A União Europeia começou 2026 muito mal. Após a intervenção imperialista estado-unidense na Venezuela, as declarações de Trump sobre a anexação da Gronelândia aos EUA adquiriram um caráter de ameaça iminente.
O que foi considerado um despropósito de um presidente pouco acostumado aos modos da “diplomacia” internacional, agora ganha contornos reais e provocou uma declaração solene dos chefes de Governo europeus.
A crescente fragilidade do capitalismo europeu, cujo reflexo é a inércia em que está imersa a União Europeia, não permitiu que essa resposta a Trump ultrapassasse a mera retórica. Cientes da sua impotência e da sua dependência militar dos EUA, limitaram-se a lançar protestos vazios e a oferecer a Trump ainda maiores garantias de que a sua submissão é completa.
Mas as redobradas demonstrações de vassalagem das autoridades dinamarquesas e groenlandesas, longe de apaziguar Trump, só serviram para endurecer a sua postura. Poucas horas antes da reunião de 14 de janeiro entre o vice-presidente dos EUA J.D. Vance e o secretário de Estado Marco Rubio com os ministros dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca e da Gronelândia, Trump fez declarações públicas explosivas. Além de reiterar que qualquer alternativa que não seja a pura e simples anexação da Gronelândia aos EUA é simplesmente “inaceitável” e que ele se apropriará da ilha “a bem ou a mal”, troçou das capacidades bélicas do exército dinamarquês, cuja defesa da Gronelândia consiste, segundo Trump, em “dois trenós puxados por cães”.
O mais relevante dessas declarações é que Trump faz um apelo à NATO para que apoie esta agressão. As ilusões do Governo dinamarquês e dos governantes dos países da UE que os apoiam — que estão longe de ser a maioria — de que os acordos de assistência mútua, que obrigam todos os países da Aliança a defender qualquer membro da NATO caso sofra um ataque, colapsaram estrondosamente. A indiferença com que o secretário-geral da NATO, o holandês Mark Rutte, despachou as perguntas dos jornalistas sobre a posição da organização perante uma possível ocupação estado-unidense da Gronelândia não deixam lugar a dúvidas: eles vão acatar aquilo que o grande patrão de Washington achar por bem ordenar.
A burguesia europeia uniu o seu destino ao capitalismo estado-unidense
Quando em 2014 o Governo dos EUA, sob a presidência do “progressista” Barack Obama, decidiu intervir agressivamente na Ucrânia para completar um ameaçador cerco militar à Rússia que desembocou na atual guerra, uma entusiasmada UE colocou-se às suas ordens. Quando sob a presidência de Biden, outro “progressista” segundo a social-democracia europeia, foi imposto um plano de sanções à Rússia que incluía o fim das compras de petróleo e gás russos, a UE juntou-se ao comboio de umas medidas cujo principal prejudicado iria ser a Alemanha, a maior potência económica da Europa.

Quando, para certificar a ruptura definitiva dos contratos europeus de gás russo, os gasodutos North Stream 1 e 2 foram atacados, os líderes europeus aprovaram essa ação terrorista. Sem gás russo, a União Europeia viu-se obrigada a comprar gás aos EUA a um custo quatro vezes maior, e os efeitos para a economia alemã foram devastadores. A consequência foi uma recessão cujos efeitos empobrecedores foram impostos à classe trabalhadora desse país e do resto da Europa.
Mas, entretanto, a classe dominante europeia viu na associação com o capital estado-unidense uma oportunidade histórica para aumentar os seus já enormes lucros.
Em plena guerra da Ucrânia, Biden incluiu na sua Lei de Redução da Inflação (2022) um pacote de estímulos para atrair para território estado-unidense capital europeu: importantes investimentos previstos na Europa, sobretudo nos setores de mobilidade elétrica e de energias renováveis, foram transferidos para os EUA. Grandes empresas europeias, entre elas a espanhola Ferrovial, começaram a faturar em Nova Iorque, e essa tendência continua. Um bilião de dólares em ações poderia cruzar o Atlântico este ano em busca das maiores oportunidades de negócio que oferece o mercado de capitais estado-unidense.
A derrota dos EUA na Ucrânia agudizou a sua clara desvantagem perante a China na batalha pela hegemonia global e essa situação é o que empurra Trump a levar mais longe as medidas de extorsão às economias dos países do seu entorno e aos seus aliados históricos. A América Latina, a UE, o Japão ou a Coreia do Sul já estão a sofrer, uns mais duramente que outros, as consequências desta agressiva política imperialista.
As razões para ocupar a Gronelândia: controlo do Atlântico Norte, minerais críticos… e desconfiança quanto ao futuro da UE
Os EUA apresentam duas boas razões para ocupar a Gronelândia. A primeira é que essa ilha é crucial para o controlo do tráfego marítimo no Atlântico Norte. Já em 1940 o exército dos EUA ocupou a Gronelândia e lá instalou várias bases militares, entre elas a célebre base de Thule (hoje, Pituffik) que continua ativa e com tropas yanquis. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA ofereceram-se para comprar a ilha, mas a Dinamarca recusou-se a vendê-la.

Esta posição relevante para o tráfego marítimo torna-se ainda mais crítica devido ao desaparecimento do gelo ártico provocado pelas alterações climáticas. Duas das três novas rotas de navegação tornadas viáveis por esse degelo passam pelas costas da Gronelândia, e a previsão da Organização Mundial do Comércio é que até 2035 o tráfego nessas rotas triplique.
Pelas mesmas razões que levaram, há alguns meses, os EUA a arrebatar à China o controlo dos portos do Canal do Panamá e de mais 21 instalações portuárias espalhadas pelo mundo, Trump quer garantir às empresas do seu país o controlo destas novas rotas comerciais, que lhe dariam uma importante carta na manga para travar, ou pelo menos abrandar, a expansão comercial chinesa.
A esta razão soma-se a maior acessibilidade aos recursos minerais da Gronelândia graças ao degelo. Estima-se que possa conter até 25% das terras raras ainda não descobertas do planeta, bem como importantes recursos de zinco, chumbo, cobre, ouro, molibdénio, grafite, nióbio, tântalo e outros minerais críticos.
Apesar da Dinamarca, com o apoio da UE, ter proposto aos EUA um tratado que lhes garanta o controlo e o acesso exclusivo à navegação e à mineração na Gronelândia, Trump não confia. Está consciente de que a política que promove no velho continente conduzirá, mais cedo ou mais tarde, a um conflito social de consequências imprevisíveis. Por isso, ao mesmo tempo que apoia as forças de extrema-direita em toda a Europa e faz tudo o que está ao seu alcance para enterrar uma União Europeia agonizante, Trump quer ter a certeza do seu controlo sobre a Gronelândia. Quem sabe o que poderá acontecer na Europa em momentos de crise social e política aguda? Quem pode excluir que setores empresariais e financeiros europeus passem a olhar para o imperialismo chinês como uma alternativa para manter os seus lucros e garantir, ao mesmo tempo, uma mínima paz social?
Trump optou pela alternativa mais segura. Há meses que namora os partidos independentistas gronelandeses, em especial o Naleraq, segunda força parlamentar. Os 54.000 habitantes da Gronelândia, maioritariamente de etnia inuit, têm muito pouco a agradecer à Dinamarca, que manteve o seu estatuto colonial até 1953. Mas o seu reconhecimento como cidadãos dinamarqueses de pleno direito pouco melhorou as suas vidas. Até 1991, a Dinamarca, sob governos social-democratas, promoveu a esterilização forçada de mulheres inuit e separou milhares de crianças das suas famílias, transferindo-as para a Dinamarca com o objetivo de as fazer esquecer a sua língua e cultura.

Não é de estranhar que a elite inuit gronelandesa se deixe cortejar por Trump e, ainda que não apoie por agora uma invasão, veja com bons olhos uma maior aproximação aos EUA. Postos a escolher entre uns EUA em plena demonstração de poder e uma UE paralisada e em processo de decomposição, restam poucas dúvidas.
De uma forma ou de outra, com intervenção militar ou através de um tratado, é seguro que Trump fechará as suas garras sobre a Gronelândia. Será uma nova ferida para a União Europeia. Os sonhos de uma Europa capitalista unida e próspera, capaz de desempenhar um papel determinante na ordem mundial, desvanecem-se arrastados pela decadência do capitalismo europeu. E, com os sonhos europeístas, desvanecem-se também as ilusões no reformismo social-democrata. O pouco que ainda resta das conquistas históricas da classe trabalhadora europeia enfrenta-se a um horizonte de destruição acelerada. Só uma mobilização enérgica, armada com o programa da revolução socialista, poderá salvaguardar e ampliar as conquistas democráticas e sociais da classe trabalhadora europeia.









