Vivemos momentos excepcionais. Dia após dia, a comunicação social dá-nos conta de como o nosso mundo se está a transformar numa dessas distopias apocalípticas que são protagonistas de tantas séries e filmes de ficção científica: a natureza agoniza e enfurece-se devido às alterações climáticas, as temperaturas e secas extremas coexistem com inundações devastadoras , a fome bate novos recordes, sectores da direita exibem cada vez mais descaradamente a bota fascista, a luta pela hegemonia mundial intensifica-se ressuscitando a ameaça nuclear, a inflação dispara em vésperas de uma nova recessão económica alimentando uma nova onda de revoltas populares e greves…

E é precisamente no seio desta realidade aterradora que a guerra na Ucrânia eclode. Encontramo-nos perante aquilo que, nós marxistas, apelidamos de um ponto de inflexão na história, que transformará as nossas vidas e a maneira como vemos e entendemos o mundo. É fácil perceber que não estamos perante mais uma guerra e que as duas potências mais poderosas do planeta alcançaram um novo patamar na sua luta, chegando-se inclusive a especular sobre a possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial.

O sistema capitalista como um todo e a democracia burguesa como a sua edificação política mais brilhante não perderam apenas a legitimidade social; o equilíbrio interno de que desfrutaram nas últimas décadas está a perder-se. É claro que as estratégias do imperialismo estado-unidense, dominantes nas relações internacionais após o colapso da URSS, saltaram pelos ares. As profundas mudanças na correlação de forças mundial determinam esta nova era e refletem as poderosas transformações que ocorreram na base do capitalismo internacional: o declínio do colosso norte-americano e as suas limitações para enfrentar o avanço da China como superpotência.

A paz, a diplomacia e a propaganda de guerra

Neste contexto, a guerra na Ucrânia submete igualmente as organizações de esquerda ao teste mais importante desde o colapso do stalinismo. Quer tenham mais de um século de história ou apenas uma década de existência, grandes ou pequenas, todas, sem exceção, serão marcadas pelo seu posicionamento sobre esta questão.

Como seria de esperar, a social-democracia clássica não nos trouxe nenhuma surpresa. De Pedro Sánchez, passando pelo membro do Partido Trabalhista norueguês Jens Stoltenberg — atual secretário-geral da Aliança Atlântica — até à primeira-ministra sueca, a social-democrata Eva Magdalena Andersson, que conta ansiosamente os dias que faltam para a entrada do seu país na NATO, todos se comportam como militaristas experientes e confiáveis para o imperialismo ocidental. Nada de novo debaixo do sol.

Para os militantes e ativistas que estão imersos nos movimentos sociais, em lutas sindicais combativas, que aspiram sinceramente a mudar o presente em que vivemos, é muito mais necessário esclarecer qual é o posicionamento da outra esquerda agora institucionalizada, mas que surgiu no calor das mobilizações dos últimos anos. E que melhor maneira de o fazer do que abordar em profundidade o Manifesto Ucrânia: Paz Agora!, publicado a 18 de abril como preâmbulo da Conferência Europeia para a Paz realizada em Madrid quatro dias depois.

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É possível que Pablo Iglesias, Jeremy Corbyn, Mèlenchon ou Varoufakis acreditem realmente que os esforços diplomáticos da ONU acabarão com este conflito?

Participaram no encontro organizações como Podemos, ERC, EH Bildu, Bloco Nacionalista Galego (BNG) e convidados internacionais como Jeremy Corbyn ou Catarina Martins, do Bloco de Esquerda. O Manifesto também tem a assinatura de Pablo Iglesias, Declan Kearney (Sinn Féin), Nicola Fratoianni (Sinistra Italiana), Yannis Varoufakis, Noam Chomksy ou Rafael Correa (ex-presidente do Equador). Jean-Luc Mélenchon (France Insoumise) e Dimitris Tzanakopoulos (Syriza) também aderiram.

Apesar da pouca projeção alcançada até agora por esta iniciativa, o seu interesse reside na recuperação das velhas posições pacifistas que provocaram já uma acalorada polémica no movimento dos trabalhadores durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Vamos começar com o que a declaração diz literalmente:

Seis meses após o início da guerra, não parece que os aspectos centrais do manifesto tenham tido qualquer eco, muito pelo contrário. Como Lenin costumava escrever, a verdade é concreta, e se nos ativermos aos factos, os desejos desta declaração, incluindo a bajulação de Zelensky, colidiram contra a dinâmica do conflito e os poderosos interesses que estão em jogo.

Seria realmente maravilhoso acabar com tanto sofrimento graças a indivíduos que acreditam ser dotados da capacidade de comover os poderosos com discursos. Tal como numa das canções da Disney, poderíamos viver num mundo ideal. Mas a dura realidade, pelo menos para a grande maioria, assemelha-se cada vez mais a um filme de terror.1

Será possível que Pablo Iglesias, Jeremy Corbyn, Mèlenchon ou Varoufakis acreditem realmente que os esforços diplomáticos da ONU acabarão com este conflito? Será que pensam que apelando à humanidade dos governos se protegerá o estado de bem-estar e os direitos sociais ou se reduzirá a desigualdade? Claro que não. São suficientemente inteligentes e letrados, e sabem por experiência como funciona o poder económico, político e militar.

Então, por que afirmam que "o presidente Zelensky esboçou as duas condições mais essenciais para a paz"? Não vêem Zelensky rejeitar qualquer negociação que leve à paz enquanto sacrifica milhões dos seus concidadãos ucranianos numa guerra travada pelos interesses do imperialismo ocidental? Não sabem que um dos elementos mais raivosamente belicistas é o principal responsável pela diplomacia Europeia, o "socialista" espanhol Josep Borrel, que declarou perante Zelensky "o mínimo que podemos fazer é dar-lhe armas (...) necessitam de armas, armas, armas"?

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Um dos elementos mais raivosamente belicistas é o principal responsável pela diplomacia europeia, o “socialista” espanhol Josep Borell.

Esta situação também não tem nada de original. Lenin teve igualmente que lidar durante a Primeira Guerra Mundial com "pessoas em quem a ingenuidade sem precedentes é acompanhada por um desejo astuto de perpetuar a velha hipocrisia".2 Não vale a pena especular sobre a honestidade ou o oportunismo da declaração porque, no fundo, o que conta são os seus efeitos entre os ativistas: despertar ilusões — tão falsas quanto reacionárias — de que as potências que cometeram os maiores crimes de guerra e terrorismo estatal podem fornecer uma solução justa.

Como lembrou recentemente Rafael Poch, um jornalista geralmente bem informado e surpreendentemente signatário do Manifesto: “A França lutou na Argélia e deixou um milhão de mortos lá. Na Indochina causou outros 350.000. A Inglaterra acabou com a separação imperial da Índia e do Paquistão com um milhão de mortos e 15 milhões de deslocados. No Quénia, a descolonização causou 300.000 mortes e um milhão e meio de prisioneiros. Até a pequena Holanda acaba de reconhecer a fatura de 100.000 mortos que causou na sua guerra colonial de quatro anos na Indonésia. E que dizer dos Estados Unidos, o grande chefe do bloco ocidental? O seu declínio imperial arrasta consigo uma guerra permanente há décadas. Desde o 11 de setembro de 2001, causou a destruição de sociedades inteiras, 38 milhões de pessoas deslocadas e 900.000 mortes, de acordo com o cálculo bastante benigno da Brown University dos Estados Unidos (‘Cost of War’)”.

Poderíamos incluir muitos outros delitos neste currículo para a paz, como organizar golpes militares sangrentos na América Latina ou apoiar o regime sionista em Israel para esmagar o povo palestiniano. Mas não há pior cego do que aquele que não quer ver, diz a sabedoria popular.

Além disso, defendem ainda os dirigentes do Podemos, ERC, EH Bildu ou do BNG que “a comunicação social deve deixar de lado toda linguagem beligerante para ajudar a alcançar a paz”. Estes são os mesmos meios de comunicação que emitem incansavelmente propaganda de guerra a toda a hora, e enchem os seus espaços com declarações contra a ameaça totalitária dos russos — auxiliados pelos malvados chineses —, que destroem o nosso modo de vida, minam a "democracia" e a suposta legislação internacional que defende os direitos humanos. Obviamente que esta ameaça à civilização ocidental não inclui os 96,5 milhões de pessoas em risco de pobreza apenas na UE, ou os milhões de seres humanos considerados ilegais3 que, às dezenas de milhares, morrem a tentar alcançar os países do chamado primeiro mundo ou estão amontoados em campos de concentração nas condições mais desumanas e humilhantes que se possa imaginar.

A verdade é que esta campanha de ataques contra o povo russo, também ele vítima do regime capitalista e imperialista de Putin, nos é familiar. Expiando o imperialismo norte-americano e europeu de qualquer responsabilidade nesta guerra — Moscovo atacou primeiro! — pretendem inocular-nos com o veneno do chauvinismo. É a mesma calúnia que foi lançada contra o povo árabe e a comunidade muçulmana para atirar-nos para mais um famoso "conflito entre civilizações".4 Naquela altura, os governos encarregados de "espalhar a democracia" no Médio Oriente, como hoje no Leste Europeu, decidiram que a melhor maneira de o fazer era bombardear os povos iraquiano, afegão ou sírio, e para justificar a intervenção fabricaram provas falsas sobre armas de destruição maciça e muitas outras questões que se repetiam de manhã à noite nos meios de comunicação de massas.

Rosa Luxemburgo advertiu contra esta armadilha: “cada vez que os políticos burgueses levantaram a bandeira do europeísmo, da união dos Estados europeus, fizeram-no com o objetivo explícito ou implícito de dirigi-la contra o 'perigo amarelo', o 'continente negro', contra as 'raças inferiores', em suma, sempre foi um aborto imperialista (...) a pedra angular do socialismo no sentido marxista não é a solidariedade europeia, mas a solidariedade internacional, que inclui todos os continentes, raças e nações”.5

O militarismo domina e engole o mundo6

Todas as potências capitalistas sem exceção — incluindo o imperialismo chinês e russo — preparam-se, e de que maneira, para novas guerras. Em 2020, “os gastos militares mundiais foram de $1,9 biliões, mais 2,6% do que em 2019 e 9,3% a mais do que em 2011. A carga militar global — gastos militares como proporção do PIB global — aumentou 0,2% em 2020, até aos 2,4%”.

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Todas as potências capitalistas sem exceção — incluindo o imperialismo chinês e russo — preparam-se para novas guerras.

A UE não quer ficar para trás: o seu orçamento militar atingiu um máximo histórico em 2020 com 198.000 milhões de euros, um aumento de 5% em relação a 2019, que já era outro recorde. No entanto, ainda não são armas suficientes. O governo alemão, presidido por um social-democrata, acaba de anunciar um investimento de 100.000 milhões de euros para modernizar as suas Forças Armadas e comprometeu-se a dedicar 2% do PIB à Defesa, como a NATO e o Departamento de Estado exigem desde Washington.

Este maná de milhões que sai dos cofres públicos e vai direto para os bolsos dos fabricantes de armas — essa indústria sinistra que celebra a eclosão de cada nova guerra — num momento em que a saúde, a educação, as pensões públicas ou os salários continuam a ser cortados e em queda, leva-nos a perguntar aos signatários do manifesto: onde estão os governos que protegerão o Estado de bem-estar e garantirão os direitos sociais a todos os cidadãos reduzindo a desigualdade?

Honestamente, deve-se reconhecer que a austeridade não é uma agenda exclusiva da direita: se tomarmos a política e as ações da coligação de governo PSOE-UP e não a sua propaganda, as coisas ficam mais claras. Um exemplo concreto. Enquanto a Associação Estatal de Dirigentes e Gestores de Serviços Sociais denuncia a desnecessária e cruel rede burocrática que impede centenas de milhares de famílias de acederem à escassa ajuda social, o conselho de ministros de Pedro Sánchez não só deixou intacto a herança belicista do PP , mas aumentará os gastos militares para 2% do PIB (nos últimos cinco anos já aumentou "20%, atingindo 12.293 milhões de euros em 2021").

Pedro Sánchez celebrou com entusiasmo Madrid como anfitriã da Cimeira da NATO. Assumidamente alinhado com a política externa de Washington, o governo espanhol — no qual participa o Unidas Podemos — permite aliás que a indústria militar espanhola forneça os arsenais da Arábia Saudita na sua guerra contra o povo iemenita, e o mesmo com ditaduras como a marroquina.

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Pedro Sánchez celebrou com entusiasmo Madrid como anfitriã da Cimeira da NATO, alinhando-se completamente com a política externa de Washington.

Na Ucrânia, entregou munição abundante, equipamentos de proteção individual e armas leves (lança-granadas e metralhadoras) ao regime de Zelensky e está a finalizar o envio de armas pesadas para Kiev, além de se oferecer para treinar os seus militares. Sánchez declarou que reforçará a sua contribuição para a implantação da NATO na Europa de Leste com mais tropas na Letónia, onde atualmente tem 500 soldados. Mas também não é suficiente. Margarita Robles acaba de solicitar 3.000 milhões de euros extras para o orçamento do Ministério da Defesa, quase 25% a mais que os gastos do ano passado.7

Para além da submissão do Governo espanhol à estratégia da NATO, o fundamental é que a Cimeira de Madrid deu um passo em frente com a aprovação do Conceito Estratégico da Aliança Atlântica. O documento, assinado por todos os países membros, não deixa dúvidas sobre qual o inimigo a abater: "As ambições declaradas e as políticas coercivas da República Popular da China (RPC) colocam em risco os nossos interesses, a nossa segurança e os nossos valores. A RPC emprega uma ampla gama de instrumentos políticos, económicos e militares para expandir a sua presença no mundo e projetar poder, mantendo ao mesmo tempo opacidade sobre a sua estratégia, as suas intenções e o seu rearmamento militar (...) A RPC aspira a controlar setores tecnológicos e industriais chave, infraestrutura crítica e materiais estratégicos e cadeias de abastecimento. Utiliza a sua vantagem económica para criar dependências estratégicas e aumentar a sua influência”.

O capitalismo ocidental tem plena consciência da sua fraqueza e falta de apoio entre a população dos seus países, e por isso reforça o seu aparelho militar e repressivo. E não esconde as suas intenções. Apesar da sua retórica e da sua hipocrisia, o panorama que a declaração da NATO pinta é cristalino: caminhamos para um confronto global entre as duas grandes potências imperialistas que aumentará a destruição, as mortes e o sofrimento em todo o planeta.

É difícil, portanto, não pensar que as exigências do Manifesto, repletas de diplomacia respeitosa para com os responsáveis pela guerra na Ucrânia, não tenham outra motivação senão desviar a atenção da questão central: quais são as causas e o caráter desta guerra, e quais os meios para pará-la no interesse dos trabalhadores ucranianos, russos e mundiais.

O pacifismo como servo do imperialismo

O discurso pacifista sustentado no Manifesto pela Paz é utópico e, além disso, reacionário. As suas propostas para acabar com o conflito ucraniano têm um efeito "inebriante" na consciência da classe trabalhadora e alimentam a sua passividade: "O resultado é que, em vez de revelar em toda a sua profundidade as contradições mais profundas da atual fase do capitalismo, elas disfarçam e escondem; o resultado é o reformismo burguês em vez do marxismo”.8

A experiência do que foi o modelo do pacifismo europeu, os Verdes alemães, é muito ilustrativa para ver como os factos negam cruelmente os discursos e desejos. Os sonoros apelos à paz, habituais na boca dos dirigentes “ecologistas” alemães, transformaram-se invariavelmente em entusiasmo bélico desenfreado quando participaram no governo. O exemplo do seu líder histórico Joschka Fischer e o seu apoio incondicional ao bombardeamento da Jugoslávia em 1999, quando era ministro dos Negócios Estrangeiros, foi apenas o começo.

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Os sonoros apelos à paz dos dirigentes “ecologistas” alemães, transformaram-se em entusiasmo bélico desenfreado quando participaram no governo.

Atualmente também fazem parte do governo com o SPD e os liberais ocupando duas pastas: o Ministério dos Negócios Estrangeiros, nas mãos de Annalena Baerbock, e o Ministério da Economia e Proteção Climática, liderado por Robert Habeck, que também é vice-Chanceler. Apesar de os Verdes incluírem nos seus programas a proibição expressa de exportar armas para zonas de guerra, ambos se destacaram pelo apoio entusiástico ao regime de Zelensky e pelo envio de armas, e não hesitaram em votar no maior programa de rearmamento alemão desde a Segunda Guerra Mundial.

É assim que uma jornalista surpreendida relata as posições da ministra que, além de ecologista, se apresenta como feminista radical: “Baerbock proferiu palavras pouco habituais, principalmente vindas de uma ministra dos Negócios Estrangeiros do partido dos Verdes, de tradição pacifista. Falou repetidamente de uma 'capacidade de defesa' que garanta a segurança. Afirmou que a guerra na Ucrânia mostra, 'mais uma vez, que a segurança depende da NATO', e que a Alemanha está disposta a assumir mais responsabilidades nesse quadro. Isso implica, na sua opinião, maiores gastos com defesa, como os anunciados por Scholz, que pretende destinar 100.000 milhões de euros às Forças Armadas alemãs. Mas também se reflete na compra planeada de caças F-35 dos EUA, que podem transportar armas atómicas. A dissuasão nuclear da NATO deve permanecer credível, disse Baerbock, e a aliança deve fortalecer a sua presença em países particularmente ameaçados no seu flanco oriental”.

Marx disse que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa. Que cada um decida a maneira como a fará nesta ocasião, mas o que não se pode duvidar é que o discurso dos pacifistas franceses, resumido por Trotsky há um século, remonta ao dos Verdes alemães de hoje: “(…) 'Éramos contra a guerra, os nossos deputados, ministros, todos nós éramos contra a guerra' grita a pequena-burguesia francesa: 'Assim, acontece que a guerra foi forçada contra a nossa vontade, e para cumprir os nossos ideais pacifistas devemos continuar a guerra até um fim vitorioso'. (…) E foi assim que o pacifismo teve a sua parte no mecanismo da guerra, assim como a teve o gás venenoso e a montanha cada vez maior de empréstimos de guerra”.9

Qualificar os líderes dos Verdes de agentes do imperialismo ocidental não é um insulto gratuito, mas uma descrição científica. A viagem do vice-Chanceler e ministro da Economia Robert Habeck ao Qatar em março deste ano é inapelável. De acordo com todos os participantes, incluindo os porta-vozes da representação empresarial que o acompanhava — Thyssenkrupp, Bayer, Siemens… —, foi um sucesso total. A boa sintonia com o emir do Qatar, Tamin bin Hamad Al Thani, permitiu a assinatura de acordos de milhares de milhões de euros com este emirado que possui a terceira maior reserva de gás natural do mundo, e se destaca pelo completo desrespeito pelos direitos democráticos .

Na sua reportagem sobre a viagem, um jornalista não consegue esconder novamente a sua impressão sobre o comportamento destes ativistas da paz: “Mas o Qatar, por exemplo, é criticado pela sua política de direitos humanos e as suas más condições de trabalho. O gás de um país agressor, como a Rússia, vai ser substituído pelo de um emirado autocrático? E isto é promovido por um político verde? Certamente, Habeck assegurou, após o encontro com os representantes do governo do Qatar, que tinha aludido às 'más condições dos milhares de trabalhadores estrangeiros que estão aqui, e ninguém saiu da sala' (...)”.

Tal é a natureza hipócrita da democracia ocidental, cujos porta-vozes se permitem dar lições de moral à opinião pública mundial. Acontece que para os Verdes e outros "pacifistas" da sua laia, o regime do Qatar, responsável pelos desaparecimentos de jornalistas e ativistas sindicais, por submeter a sua força de trabalho a condições de semi-escravidão, de uma opressão brutal das mulheres, é muito melhor do que Putin e, portanto, é possível chegar a acordos satisfatórios com ele.10

Se dois meses antes da visita da delegação alemã, em 31 de janeiro de 2022, foi o emir do Qatar quem viajou para a Casa Branca, onde Joe Biden declarou o “Qatar como um dos seus maiores aliados fora da esfera da NATO”… em 16 de maio, Hamad al Thani visitou oficialmente o reino de Espanha para se encontrar com o rei, com Pedro Sánchez e com o presidente da Iberdrola. O encontro em Madrid foi igualmente frutífero.

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O regime do Qatar, responsável pelo desaparecimento de jornalistas e ativistas sindicais, por submeter a sua força de trabalho a condições de semi-escravidão, de uma opressão brutal das mulheres.

Em suma, diferentes governos em todo o mundo, formados por partidos de todos os matizes — democratas estado-unidenses, verdes, liberais e social-democratas alemães, conservadores britânicos ou o “governo mais progressista” da história do Estado espanhol — mantêm sem remorso relações económicas e políticas com todo o tipo de ditaduras e regimes sangrentos. O seu amor pela democracia e pela "paz" é de geometria variável como se pode ver.

Guerras reacionárias e guerras revolucionárias

Precisamos de respostas concretas para não errarmos ao apontar os nossos inimigos ou ao eleger os nossos aliados. No entanto, esta questão central é completamente ignorada no Manifesto. Zelensky é descrito no texto como um defensor da neutralidade, o que é uma impostura irritante,11 mas conceitos como imperialismo e tudo o que tenha a ver com a mobilização da classe trabalhadora contra a guerra estão visivelmente ausentes. Em suma, falta ao Manifesto tudo o que nos permite compreender a natureza do conflito.

Quando se trata de denunciar os interesses da burguesia, os representantes políticos da nova esquerda fogem como da peste e somam-se à cerimónia da confusão. Reproduzindo os velhos chavões pacifistas e os mesmos apelos estéreis às “soluções negociadas” que os dirigentes da Segunda Internacional utilizaram durante a Grande Guerra, o seu abandono de uma posição classista, internacionalista, antimilitarista e anti-imperialista é total.

Lenin insistia no grande erro que os revolucionários cometem ao posicionarem-se num conflito militar olhando apenas para quem atirou primeiro, sem observar seriamente os interesses de classe representados por cada parte. Muitos e muitas daqueles que agora ocupam assentos no governo e na alta administração estatal de alguns países europeus, e que há pouco tempo se apresentavam publicamente como ativistas anti-NATO, juntam-se hoje ao coro da propaganda ocidental e culpam Putin exclusivamente pelo cenário atual, tendo o cuidado de decifrar os verdadeiros objectivos que a Aliança Atlântica persegue.

Mas devemos olhar mais amplamente para a história se quisermos entender o presente e preparar-nos para o futuro. O ato de fundação da NATO, assinado em Washington a 4 de abril de 1949 pelos Estados Unidos, Canadá, Bélgica, Dinamarca, França, Holanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Noruega, Reino Unido e Portugal, declarava que "as partes neste Tratado reafirmam a sua fé nos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e o seu desejo de viver em paz com todos os povos e todos os governos (...) salvar a liberdade, a herança comum e a civilização dos seus povos, com base nos princípios da democracia, liberdades individuais e Estado de direito”.

Vejamos como o país que a promoveu, os Estados Unidos da América, cumpriu os seus propósitos. Desde que foi fundada, o imperialismo dos EUA bombardeou, interveio militarmente, realizou golpes de Estado e planeou a morte de milhões de pessoas nos seguintes países:

Coreia e China 1950-1953
Guatemala 1954, 1960
Indonésia 1958
Cuba 1959-1961
Congo 1964
Laos 1964-1973
Vietname 1961-1973
Camboja 1969-1970
Guatemala 1967-1969
Granada 1983
Líbano 1983, 1984
Líbia 1986
El Salvador 1980
Nicarágua 1980
Irão 1987
Panamá 1989
Kuwait 1991
Somália 1993
Bósnia 1994, 1995
Sudão 1998
Afganistão 1998
Jugoslávia 1999
Iraque 1991- 2015
Iémen 2002, 2009, 2011
Afeganistão 2001-2015
Paquistão 2007-2015
Somália 2007-2008, 2011
Líbia 2011, 2015
Síria 2014-2016

A única paz que os imperialistas conhecem é a que reina nos cemitérios. Mas se o balanço das intervenções militares e golpistas do imperialismo norte-americano é conhecido, a sua responsabilidade no desenvolvimento da guerra na Ucrânia é tão evidente que faz corar ter que lembrá-lo novamente.

Os aliados dos EUA, começando com a UE e continuando com a social-democracia internacional, encolhem os ombros quando são lembrados de que a NATO se expandiu entre 1999 e 2009 para incluir a Hungria, Polónia, República Checa, Eslováquia, Bulgária, Eslovénia, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia , Croácia e Albânia. Por outras palavras, estes campeões da “democracia e da paz”, “do Estado de direito”, “da diplomacia”, tentaram enfraquecer ao máximo a capacidade defensiva do Estado russo, que se viu rodeado por um cerco hostil sem precedentes. Os planos para continuar esta expansão militar, trazendo a Ucrânia para a NATO e cercando ainda mais a Rússia, são da responsabilidade direta de Washington. Como reagiriam os EUA se a Rússia ou a China estabelecessem acordos militares e tivessem bases militares ou armas nucleares no México ou no Canadá?

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O imperialismo norte-americano bombardeou, interveio militarmente, deu golpes de Estado e planeou o massacre de milhões de pessoas em dezenas de países.

Do ponto de vista do marxismo, violência, guerra e capitalismo são sinónimos. Propor que a paz seja organizada pelos mesmos bandidos imperialistas que levaram à guerra na Ucrânia não é apenas um engano, atrasa a consciência da classe trabalhadora.

A verdade é que os capitalistas nunca rejeitaram a violência, à qual recorrem constantemente. O que exigem e impõem, independentemente do custo humano que isso possa acarretar, é o seu monopólio. E não nos referimos apenas ao exército, mas a todo tipo de corpo de homens armados em defesa da sua propriedade e os “elementos materiais, as prisões e as instituições”.12

É por isso que nós, marxistas, não nos declaramos contra todo tipo de violência como fazem os pacifistas e os pseudo-esquerdistas amigos da NATO. Há muito tempo Engels lembrava a um contemporâneo: “A violência também desempenha outro papel na história, um papel revolucionário; que, nas palavras de Marx, é a parteira de toda velha sociedade grávida de uma nova”.13 Os revolucionários, ao contrário dos pacifistas pequeno-burgueses, defendem o direito dos oprimidos de pegar em armas contra os seus opressores e nunca, em nenhuma circunstância, equiparamos a violência dos exploradores com a dos explorados que lutam para se libertar das suas correntes.

Reivindicamos os trabalhadores espanhóis quando, após o golpe militar de 18 de julho de 1936, declararam guerra ao fascismo e iniciaram uma revolução socialista só comparável à de 1917 na Rússia. Pensamos o mesmo sobre a resistência antifascista na Europa ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, a luta heróica do Exército Vermelho contra os exércitos de Hitler, a guerra revolucionária dos camponeses chineses contra a ocupação japonesa e as tropas de Chiang Kai-shek, ou a travada pelos povos de Cuba e do Vietname contra o imperialismo norte-americano.

No entanto, a guerra na Ucrânia não se assemelha a nenhum desses exemplos históricos. Obviamente, nenhum verdadeiro comunista pode apoiar o chauvinismo grão-russo de Putin.14 O sentimento nacional ucraniano não é uma invenção. Os direitos nacional-democráticos da Ucrânia foram esmagados ao longo da história por várias potências imperialistas — com destaque para o despotismo czarista —, e pela burocracia stalinista que reviveu o chauvinismo centralizador grão-russo ao abandonar a política de Lenin. Nós, marxistas, apoiamos incondicionalmente o direito do povo ucraniano de formar uma nação independente, e acrescentamos: livre da opressão dos blocos imperialistas e da ditadura de sua oligarquia capitalista. Lutamos, portanto, por uma Ucrânia independente e socialista.15

A abordagem formalista é um método alheio ao marxismo. Por si só, o caráter reacionário do regime capitalista russo não torna os seus oponentes progressistas. É tão óbvio que a chamada "resistência" ucraniana é liderada por elementos fascistas e nacionalistas supremacistas, e que foram massivamente integrados nas forças armadas estatais desde 2014, que até a comunicação social ocidental, como o The New York Times, teve de reconhecê-lo abertamente.

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A chamada "resistência" ucraniana é liderada por elementos fascistas e nacionalistas supremacistas, e que foram massivamente integrados nas forças armadas estatais desde 2014.

Esses neonazis, que enfeitam os seus uniformes com símbolos das SA e das SS, têm no cadastro ter queimado sindicalistas vivos e assassinado milhares de cidadãos de origem russa no Donbass. Como se isso não bastasse para declará-los inimigos de toda a classe trabalhadora, independentemente da sua nacionalidade, são o braço militar do imperialismo estado-unidense na região. Washington gaba-se descaradamente que financia, arma, treina e compartilha inteligência com esta “resistência” ucraniana.

Como comparar isto com a revolução liderada por Mao, Fidel Castro e Che em Cuba, ou a derrota do imperialismo norte-americano no Vietname? Zelensky não pretende acabar com o capitalismo como fez o povo chinês, muito menos derrotar o mais poderoso representante do grande capital como fizeram os camponeses vietnamitas. Zelensky, como Putin, sacrifica milhares de compatriotas num conflito militar com objetivos reacionários.

Se estivermos à procura de um paralelo histórico com a guerra na Ucrânia, o mais adequado seria a Primeira Guerra Mundial. Assim que explodiu, Lenin respondeu à questão de saber se a vitória de um lado beneficiaria o oprimido como um todo: “Na situação atual é impossível determinar, do ponto de vista do proletariado internacional, qual das derrotas dos dois grupos de nações beligerantes constituiria o mal menor para o socialismo”.16

A nossa posição irá escandalizar muitos. Essa nova/velha esquerda que constrói um "projeto de país" além das ideologias partidárias, vai acusar-nos de não defendermos o envio de armas para a Ucrânia. É lógico, porque nas palavras da vice-presidente Yolanda Díaz, a invasão russa “é uma agressão absolutamente ilegítima que viola o Direito Internacional” e “os povos têm direito à legítima defesa”. O ministro Alberto Garzón também pensa assim. Que pena que se esqueçam da expansão militarista da NATO na Europa de Leste ao longo destas três décadas, e que a justificação que utilizam para a Ucrânia não se aplique aos povos palestiniano e saharaui. E também é impressionante que Yolanda Díaz opine que Pedro Sánchez, como "presidente do governo, não faz mais do que defender a paz e se comprometer com a gravidade de uma guerra às portas da Europa como nunca pensamos ter que viver em pleno século XXI”. O mesmo Pedro Sánchez que preside orgulhosamente à Cimeira da NATO em Madrid e apoia servilmente os planos de Washington.

Os herdeiros do stalinismo também nos denunciarão por não defendermos a Rússia, pois, do ponto de vista deles, Putin está "a conter o imperialismo ocidental", sem considerar que o seu regime defende os interesses e objetivos expansionistas da oligarquia capitalista russa. E outras organizações, que não se sabe por que se declaram anticapitalistas e até trotskistas, também nos criticarão porque não apoiamos decididamente a suposta “guerra de libertação nacional” que, na sua opinião, travam as tropas de Zelensky.

Mas a realidade é sempre concreta: onde estão os batalhões populares recrutados entre a população para defender a independência da Ucrânia? Eles não conseguiram mostrar nenhuma imagem que se possa aproximar de algo assim nos seis meses que dura a guerra. Mas o que é publicado na imprensa ocidental, e isso apesar da censura férrea que sofremos, é que o governo ucraniano tem que recorrer a leis mais duras todos os dias para sancionar a saída dos seus cidadãos em idade de lutar, porque o êxodo é massivo.

Assistimos, portanto, a uma torrente de análises cada vez mais erradas e distantes de uma caracterização de classe que situe este conflito no quadro da luta entre as grandes potências pela supremacia mundial, o controlo de áreas geoestratégicas, matérias-primas, rotas comerciais, tecnologia e cadeias de abastecimento…

Uma vitória da NATO, dos EUA, da União Europeia e de Zelensky não libertará o povo ucraniano desta brutal destruição da guerra. Em todo o caso, consolidará o poder da burguesia ucraniana pró-ocidental, que atua como lacaia de Washington, e que não hesitará em promover uma perseguição implacável contra a esquerda, que esmagará os direitos dos trabalhadores, aprofundando a legislação anti-sindical já em vigor, que abrirá a economia a novas privatizações e transformará o nacionalismo supremacista em religião de Estado. A população russófona estará à mercê do bastão “pogromista” do Batalhão Azov e outras organizações fascistas.

Se, por outro lado, quem vencer for Putin e o seu grande aliado chinês, as coisas não serão melhores. Ou podemos pensar que as bandeiras vermelhas com a foice e o martelo carregadas por muitos tanques russos, manipulando a luta antifascista do Exército Vermelho, significarão o triunfo do comunismo no Donbass?17

Putin é o chefe visível de um capitalismo monopolista de Estado construído sobre a decomposição do PCUS e do stalinismo. Um processo que agora é comemorado novamente pelos líderes ocidentais quando elogiam a figura do falecido Mikhail Gorbachev. Mas Gorbachov, como Yeltsin, Putin e a burocracia que dominava o PCUS foram responsáveis pela destruição da URSS e pelo colapso das condições de vida de milhões de cidadãos soviéticos, a liquidação da economia planificada e a pilhagem brutal da propriedade pública nacionalizada. Estes transformaram-se na nova oligarquia burguesa aproveitando as suas posições de liderança no aparelho estatal e, após três décadas, contando com o poderoso conglomerado industrial-militar russo, pretendem ocupar um papel preponderante no cenário internacional e reconstruir as esferas tradicionais de influência da Rússia imperialista.

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Putin é o chefe visível de um capitalismo monopolista de Estado construído sobre a decomposição do PCUS e do stalinismo.

Obviamente, a anexação do Donbass pela Rússia e a vitória do exército russo na guerra seria um golpe do qual os EUA não poderiam recuperar facilmente. Mas extrair a conclusão de que este resultado traria o crescimento da igualdade económica para os povos ucraniano e russo, o fim da privatização e da legislação anti-operária, ou a contenção do nacionalismo chauvinista grão-russo (que se encontra em perfeita sintonia com a extrema direita internacional), é colocar-se à margem da realidade. A luta interimperialista não pararia de se intensificar nos anos seguintes, preparando novas guerras e conflitos sangrentos.

Ambos os lados imperialistas carecem de objetivos progressistas, ou seja, são igualmente reacionários, mas precisam de esconder os seus propósitos indizíveis atrás de falsas bandeiras. Também isso não é novidade. “Para enganar o proletariado e distrair a sua atenção (...) a burguesia de cada país esforça-se, com frases mentirosas sobre o patriotismo, por exaltar o significado da 'sua' guerra nacional e garantir que aspira a derrotar o adversário não pelo saque e conquistas territoriais, mas por causa da 'emancipação' de todos os outros povos...”18

Política é economia concentrada

Na sua obra sobre o imperialismo, Lenin destacou que era “inconcebível a redistribuição das esferas de influência, interesses, colónias, etc., exceto pela força daqueles que dela participam, a força económica, financeira, militar, etc.”.19 As informações frívolas sobre a doença de Putin ou a senilidade de Biden para explicar a atual conjuntura, da mesma forma que interpretar o trumpismo como um fenómeno passageiro liderado por um bobo, nada mais são do que distrações para desviar a atenção do ponto central. Por mais desprezíveis ou ridículos que sejam estes personagens, representam apenas a face visível das decisões dos capitalistas mais poderosos.

Nós, marxistas, usamos um método de análise oposto ao proposto no Manifesto pela Paz da nova esquerda. Não descrevemos o funcionamento da sociedade com base em desejos bem-intencionados ou ocorrências subjetivas brilhantes, para forçar a realidade a encaixar num esquema artificial. Estudamos o mundo como ele é, partindo de "uma análise completa do fenómeno social concreto no seu desenvolvimento", permitindo que "o que é exterior e aparente seja reduzido às forças motrizes essenciais, ao desenvolvimento das forças produtivas e à luta de classes".20 Apoiamo-nos numa visão dinâmica, capaz de abordar todas as reviravoltas da realidade em mutação, e apesar do incessante bombardeamento da classe dominante, conseguimos separar o “joio ideológico” do “trigo” dos factos.

A profecia milagrosa nada mais é do que uma fábula, mas a profecia científica é um facto”, afirmou Lenin ao relembrar como Engels antecipou a eclosão da Primeira Guerra Mundial aplicando este método: “E esta será uma guerra mundial de escala e ferocidade sem precedentes. Oito a dez milhões de soldados aniquilar-se-ão mutuamente e, ao fazê-lo, devastarão toda a Europa, de uma forma que os enxames de gafanhotos nunca fizeram. A devastação causada pela Guerra dos Trinta Anos, comprimida num período de três ou quatro anos e estendida a todo o continente…”.21

Nós, marxistas, não esperamos que os capitalistas façam a política mais razoável para a humanidade, mas sim a mais benéfica para os seus interesses. A agenda de Biden e Zelensky ou Xi Jinping e Putin não pode ser explicada pela sua maldade ou insanidade particular, mas sim pelo conflito de interesses contraditórios entre as classes dominantes que se enfrentam pelo controlo do mundo. E a política é a economia concentrada, porque “quando as tarefas, os interesses e os processos económicos adquirem um caráter consciente e generalizado (isto é, ‘concentrados’), eles entram, em virtude disso mesmo, na esfera da política, e constituem a sua essência”.22

É verdade que Hitler certamente foi corroído por complexos físicos de todos os tipos e tendências psicopatas, como afirmam alguns estudos, mas não chegou onde chegou por causa desses traços de personalidade, mas porque o seu programa, o do fascismo, era o que os capitalistas alemães precisavam para esmagar a classe trabalhadora: “A 20 de fevereiro de 1933, Krupp, junto com uma vintena de empresários, reuniu-se com o recém-eleito Chanceler. Hitler ofereceu-lhes um pacto: em troca de financiarem a sua campanha eleitoral para as próximas eleições, este comprometia-se em suprimir os sindicatos, neutralizar a ameaça comunista e acabar com o sistema parlamentar na Alemanha. Além disso, insinuou os seus planos expansionistas e os lucros que este traria. A maioria concordou. Krupp, que na época era presidente da Associação dos Industriais Alemães, foi o mais generoso: doou um milhão de marcos para a causa. Hitler não o esqueceria. A 5 de março de 1933, o Chanceler venceu as eleições e, após eliminar os seus adversários políticos, alcançou poderes ditatoriais. Um dos primeiros passos que deu foi lançar um ambicioso programa de rearmamento. E para isso recorreu à Krupp”.

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Hitler chegou onde chegou porque o seu programa, o do fascismo, era o que os capitalistas alemães precisavam para esmagar a classe trabalhadora.

Rejeitamos a filosofia do Manifesto porque nos apresenta o compromisso dos governos com a paz ou a guerra como uma escolha livre, independentemente dos interesses em disputa. Esta visão dos políticos profissionais como homens ou mulheres capazes de mudar a realidade graças à sua vontade, e independentemente dos processos materiais objetivos, é uma projeção típica do individualismo pequeno-burguês.

É claro que o marxismo não nega o papel do indivíduo. Grandes personalidades podem desempenhar um papel decisivo desde que compreendam as necessidades do desenvolvimento social. Mas são as classes sociais que abrigam a força para determinar o curso da história. A paz e a guerra não dependem da vontade de um ou vários indivíduos. Estas respondem às insuperáveis contradições da sociedade capitalista.

O discurso do pacifismo pequeno-burguês não tem absolutamente nada de original. Durante a Primeira Guerra Mundial, Karl Kautsky mostrou-se o melhor apologista deste, e foi refutado com argumentos, factos e números por muitos marxistas da época, de Lenin a Rosa Luxemburgo.

Kautsky argumentou, há um século, que a política do imperialismo poderia ser separada da sua economia, ou seja, que um capitalismo “não monopolista, não violento e não anexionista” era possível23. O paralelismo é tão evidente que podemos citar palavra por palavra a resposta dos seus contemporâneos marxistas e apontá-la também à nova esquerda do século XXI: "Pois bem, quando a luta armada por privilégios de grande potência já é um facto, Kautsky [a nova esquerda] começa a convencer os capitalistas e a pequena-burguesia de que a guerra é uma coisa terrível, enquanto o desarmamento é uma coisa boa; (…) são, na realidade, nada mais do que tentativas pequeno-burguesas de convencer os financiadores a não fazerem o mal”.24

Trotsky também chegou ao cerne da questão nos seus escritos da Grande Guerra: “Teórica e politicamente, o pacifismo tem a mesma base que a doutrina da harmonia social entre diferentes interesses de classe. A oposição entre estados nacionais capitalistas tem a mesma base económica que a luta de classes. Se estamos prontos para assumir a possibilidade de uma redução gradual da luta de classes, então devemos assumir a atenuação e regulação gradual dos conflitos entre as nações”.25

A guerra imperialista na Ucrânia mostrou que o oportunismo e o "pragmatismo" na política são uma receita para o desastre. Os líderes da nova esquerda reformista, acostumados a acreditar que a massa "inconsciente" é sempre a culpada, enquanto a elite "pensante" faz o que pode com esse material humano, não inventaram nada. Lenin também tratou da suposta “falta de consciência” da classe trabalhadora como argumento para justificar a cumplicidade dos seus dirigentes com a carnificina imperialista:

“Kautsky tenta refutar os seus adversários de esquerda atribuindo-lhes a ideia absurda de que, em resposta à guerra, as massas deveriam ter feito a revolução 'em 24 horas' e implantado o 'socialismo' contra o imperialismo; caso contrário, as 'massas' teriam dado provas de 'falta de caráter' e cometido uma 'traição'. Mas isto não passa de um disparate utilizado até agora pelos autores de libelos burgueses grosseiros e polícias para refutar os 'revolucionários', aos quais Kautsky recorre hoje com muito orgulho.

Os adversários à esquerda de Kautsky sabem perfeitamente que a revolução não se ‘faz’, que as revoluções surgem de crises e reviravoltas históricas que amadureceram segundo leis objetivas (independentes de partidos e classes), que, sem organização, as massas não podem ter uma vontade única e que a luta contra uma poderosa organização terrorista militar estatal centralizada é uma tarefa longa e difícil. (…) As massas, traídas pelos seus dirigentes no momento crítico, nada podiam fazer; mas esse ‘punhado’ de dirigentes tinha todas as possibilidades e o dever de votar contra os créditos de guerra, opor-se à ‘paz social’ e à justificação da guerra, manifestar-se a favor da derrota dos seus governos, criar um aparelho internacional para fazer propaganda a favor da confraternização nas trincheiras, da organização de publicações clandestinas que defendessem a necessidade de prosseguir com ações revolucionárias, etc.”.26

Se queres a paz, luta pela revolução socialista!!

Não podemos estabelecer uma perspectiva fechada do desenvolvimento da guerra e das suas consequências. “Durará muito esta situação? Até que extremos irá piorar? Desembocará numa revolução? Nós não sabemos e ninguém pode saber”.27

A guerra na Ucrânia trouxe à tona novas e poderosas contradições que estão a desenvolver-se rapidamente. O fator político (a guerra) e o económico (a crise) alimentam-se mutuamente, rompendo o equilíbrio global em todos os níveis. O sofrimento acumulado cresce a cada dia. A vida quotidiana torna-se uma luta constante e extenuante: chegar ao fim do mês, cumprir os ritmos de trabalho, obter atendimento médico, ter formação académica, acesso à habitação... Os jovens não vêem um futuro digno desse nome. E agora, com a inflação a devorar os salários, com novos cortes nos direitos sociais e mais austeridade para as famílias trabalhadoras, a luta de classes está a escalar em país após país e a consciência sofre mudanças bruscas.

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O fator político (a guerra) e o económico (a crise) alimentam-se mutuamente, rompendo o equilíbrio global em todos os níveis.

Na Europa — grande perdedora neste conflito — a polarização e o descrédito da democracia burguesa correm paralelamente com um choque económico e social que trará mudanças notáveis na situação objetiva. Uma onda de greves sem precedentes desde a década de 1970 já atinge a Grã-Bretanha (o aliado mais histérico dos EUA na guerra ucraniana), e ameaça espalhar-se por todo o continente (na Bélgica já está convocada uma Greve Geral para novembro). Os estalidos revolucionários não ocorrerão apenas nos elos mais fracos da cadeia capitalista, os países centrais também serão afetados por este tipo de acontecimentos.

Há muitas coisas que já podemos fazer armados com o programa da revolução. Em primeiro lugar, ao contrário do Manifesto da nova esquerda, não nos dirigimos “aos governos que arrastaram os povos para a matança, nem aos políticos burgueses responsáveis por estes governos, nem à burocracia sindical que apoia a burguesia belicista”, os nossos esforços orientam-se para explicar à classe trabalhadora “que os seus interesses são inconciliáveis com os do capitalismo”, convocando à mobilização “contra o imperialismo” agitando pela “unidade dos trabalhadores de todos os países”, dando especial atenção a dois setores da sociedade que demonstraram a sua atitude beligerante contra o capitalismo “as mulheres e os jovens...”.28

Os capitalistas estão plenamente conscientes deste momento histórico excepcional: o sistema que sustenta os seus privilégios cambaleia e farão tudo o que for necessário para evitar o seu colapso. Atrás deles desfilam obedientemente inúmeros indivíduos que se autodenominam "socialistas" e "progressistas", ressuscitando a ideia fracassada de que um imperialismo mais democrático e pacífico é possível.

Da nossa parte, comunistas que não renunciamos ao marxismo, ou seja, que somos revolucionários, afirmamos que o capitalismo com rosto humano é impossível. Estamos convencidos de que a única alternativa à perspectiva apocalíptica que se abre à humanidade é a transformação socialista da sociedade. A nossa posição não é fruto de emoção, mas de uma análise científica baseada no estudo da história da luta de classes que custou tanto sangue aos nossos.

Karl Liebknecht, o revolucionário alemão assassinado por ordem do governo social-democrata em janeiro de 1919 e que foi o primeiro deputado a recusar-se a votar os créditos de guerra no Reichstag, insistiu que "os inimigos do povo estão a contar com o esquecimento das massas”.29 Nós não esquecemos.

Defendemos que as posições desenvolvidas por Lenin, Trotsky e Rosa Luxemburgo há um século são, ainda hoje, a melhor ferramenta para enfrentar a catástrofe que nos ameaça e combater a propaganda ideológica da classe dominante. Mais ainda, processos que foram corajosamente apontados por estes teóricos do marxismo, e que se têm desenvolvido numa escala infinitamente superior — poder e concentração do capital financeiro, a profunda interdependência de todos os países vinculados ao mesmo mercado mundial, o crescimento numérico da classe trabalhadora, as recorrentes crises de superprodução, etc. —, somadas às consequências das mudanças climáticas que ameaçam destruir a vida no planeta, atribuem ainda mais vitalidade e validade à sua abordagem.

Não esperamos resultados rápidos ou fáceis; Nós, trabalhadores e trabalhadoras, sabemos por experiência própria que o progresso exige esforço e perseverança. Mesmo assim, assimilando as vitórias e derrotas, aprendendo com os erros, não tememos o futuro. Estamos determinados a mudar o mundo e convencidos da vitória do socialismo internacional.


Notas:

1. Um dos últimos relatórios da Oxfam considera que “para cada novo multimilionário criado durante a pandemia, um a cada 30 horas, quase um milhão de pessoas poderiam ser empurradas para a pobreza extrema em 2022 quase na mesma proporção (…) 573 pessoas tornaram-se multimilionários durante a pandemia (…) Esperamos que este ano mais 263 milhões de pessoas caiam na pobreza extrema, a uma taxa de um milhão de pessoas a cada 33 horas.” Também avisa que este verão até 350.000 crianças poderiam morrer de fome em África. Todas as organizações económicas consideram inevitável uma redução no crescimento do PIB, um aprofundamento da inflação e uma nova recessão muito prováveis, assim como uma longa guerra.

2. Lenin, A Bancarrota da Segunda Internacional.

3. De acordo com o Banco Mundial, pela primeira vez na história existem 100 milhões de refugiados, ou seja, 100 milhões de pessoas deslocadas à força de suas casas.

4. Esta teoria formulada pelo estado-unidense Samuel Huntington na revista Foreign Affairs em 1993 após o colapso da URSS, é periodicamente ressuscitada quando o imperialismo ocidental precisa de justificar um novo massacre perante a opinião pública. Um exemplo disso foi o caso do presidente francês Sarkozy em 2007, que alertou o mundo para o confronto iminente entre o Islão e o Ocidente.

5. Utopias Pacifistas, 1911.

6. Esta frase é inspirada no Anti-dhüring de Engels, especificamente nos capítulos intitulados "Teoria da violência e do poder", onde este afirma: "O militarismo domina e engole a Europa".

7. N. do T.: Também Portugal alinha nesta política, estimando “gastar 2.584,9 milhões de euros na Defesa Nacional, o que representa mais 198,4 milhões de euros face à estimativa de gastos para 2022” — um aumento 8,3% do orçamento para a Defesa. E o Ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, reproduz a propaganda atlantista afirmando que "O isolamento russo mostra que o mundo compreende que a guerra contra a Ucrânia é também uma guerra contra o direito e a ordem internacional", branqueando por completo o papel do imperialismo estado-unidense no conflito.

8. Lenin, Imperialismo, fase superior do capitalismo.

9. Leon Trotsky, Pacifismo como servo do imperialismo, 1917.

10. “De acordo com uma investigação do The Guardian, mais de 6.000 trabalhadores morreram nestas obras [estádios de futebol], sem que a comunidade internacional condene estes acontecimentos. O regime de Al Thani também exerce perseguição direta ao coletivo LGBTI. O Código Penal classifica as relações homossexuais entre homens como crime punível e estabelece penas de até sete anos de prisão. Além disso, as mulheres são discriminadas na lei e na prática, já que as suas vidas estão sujeitas à tutela do homem”.

11. A 19 de março “Zelensky invocou a lei marcial para banir 11 partidos da oposição . Os partidos proibidos consistiam em todo o espectro de esquerda, socialista ou anti-NATO na Ucrânia. (…) No entanto, partidos abertamente fascistas e pró-nazistas como o Azov National Corps não foram afetados pelo decreto presidencial.”

12. Lenin, O Estado e a Revolução.

13. F. Engels, O Antidhüring, Teoria da violência e do poder.

14. Relembrando a posição de Lenin antes e depois da tomada do poder, Trotsky escreve: “O Partido Bolchevique, não sem dificuldades e apenas gradualmente sob a constante pressão de Lenin, foi capaz de adquirir uma abordagem correta da questão ucraniana. O direito à autodeterminação, isto é, à separação, foi igualmente ampliado por Lenin quer para os polacos quer para os ucranianos. Ele não reconhecia nações aristocráticas. Qualquer tentativa de evitar ou adiar o problema de uma nacionalidade oprimida era considerada uma expressão do chauvinismo grão-russo.” Citação do artigo A Questão Ucraniana, 22 de abril de 1939.

15. “Enquanto depender do poderio militar dos Estados imperialistas, a vitória de um lado ou de outro só pode significar um novo desmembramento e uma vassalagem ainda mais brutal do povo ucraniano. O programa de independência da Ucrânia na época do imperialismo está direta e inextricavelmente ligado ao programa da revolução proletária”. (Leon Trotsky, A Questão Ucraniana, 1939). Para uma análise mais detalhada da questão nacional ucraniana, ver o artigo de Miguel Campos.

16. Lenin, Guerra e social-democracia na Rússia. outubro de 1914.

17. No seu discurso ao povo russo 48 horas antes da intervenção militar na Ucrânia, Putin denunciou Lenin e os bolcheviques pelo "crime" de terem posto em prática, após a revolução de outubro de 1917, o direito à autodeterminação e à independência da Ucrânia, favorecendo a sua integração em pé de igualdade, com a Rússia e outras nações, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Neste discurso, Putin mostrou que é um chauvinista grão-russo, um imperialista, um ferrenho inimigo do bolchevismo, um anticomunista feroz e, em todo caso, um continuador da política repressiva, centralizadora e russificante de Stalin.

18. Lenin, Guerra e social-democracia na Rússia. outubro de 1914.

19. Lenin, Imperialismo, fase superior do capitalismo.

20. Lenin, A Bancarrota da Segunda Internacional.

21. Citação de Engels contida no prólogo do panfleto de Borkheim: Em memória dos ultrapatriotas alemães, 1806-1807, dezembro de 1887. Citado por Lenin no seu artigo Palavras Proféticas.

22. Leon Trotsky, Do arranhão ao perigo da gangrena, 24 de janeiro de 1940.

23. Lenin, Imperialismo, fase superior do capitalismo.

24. Lenin, A Bancarrota da Segunda Internacional.

25. Leon Trotsky, Pacifismo como Servo do Imperialismo, 1917.

26. Lenin, A Bancarrota da Segunda Internacional.

27. Lenin, A Bancarrota da Segunda Internacional.

28. Leon Trotsky, Manifesto A IV Internacional Contra a Guerra Imperialista.

29. Karl Liebknecht, O inimigo principal está em casa, 1915.

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