A 28 de maio de 1926, eclodiu em Braga um golpe militar liderado pelo general Gomes da Costa, apoiado por forças reacionárias ligadas à Igreja Católica. À coluna saída de Braga juntaram-se tropas de Santarém, Évora e Mafra, que marcharam sobre Lisboa e, em apenas dois dias, liquidaram o derradeiro governo da Primeira República Portuguesa.

Ao longo dos 48 anos seguintes, o regime fascista do Estado Novo marcaria esta data como a da sua fundação, sob o nome de Revolução Nacional. Mas o processo de ascensão fascista não se fez num instante, nem triunfou num só dia, sem grandes resistências: foi um processo de revolução e contrarrevolução, antes e depois do 28 de maio, e que terminaria apenas com a derrota definitiva da classe trabalhadora organizada.

Hoje, no centenário desse levantamento, voltamos a viver um tempo em que os mesmos mecanismos de decomposição social e política abrem caminho ao fascismo. E à medida que as suas bandeiras se erguem novamente, alimentadas pelo medo, pela crise e pela desagregação dos sistemas vigentes, ergue-se também a consciência da classe trabalhadora para a luta revolucionária. A história repete-se, primeiro como uma tragédia, e agora como farsa. E para impedirmos que isso aconteça, cabe-nos aprender as lições do passado e aplicá-las à nossa luta.

Uma República aquém das expetativas

A República Portuguesa surgiu como uma conquista das ruas – o levantamento de outubro de 1910, frequentemente reduzido a um golpe militar republicano, só triunfou porque a classe trabalhadora lisboeta saiu à rua. Organizados em células revolucionárias ligadas ao Partido Republicano, trabalhadores ergueram barricadas na Rotunda do Marquês de Pombal e enfrentaram a Polícia Municipal (percussora da GNR) e o Exército, resgatando da derrota uma conspiração militar que, sozinha, não teria sobrevivido.

A revolução emergiu de uma crise profunda do liberalismo monárquico português, expressão local da crise capitalista que atravessava a Europa. As indústrias portuguesas estagnavam, o custo de vida disparava, a fome alastrava e dezenas de milhares eram empurrados todos os anos para a emigração. O regime apodrecia aos olhos de um país exausto.

O Partido Republicano, herdeiro do radicalismo liberal burguês, soube capitalizar esse descontentamento. Através de uma máquina de propaganda sem precedentes – nos jornais, nos comícios, na agitação de ruas e mesmo dentro do parlamento – apresentou a República como a derradeira solução para todos os problemas sociais. Para as classes populares urbanas empobrecidas, a República surgiu como promessa de pão, dignidade e transformação social.

E foi assim recebida. De norte a sul do país, as classes populares celebraram a queda da monarquia com entusiasmo explosivo. Nos centros operários do distrito de Setúbal, historicamente sempre os mais combativos do país, trabalhadores abandonaram espontaneamente as fábricas para festejar a nova ordem que lhes prometia uma vida nova. Em muitas localidades a ordem só viria ser restaurada vários dias depois.

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Para as classes populares urbanas, a República surgiu como promessa de pão, dignidade e transformação social, que nunca foi cumprida.

Mas um partido burguês como o republicano, independentemente da ferocidade da sua propaganda, nunca seria capaz de levar a cabo as reformas sistémicas necessárias para resolver a crise da vida portuguesa. Esta era uma crise do próprio capitalismo, e cuja resolução passava necessariamente pela transformação profunda das relações de propriedade – algo que o republicanismo jamais esteve disposto a tocar.

A reforma agrária, indispensável para libertar os trabalhadores rurais alentejanos da sua miséria secular, nunca passou das palavras. A lei da greve, reivindicação histórica do movimento operário, revelou-se um profundo desapontamento: chamada de “decreto-burla” pelos sindicatos, colocaria as greves e lock-outs patronais no mesmo plano, impunha pré-avisos que neutralizavam a capacidade de luta dos trabalhadores e proibia funcionários públicos de fazer greve.

As ilusões republicanas começaram a ruir quando o novo regime respondeu às greves rurais alentejanas com repressão armada. A greve geral de solidariedade em Lisboa foi esmagada pelo Exército, com centenas de sindicalistas presos no processo. A República que prometera a liberdade mostrava claramente a quem servia.

O derradeiro golpe veio com o abandono do sufrágio universal, uma das mais importantes bandeiras históricas do radicalismo liberal. Quando a direção burguesa do Partido Republicano percebeu que o alargamento da participação política à classe trabalhadora certamente escaparia ao seu controlo, e abriria caminho a reivindicações mais radicais, recuou resolutamente. O sufrágio foi severamente restringindo, e a nova República assentou o seu sistema eleitoral numa base política pouco mais ampla do que a da velha monarquia.

A crise republicana e as experiências bonapartistas

Tendo alienado a ampla base social que o tinha trazido ao poder, e em grande parte cortando-lhe o próprio direito ao voto, o regime republicano viu-se, desde os seus primeiros dias, num estado de permanente insegurança, com crises recorrentes e um  medo paranoico de conspirações vindas de todos os lados.

Sem uma base social em que se firmar, e na qual poderia apoiar o seu programa e a sua liderança de forma concreta, o Partido Republicano rapidamente dispersou-se em várias fações rivais, que ao longo dos anos seguintes combateram ferozmente entre si pelo poder, mantendo sempre uma maior preocupação em captar o poder institucional do que qualquer apoio popular genuíno. Essas lutas facionais rapidamente interferiram no bom funcionamento das instituições do Estado, impedindo qualquer governo de se manter estável no poder por tempo suficiente para levar a cabo um programa consequente durante um período de crise aguda, e dando azo à volatilidade institucional pela qual a Primeira República ficaria marcada.

Nestas condições, era inevitável que entre certas camadas da burguesia, e em particular entre os altos escalões militares, começassem a surgir ambições golpistas, visando forçar alguma estabilidade institucional e social ao país. Perante as disputas facionais que marcavam os republicanos, surgia a necessidade de estabelecer um regime que se erguesse acima dessas quimeras políticas, que pusesse ordem na casa – em suma, um Bonaparte que pusesse fim ao que, nos círculos burgueses, eram vistos como os “excessos da Revolução”. Foi desse sentimento que surgiram as primeiras tentativas bonapartistas na República de instalar uma ditadura.

Várias tentativas de golpe teriam lugar, começando em 1913, com a primeira breve ditadura militar tendo lugar, na figura do general Pimenta de Castro, durante uns breves meses em 1915. Mas o episódio mais marcante do bonapartismo neste período seria o do sidonismo, que durante cerca de um ano governaria o país, proclamando a sua “República Nova”.

Sidónio Pais, professor catedrático em Coimbra e que, durante anos, fora parlamentar, ministro e embaixador em Berlim, vestiu uma farda militar que não usava há décadas, e liderou um golpe militar que, usando como base a Rotunda do Marquês, se revestiu da estética da Revolução Republicana para instalar o seu novo regime. Apresentava-se como um militar, uma figura forte e de fora da política que iria regenerar a República e cumprir a sua promessa. Neste sentido, foi amplamente apoiado, inclusive pelas organizações sindicalistas, que vieram saudar o seu golpe.

Mas rapidamente as esperanças de que o regime sidonista responderia às necessidades da classe trabalhadora desvanecer-se-iam. A “República Nova” de Sidónio Pais tentaria estruturar-se à volta da sua pessoa, um regime presidencialista que centrava os seus poderes na figura do ditador. À medida que surgiam desafios de governança, o sidonismo alinhava-se cada vez mais à direita, com as figuras da burguesia mais conservadora e mesmo reacionária, contra os trabalhadores.

Perante estas sucessivas crises da República, e tentativas de instaurar regimes bonapartistas, foi consistentemente a força organizada da classe trabalhadora que salvou e restaurou o regime republicano, apesar da repressão que sofria às mãos dos seus líderes. Em 1918, foi a ameaça da greve geral que realmente pôs fim ao regime de Sidónio Pais – o seu assassinato serviu apenas para enterrar um regime que, não se mostrando capaz de reprimir a classe trabalhadora, fora já descartado pela burguesia.

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Perante as sucessivas crises da República, foi consistentemente a força organizada da classe trabalhadora que salvou e restaurou o regime republicano, apesar da repressão que sofria às mãos dos seus líderes.

A guerra e a polarização política

A crise nas cúpulas do poder refletia também a crise social que se aprofundava na sociedade portuguesa, e que levava a uma crescente polarização política entre os campos da revolução e da contrarrevolução.

Um importante catalisador dessa polarização foi o despoletar da guerra imperialista em 1914. O conflito que arrasou a Europa afetou Portugal indiretamente, através das perturbações económicas que fizeram escalar os custos de vida no país, mas também diretamente. O regime republicano, em defesa dos interesses da burguesia nacional, em particular em assuntos coloniais, arrastou o país para a guerra, com 55 mil jovens portugueses sendo enviados para as trincheiras em França em 1917, liderados pelo general Gomes da Costa que, em 1926, lideraria o golpe. O Corpo Expedicionário Português teria uma prestação terrível na guerra, com milhares de mortos, feridos e capturados ao fim da sua primeira grande batalha, praticamente desintegrando-se logo de seguida.

A promessa de tirar Portugal da guerra – à qual rapidamente renegaria – fora um dos mais importantes pontos a motivar as organizações operárias a apoiar o regime de Sidónio Pais. Mas rapidamente, a classe trabalhadora ficaria desiludida com o sidonismo, até porque, do outro lado da Europa, a crise exacerbada pela guerra imperialista tinha dado origem a uma nova inspiração – a Revolução Russa de 1917.

A queda do regime czarista em fevereiro de 1917, e mais ainda a tomada de poder pelos sovietes operários em outubro desse ano tocou na consciência dos trabalhadores do mundo inteiro. A tomada de poder tornava-se, pela primeira vez na história, plausível. Entre os círculos operários em Portugal, a onda revolucionária que varreria a Europa nos anos seguintes far-se-ia sentir com uma onda de greves combativas, superando as que tinham tido lugar com a Revolução Republicana tanto em força como em exigências. No Alentejo, os trabalhadores rurais ergueram pela primeira vez a palavra de ordem de expropriação dos latifúndios. A imprensa e agitação operária atingiam níveis nunca antes vistos.

Em março de 1918, o jornal operário A Greve já anunciava: “Aproxima-se a grande revolução. E nós, ao vermos despontar lá longe, esse sol radioso e bom, bradamos: Viva a revolução social iniciada na Rússia! Abaixo todos os governos burgueses!”

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Entre os círculos operários em Portugal, a onda revolucionária que varreria a Europa em 1917 far-se-ia sentir com uma onda de greves combativas, superando as que tinham tido lugar com a Revolução. Republicana tanto em força como em exigências

Foi neste contexto de enorme agitação que a greve geral de novembro de 1918 foi planeada, contra o regime bonapartista de Sidónio Pais, uma greve que prometia unir todos os trabalhadores e consumidores portugueses. No fim, o anúncio do fim da guerra imperialista, causada pelo temor que a onda revolucionária de 1917 tinha causado às classes dominantes da Europa, levou a uma hesitação fatal, e a greve acabou por não ir em frente. Mas a sua ameaça fora suficiente já para arrasar o regime sidonista.

No reverso da medalha, a mobilização militarista para a guerra serviu também para fortalecer os movimentos reacionários que, perante os falhanços da República, começavam a conquistar camadas da pequena-burguesia portuguesa. Várias organizações reacionárias organizar-se-iam nos primeiros anos de guerra, apoiando-se na retórica nacionalista, militarista e chauvinista para encontrar apoio de massas. Seriam estes movimentos que, ao longo da década seguinte, formariam as bases dos batalhões fascistas que, depois do golpe de 28 de maio, tomariam controlo do país e construiriam o regime fascista do Estado Novo.

E tal como a Revolução Russa inspiraria o movimento revolucionário em Portugal, a ascensão fascista em Itália, em 1922, serviria também para galvanizar estes grupos a se organizarem e a tornarem mais ousados e agressivos nas suas ações, com o regime de Mussolini servindo de protótipo a todas as suas ambições.

Também sintomático desta polarização reacionária foi a onda de fanatismo religioso que percorreu o país a partir de 1917, e dos quais o exemplo mais marcante seriam as aparições marianas em Fátima. O culto gerado à volta de Fátima, com mensagens explicitamente anticomunistas, cristalizar-se-ia, durante o período de ascensão fascista, como um dos centros religiosos portugueses, intimamente ligado às forças sociais mais reacionárias.

A República que saiu da guerra estava numa posição ainda mais instável do que antes. A ameaça bonapartista, longe de conciliar, tinha exacerbado as divisões entre republicanos, e a polarização social impedia qualquer regime fundamentado no apoio de massas impossível. As condições financeiras do pós-guerra, com o acrescer das dívidas, a escassez dos bens alimentares e aumento dos despedimentos, levavam a um acirrar da luta de classes, na forma de greves, manifestações e mesmo ataques terroristas individuais, mas também de ataques a sedes sindicais, prisões e deportações de sindicalistas. Esta volatilidade social refletia-se necessariamente na forma de instabilidade política, sendo este período marcado por governos fracos e instáveis, com quase 30 governos passando pelo poder ao longo desses 6 anos.

A República tinha sobrevivido, apoiando-se novamente na luta da classe trabalhadora contra a ameaça reacionária. Mas esta era uma força na qual os republicanos sabiam não poder confiar as suas sortes. Ao contrário de 1910, os operários estavam agora organizados e, mais ainda, tinham na vitoriosa Revolução Russa uma lição do que lhes era possível: continuar a revolução até ao fim e tomar eles próprios o poder.

O anarco-sindicalismo e a organização operária

Se nos anos que precederam à queda da monarquia o Partido Republicano conseguiu conquistar, em massa, a classe trabalhadora industrial, que se tornara um dos elementos mais militantes na sua luta revolucionária, foi pela força da sua propaganda e da sua agitação, e a clareza do seu programa, que proclamava a República como a solução para os problemas das vidas dos trabalhadores.

Por contraste, o Partido Socialista Português, fundado em 1875, nunca tinha sido capaz de ganhar prominência entre os trabalhadores. Faltando-lhe um programa claro e coerente, oscilando entre posições anarquistas insurreccionistas e socialistas reformistas (ao ponto de cooperarem em determinados momentos com o regime monárquico), faltava-lhes a clareza necessária para conquistar a confiança dos trabalhadores e, embora se mantivesse ativo até à supressão fascista dos partidos políticos em 1933, nunca foi relevante.

Quando, após o seu abandono pelo regime republicano, a classe trabalhadora se começou a reorganizar, os sindicatos estiveram na linha da frente desse esforço. O movimento grevista que se seguiu à Revolução Republicana, apesar de ter sido violentamente esmagado, serviu para multiplicar em número, em organização e em militância os sindicatos. Ao longo dos anos seguintes, os trabalhadores portugueses foram-se organizando de forma cada vez mais militante em linhas de classe.

A formação da Confederação Geral de Trabalho (CGT), em 1919, no rescaldo do poderoso movimento grevista e da profunda conscientização revolucionária das massas trabalhadoras, foi um importante passo no caminho da organização política da classe trabalhadora. O seu jornal, A Batalha, tinha impressões diárias e chegou a ser o terceiro jornal mais vendido em território nacional, sendo lido nas cantinas das fábricas para chegar a todos os trabalhadores. A formação de uma central sindical com um programa vincadamente político, colocando na sua pauta a luta anticapitalista, pela eliminação do regime de trabalho assalariado e pela coletivização dos meios de produção, demonstra um avanço significativo em relação a lutas grevistas meramente económicas.

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A formação da CGT, uma central sindical com um programa vincadamente político, foi um avanço significativo no movimento operário português.

O programa político da CGT era de forte inspiração anarcossindicalista, tendência hegemónica dentro da literatura operária portuguesa durante todo este período. O trabalho dos militantes anarquistas dentro dos sindicatos foi crucial para lhes imbuir a necessidade de um programa político, de levar a cabo uma luta feroz contra o regime vigente e de ultrapassar o modo de produção capitalista. Mas o anarquismo dotou ao movimento operário português não só a sua combatividade, mas também as suas limitações. Em particular, a aversão anarquista à disciplina partidária privou o movimento operário de um programa tão coeso, e de uma militância tão firme e unida na ação, quanto teria sido necessário para a luta antifascista. Em momentos críticos da luta, em que a maior unidade de ação era necessária, grupos locais hesitaram ou mostraram reticências, perdendo importantes oportunidades para agir. Ao mesmo tempo, a rejeição do anarquismo à tomada de poder fez com que os trabalhadores portugueses nunca chegassem a considerar, e muito menos preparar, o derrube do regime republicano por uma ditadura do proletariado.

Foram estas limitações que, apesar da enorme força do movimento operário organizado em Portugal, e da coragem e vontade de lutar que a classe trabalhadora demonstraria ao longo de todo este período, permitiram a ascensão fascista depois do 28 de maio de 1926.

O golpe de 28 de maio e o regime fascizante

Quando o general Gomes da Costa e as forças se ergueram em Braga contra o regime republicano, nenhuma resistência se ergueu ao seu avanço. As várias forças políticas ou apoiaram o novo regime, ou pelo menos relutantemente o aceitaram, não existindo a esse ponto qualquer vontade política para manter a antiga República.

Nem mesmo a CGT, e com ela a classe trabalhadora organizada, apresentou uma reação determinada ao golpe. Embora a sua direção tenha começado o trabalho de preparar a greve geral para derrubar a ditadura militar – a mesma forma de luta que, em 1918, se tinha provado fulminante contra o regime bonapartista de Sidónio Pais – a hesitação de alguns dos seus líderes, que insistiram em “desmentir” a acusação de que o regime visava atacar as organizações operárias, fez com que esse esforço desmoronasse e a greve geral nunca chegasse a ir em frente.

Entretanto, dentro das cúpulas do poder do novo regime, ia-se tornando claro que a abolição das instituições parlamentares republicanas e a sua substituição por uma ditadura bonapartista, em volta de uma figura forte, não bastaria para trazer a estabilidade política e social que a burguesia portuguesa desesperadamente necessitava. O próprio general Gomes da Costa, cara pública do golpe triunfante, acabaria feito prisioneiro no Palácio de Belém a 9 de julho, com Óscar Carmona, um candidato apoiado pela ala direita da sua coligação, a substituí-lo como presidente.

Através destes golpes palacianos, as forças mais moderadas do novo regime foram sendo marginalizadas a favor de figuras ligadas aos grupos reacionários que tinham vindo a crescer ao longo da última década, e que tomavam inspiração direta no fascismo italiano. Eventualmente, a sua influência acabaria por ser focada na figura de António de Oliveira Salazar, professor de Coimbra já na altura ligado à direita católica fascizante. Através da sua obra de feroz austeridade contra a classe trabalhadora, Salazar provar-se-ia o servo ideal para a burguesia portuguesa, que rapidamente o empossou como o verdadeiro ditador, firmando o regime do Estado Novo à volta da sua pessoa e do seu programa.

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As forças mais moderadas do novo regime foram sendo marginalizadas a favor de figuras ligadas aos grupos reacionários, que tomavam inspiração direta no fascismo italiano. A sua influência acabaria por ser focada na figura de António de Oliveira Salazar, que se provaria o servo ideal para a burguesia portuguesa.

Mas a passagem do bonapartismo para o fascismo não é apenas uma viragem ideológica para a direita das cúpulas do poder – é um processo que envolve a destruição da classe trabalhadora organizada, e a derrota de qualquer esperança revolucionária. E isso não pode acontecer senão depois de um grande embate entre as forças da revolução e da contrarrevolução.

O 18 de janeiro de 1934 e a vitória do fascismo

Os anos que se seguiram ao 28 de maio foram marcados por frequentes revoltas, lideradas por oficiais com ligações aos partidos republicanos, contra o novo regime – o chamado “Reviralho”. A vasta maioria dessas revoltas nunca chegou a sair dos quartéis e, as que ainda se concretizaram, nunca chegaram perto de ter sucesso.

Em grande parte, a inconsequência destes movimentos devia-se à recusa dos oficiais que os lideravam em procurar apoio popular para as suas conspirações antifascistas. Era indispensável, para garantir o sucesso de qualquer operação antifascista, trazer a CGT, enquanto direção do proletariado organizado e, mais ainda, era necessário armar os trabalhadores e trazê-los diretamente para a batalha contra o fascismo. Mas os comandantes militares antifascistas nunca se atreveram a chegar tão longe no caminho para a revolução. Estavam convencidos de que, se o regime caísse por força da classe trabalhadora em armas, o futuro nunca seria uma restauração da República antiga – mas a construção de uma república socialista, seguindo no exemplo da experiência soviética. E esta era, para os oficiais republicanos de origem burguesa, uma alternativa mais temível do que o de uma vitória fascista.

Cada golpe falhado era uma abertura para o regime fascizante se entrincheirar cada vez, e preparar o seu derradeiro ataque à classe trabalhadora organizada. Esta já tinha vindo a sofrer uma cada vez mais pesada repressão, com ataques fascistas às greves, censura da imprensa operária, e a detenção e deportação dos seus dirigentes nos campos de concentração fascistas.

Em setembro de 1933, o governo agora liderado por Salazar iniciaria um novo ataque à classe trabalhadora organizada, na forma de um pacote laboral, inspirado na legislação fascista italiana, La Carta del Lavoro de 1927, que tornava ilegal todos os sindicatos, greves e negociações coletivas fora dos sindicatos nacionais corporativos. Este ataque foi entendido, desde o início, como um ataque fulminante ao movimento operário organizado. Daí em diante, todos os sindicatos teriam as suas direções sujeitas à aprovação do regime, e poderiam, ao mínimo sinal de dissidência, ser demitidas a favor de comissões administrativas.

Dos 754 sindicatos existentes no país, apenas 57 mudaram os seus estatutos para cumprir a nova lei. Os demais sindicatos prepararam-se para a batalha final: uma greve geral que exigisse a revogação de toda a legislação anti-operária e antissindical, que restaurasse os direitos democráticos perdidos, implementasse a jornada laboral de 6 horas, salário mínimo, apoio aos desempregados e dissolução da polícia política. A data foi apontada para 18 de janeiro como o dia em que os trabalhadores sairiam à rua para, em suma, lutar pela queda do regime fascista. Ao mesmo tempo, oficiais republicanos prometiam sair à rua nesse mesmo dia com as suas tropas, e passar armas aos trabalhadores grevistas, para melhor resistirem à inevitável repressão do regime.

Mas quando a fatídica data do 18 de janeiro de 1934 chegou, a classe trabalhadora saiu de facto à rua, um pouco por todo o país, mas sem a coordenação e a ferocidade necessária para a tarefa a que se propunham. Muitos dos projetos insurreccionistas planeados para esse dia, que poderiam ter decapitado o regime nesse momento crítico, foram sabotados por infiltradores fascistas, ou abandonados por militantes mais temerosos. Os militares republicanos mais uma vez não foram capazes de dar o passo de armar o povo.

Quando as autoridades reagiram, a repressão rapidamente esmagou a revolta dos trabalhadores. A polícia e forças militares leais ao regime intervieram de forma implacável e, ao final do dia, a ordem reinava sobre Portugal inteiro.

O caso da Marinha Grande, que a memória histórica preservou especialmente, foi apenas um entre vários pelo país inteiro, em que centenas de operários conseguiram, por momentos, tomar controlo das suas fábricas e dos seus bairros, apenas para se verem isolados e serem esmagados pelas forças militares assim que foram convocadas.

Centenas de grevistas foram presos nesse dia, tratados como conspiradores numa tentativa de golpe contra o Estado, e condenadas aos campos de concentração fascistas nas colónias, acabando muito por ir parar ao infame Tarrafal.

A greve geral de 18 de janeiro seria a última grande luta da classe trabalhadora organizada. A sua derrota significaria o seu desaparecimento do palco da história para as próximas décadas. O regime fascista estaria completamente entrincheirado e só cairia 40 anos depois, na madrugada de 25 de abril de 1974, com o despontar da Revolução Portuguesa.

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A greve geral de 18 de janeiro seria a última grande luta da classe trabalhadora organizada. A sua derrota significaria o seu desaparecimento do palco da história para as próximas décadas.

As lições para os nossos dias

A primeira lição que se deve tirar desta época histórica é que não se tratou simplesmente de um período de ascensão fascista, de uma viragem à direita da população. Foi um período de polarização política, entre os campos da revolução e da contrarrevolução, e de luta de classes acesa, cujo desfecho podia ter sido a favor das ambições socialistas.

A classe trabalhadora portuguesa teve múltiplas oportunidades, ao longo deste período, para avançar na tomada revolucionária do poder. A própria sobrevivência da República ao longo dos seus dolorosos 16 anos, sempre dependente da luta de ruas da classe operária para resistir às ameaças reacionárias, demonstra a força do proletariado português, a sua vontade de lutar e de construir o seu próprio regime. O que faltou foi uma direção de classe que estivesse à altura do desafio da tomada de poder.

A CGT, a direção do proletariado revolucionário neste período, cometeu vários erros, em grande parte devido às limitações inerentes ao anarquismo. Perante os levantamentos republicanos contra o regime fascizante, recusaram-se várias vezes a juntar-se à luta antifascista, argumentando que seria a substituição de um regime burguês por outro. Ao não considerarem a tomada de poder, não anteviam como, através de um levantamento vitorioso por força das ruas, a classe trabalhadora poderia avançar imediatamente para uma revolução socialista, como o tinha feito na Rússia. E quando agiram, em 1934, a sua estrutura profundamente localizada, funcionando sindicato a sindicato, provou-se demasiado descoordenada para desferir um golpe fulminante ao regime fascista. Teria sido necessária uma unidade de ação muito mais forte, e uma disciplina mais severa, que impedisse hesitações fatais.

Era necessário um partido revolucionário, com um programa coeso e uma direção resoluta, e militantes bem organizados e disciplinados que, no momento de agir, o fizessem sem hesitações, para dar à heroica classe trabalhadora portuguesa, que estava pronta para se erguer em revolta, um sentido clara para avançar. O exemplo histórico da Revolução Russa, que tanta inspiração deu à classe trabalhadora neste período, tem de continuar a inspirar a ação nos nossos dias.

Hoje não existe nenhuma força revolucionária tão fortemente implantada entre a classe trabalhadora quanto a CGT o estava durante os anos 20. Esta é uma falha muito perigosa para o futuro da nossa classe. Em comparação, o campo contrarrevolucionário organiza-se a olhos vistos, tendo à sua disposição um partido parlamentar bem financiado e com ampla cobertura mediática, e grupos de luta de ruas, protótipos de batalhões fascistas para aterrorizar e reprimir a classe trabalhadora. Mesmo os partidos da direita tradicional, que lideram o governo, se firmam cada vez mais neste campo.

Torna-se urgente organizar o partido revolucionário que sirva de direção à classe trabalhadora e lhe permita levar a cabo a sua luta de forma determinada e decisiva. Uma época de revolução e contrarrevolução não deixa espaço para meias medidas. Ou esmagamos a burguesia, ou a burguesia esmaga-nos a nós.

Junta-te à Esquerda Revolucionária e vem organizar o partido revolucionário!

25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!

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