crise de 2008 propiciou em França, e igualmente noutros países, o surgimento de uma alternativa formalmente à esquerda da social-democracia, a France Insoumise encabeçada por Jean-Luc Mélenchon. Mas Mélenchon, longe de propor um programa socialista, fez sua a retórica da “soberania nacional” e ataca a imigração em nome da defesa dos direitos sociais e dos trabalhadores autóctones. Longe de debilitar a extrema-direita, o que este discurso consegue é abrir-lhe caminho.

Apesar de ser de longe o melhor candidato da esquerda, as sondagens não dão mais de 10% a Mélenchon. Mesmo que consiga unir os votos do resto da esquerda e dos verdes, apenas chegaria aos 30%.

A experiência dos anos 30 deixa isto claro. Apenas com um programa que aponte ao coração do sistema capitalista e proponha a sua transformação revolucionária será possível levantar uma esquerda credível e com capacidade para enfrentar a extrema-direita.

Sindicato de Estudantes

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