A degeneração do Partido Comunista da URSS e do Estado operário na Rússia passou por diferentes etapas, cada uma representando um maior declínio. Não foi um processo pacífico: a nova casta dominante teve que travar uma luta virulenta contra a ala leninista representada pela Oposição de Esquerda.


A Oposição de Esquerda

No final de 1923, com Lenin gravemente doente, o Triunvirato governante — Stalin, Zinoviev e Kamenev — começou abertamente a batalha contra Trotsky. Uma batalha para abrir caminho a um conjunto de medidas que minavam a democracia operária dentro do partido e das instituições soviéticas e garantiam o domínio indiscutível da nova burocracia.

A orientação não respondeu inicialmente a um plano acabado, expressava sobretudo as pressões das outras classes, os Kulak e a pequena burguesia urbana que levantava a cabeça graças à NEP, e unia-a com os interesses de uma vasta camada de servidores públicos que aspiravam a beneficiar materialmente da sua posição após anos de dificuldades e privações.

Mas o curso do aparato dirigente chocou violentamente com as velhas tradições do bolchevismo, habituado à disputa política que em não poucas ocasiões culminou na formação de plataformas e facções. A tradição de discussão livre e democracia interna que existia nas fileiras bolcheviques enquanto Lenin estava à frente do partido é indiscutível, ao contrário do que aconteceria durante o stalinismo. Os exemplos são abundantes e estendem-se por toda a história do Partido.

No final de 1918, quando o Comitê Central decidiu aceitar as exigências do imperialismo alemão assinando o Tratado de Brest-Litovsk a 3 de Março, um grupo de dirigentes altamente qualificados entre os quais Bukharin, Preobrazhensky, Bubnov, Uritsky, Piatakov etc, renunciam a todas as suas funções e recuperam a liberdade de agitação dentro e fora do Partido. Esta fação dos "comunistas de esquerda", que publica o seu próprio jornal, faz campanha a favor da guerra revolucionária e desautoriza o ponto de vista de Lenin. Quando os eventos confirmaram dramaticamente a posição deste último, eles foram novamente reintegrados na atividade sem que isso impedisse Lenin de refutar energicamente as suas opiniões. Algo semelhante aconteceria com a chamada "Oposição Operária" formada no Outono de 1920 em torno de Shlyapnikov e Alexandra Kollontai, ou nos debates sobre a questão sindical que confrontou Lenin com Trotsky. Todo o conjunto de polémicas, muitas delas ferozes, como aconteceu com a oposição de Kamenev e Zinoviev à tomada do poder em Outubro, não impediu o partido de recuperar a maior unidade e disciplina. O método de Lenin nunca foi a calúnia, muito menos as prisões, deportações ou a fuzilamentos dos seus oponentes.

O partido bolchevique enfrentou situações extraordinárias, a começar pela ameaça representada pela intervenção imperialista e pela catástrofe económica que acompanhou os momentos mais agudos da guerra civil. Em Março de 1921 realizou-se o X Congresso, que adoptou medidas muito difíceis. Em primeiro lugar, ocorreu durante a repressão militar ao levantamento dos marinheiros de Kronstadt, que sinalizava o enorme descontentamento que as condições brutais que a guerra e a escassez generalizada criaram. Além de Kronstadt, as revoltas agrárias ocorreram em todo o país, com destaque para o de Tambov onde um exército de 50.000 camponeses desafiou o Exército Vermelho durante meses. Em segundo lugar, o congresso decidiu voltar atrás com o NEP e, por último, mas não menos importante, aprovou uma resolução extraordinária, embora temporária, contra a formação de facções e tendências dentro do partido que poderiam pôr em perigo a unidade nesses momentos críticos, conferindo ao Comitê Central o poder de expulsar mesmo um dos seus membros, se a decisão fosse adoptada por uma maioria de pelo menos dois terços.

A resolução foi essencialmente dirigida contra a Oposição Operária liderada por Kollontai e Shlyapnikov, que Lenin caracterizou como um desvio anarco-sindicalista. Justificada pela emergência das circunstâncias, essa resolução mais tarde tornar-se-ia uma arma nas mãos da nova burocracia. Mas no momento da votação apenas 25 delegados se opuseram a ele. «A atitude de Lenin foi tranquilizadora», escreve Pierre Broue. «Todos sabem que ele propõe uma medida puramente circunstancial, justificada pela gravidade da situação, sabe-se que pensa que “a ação faccional mais vigorosa justifica-se (...) se as divergências forem realmente profundas e se a correção da política errada do partido ou da classe trabalhadora não pode ser corrigido de outra forma”. Assim, quando Ryazanov propôs a adopção de uma emenda impedindo a eleição de membros do Comité Central de ser feita com base em listas de candidatos de diferentes plataformas, Lenin atacou-o veementemente: “não podemos privar o partido e os membros do Comitê Central do direito de se dirigir aos militantes se uma questão fundamental suscitar desacordos”... ».[1]

Com Lenin fora de combate, a sucessão de atropelos burocráticos e o sufoco da vida partidária começaram a dar sinais alarmantes. Não tardaram em levantar-se numerosas vozes exigindo um retorno às condições de democracia interna e livre discussão que sempre existiram no seio do bolchevismo. A 8 de Outubro de 1923, Trotsky escreveu uma carta ao Comité Central continuando a luta pela democratização que Lenin tinha começado e denunciando os métodos burocráticos de nomear os dirigentes do partido:

«(…) Mesmo durante os dias mais difíceis do comunismo de guerra, o sistema de nomeação dentro do partido não era praticado nem mesmo na décima parte do que é praticado hoje. A prática de nomear secretários de comités provinciais tornou-se a regra. Isso cria uma posição para secretários que é essencialmente independente das organizações locais. Caso surjam oposições, críticas ou protestos, o secretário, com a ajuda da central, pode simplesmente ordenar a transferência do adversário. Numa das reuniões do Politburo, foi anunciado com evidente satisfação que nos casos em que as províncias se fundiam, a única questão de preocupação para as organizações envolvidas era quem seria o secretário do comité provincial unificado. O secretário, nomeado pelo centro e, portanto, praticamente independente das organizações locais, é por sua vez a fonte de nomeações e demissões subsequentes na própria província. Organizado de cima para baixo, o aparato de secretaria está a reunir, de forma cada vez mais autónoma, "todos os fios nas suas próprias mãos".

A participação da base do partido na formação da organização partidária está a tornar-se cada vez mais ilusória. No último ano ou ano e meio, gerou-se uma psicologia especial dos secretários de partido, cuja principal característica é a convicção de que o secretário é capaz de decidir sobre qualquer questão em qualquer esfera sem conhecer plenamente todos os factores envolvidos. Frequentemente observamos casos em que camaradas que não demonstraram nenhuma habilidade organizacional, administrativa ou outra durante os seus cargos nas instituições soviéticas no entanto começam a tomar decisões económicas ou outras de forma prepotente assim que chegam ao posto de secretário. Essa prática é ainda mais prejudicial porque dissipa e elimina qualquer sentido de responsabilidade (...)

A burocratização do aparelho partidário atingiu proporções sem precedentes com a aplicação dos métodos de seleção dos secretários. Mesmo durante as horas mais cruéis da guerra civil, discutimos nas organizações do partido, bem como na imprensa, questões como o recrutamento de especialistas, forças do partido versus exército regular, disciplina, etc., ao passo que agora não existe uma troca de opiniões tão aberta sobre as questões que realmente preocupam o partido. Criou-se uma camada muito ampla de trabalhadores partidários que realizam o seu trabalho no aparato de Estado ou no aparelho partidário e que renunciaram totalmente a ter as suas próprias opiniões políticas, ou pelo menos a expressá-las abertamente, como se acreditassem que a hierarquia do secretariado fosse o aparato apropriado para a formação das opiniões partidárias e a tomada de decisões partidárias. Sob essa camada que renuncia a ter as suas próprias opiniões, há uma ampla camada de massas partidárias diante das quais cada decisão é apresentada como uma convocação ou uma ordem.

Dentro desse estrato da base partidária, há um grau extraordinário de descontentamento que é em parte absolutamente legítimo e em parte causado por factores acidentais. Este descontentamento não está a ser aliviado através de uma troca aberta de opiniões nas reuniões do partido, nem pela influência de massa nas organizações do partido (na eleição de comités do partido, secretários, etc.), mas continua a desenvolver-se em segredo, e depois de um tempo leva a abscessos internos.»

A 15 de Outubro, antes de o Politburo responder à carta de Trotsky, 46 dirigentes bolcheviques tornaram pública uma declaração exigindo o fim do poder dos funcionários e da perseguição contra os militantes que expressavam opiniões diferentes sobre o curso político do partido e da ditadura do proletariado:

«A extrema gravidade da situação obriga-nos a declarar publicamente (no interesse do nosso partido e da classe trabalhadora) que prosseguir a política da maioria do Politburo, ameaça causar verdadeiros desastres a todo o partido. A crise económica e financeira que se iniciou no final de Julho deste ano, com todas as consequências políticas daí decorrentes, revelou inexoravelmente a incapacidade da direção do partido tanto no campo económico como, sobretudo, no campo das relações internas do partido (...) o partido está a deixar de ser aquela comunidade viva e independente que capta com sensibilidade a realidade das coisas porque está ligado a essa realidade por milhares de fios. Vemos, em vez disso, a divisão cada vez maior, e hoje mal disfarçada, do partido entre uma hierarquia secretarial e “gente normal”, entre funcionários profissionais do partido nomeados de cima e a massa geral do partido que não participa da atividade comum. (...)

O regime instituído dentro do partido é absolutamente intolerável; destrói a independência do partido, substituindo-o por um aparato burocrático recrutado que atua sem oposição em tempos normais, mas inevitavelmente a provoca em tempos de crise, e ameaça tornar-se completamente ineficaz face aos sérios acontecimentos provocados pela crise.

A situação assim criada explica-se pelo facto de que o regime da ditadura de uma facção no interior do partido, criado de facto a partir do X Congresso, sobreviveu. Muitos de nós concordámos conscientemente em nos submetermos a tal regime. A viragem política do ano de 1921, e posteriormente a doença do camarada Lenin, exigia, segundo alguns de nós, uma ditadura dentro do partido como medida conjuntural.

Outros camaradas assumiram uma atitude céptica ou negativa em relação a esta situação desde o início. Em todo caso, na época do XII Congresso [Abril de 1923], este regime estava desactualizado. Tinha começado a mostrar o reverso da medalha. Os laços dentro do partido começaram a se enfraquecer, o partido estava a apagar-se. No seu seio, movimentos de oposição extremos e obviamente doentios começaram a adquirir um caráter anti-partido, dado que a discussão entre camaradas sobre questões fundamentais e controversas foi sufocada. Tal discussão teria facilmente revelado o caráter doentio desses movimentos tanto para a massa do partido quanto para a maioria dos seus participantes. Em vez disso, apareceram movimentos ilegais que atraíram membros do partido para fora de suas fronteiras e causaram o divórcio entre o partido e as massas trabalhadoras.

Uma real unidade de opiniões e acções é indispensável. As dificuldades levantadas exigem de todos os membros do partido uma acção unida, fraterna, plenamente consciente, extremamente vigorosa e extremamente concentrada. O regime de facção deve ser abolido, e isso deve ser feito antes de tudo por aqueles que o criaram; deve ser substituído por um regime de unidade entre camaradas e democracia partidária interna. (…)»

Trotsky, que inicialmente permaneceu fora da Declaração dos 46, solidarizou-se plenamente com ela ao publicar uma série de artigos sob o nome O Novo Curso, onde exigia a participação real da classe trabalhadora e das jovens gerações de comunistas para manter e fazer avançar a ditadura do proletariado em direcção ao socialismo. Nos meses que se seguiram, a confluência na caracterização da situação que o partido atravessava cristaliza-se na constituição da Oposição de Esquerda, que reuniu parte considerável dos líderes bolcheviques signatários da Declaração.

É importante notar que estes eventos coincidiram com o desenvolvimento de uma nova situação revolucionária na Alemanha. Como resultado dos encargos económicos do Tratado de Versalhes e da ocupação da área do Ruhr pelo exército francês, uma nova crise eclodiu. A resposta dos trabalhadores alemães foi contundente: grandes greves de massa foram organizadas e um poderoso movimento de delegados de fábricas emergiu. Os trabalhadores voltaram-se para os comunistas, que conquistaram a maioria em muitos sindicatos. Brigadas armadas também começaram a formar-se. O Partido Social-Democrata estava desorientado e a burguesia profundamente dividida. Era hora de uma estratégia clara para tomar o poder. Mas quando a iniciativa e a decisão prática da direção foram necessárias para impulsionar o movimento rumo à vitória, o Partido Comunista Alemão (KPD) mostrou-se incapaz de assumir as suas tarefas, lamentavelmente aconselhado por Stalin.

«A 10 de Julho», escreve Jean Jacques Marie, «os trabalhadores das gráficas encarregados de alimentar as insaciáveis ​​impressoras da casa da moeda entram em greve. O Ruhr, lançado contra o ocupante francês, está em ebulição. A 12 de Agosto, a greve geral varreu o governo de Cuno, substituído por um governo de coligação com ministros social-democratas. A revolução bate à porta. Os comunistas que avançam em todas as eleições sindicais entram nos governos social-democratas da Saxónia e da Turíngia. Na URSS, esta escalada aumenta as expectativas entusiásticas de muitos militantes. Cinco dias antes da queda do governo de Cuno, Stalin escreve a Bukharin que os comunistas alemães devem ter um cuidado especial para não sacudir o ninho de vespas e que é necessário deixar os fascistas — na época um pequeno grupúsculo marginal — tomar a iniciativa. Sem se apoiar em nenhum elemento, ele afirma o seguinte: “Se o poder, por assim dizer, fosse derrubado hoje na Alemanha e os comunistas o assumissem, eles próprios seriam derrubados de forma estrondosa".» E no que é um esboço da táctica que ele aplicaria na própria Alemanha no início dos anos 1930, acrescenta: «"Estamos interessados ​​em que os fascistas sejam os primeiros a atacar; isto irá reunir toda a classe trabalhadora em torno dos comunistas. (...) Na minha opinião, devemos conter os alemães e não encorajá-los.” Contra a opinião de Trotsky, a liderança do partido soviético e da Internacional contê-los-á tão bem que os amordaçarão definitivamente.»[2]

Desistindo de conquistar a base insatisfeita da social-democracia, que olhava com extraordinária simpatia para os comunistas, a direcção do KPD vacilou, agarrando-se à tática da frente única de forma formal, sem entender que naquele momento as circunstâncias tinham mudado rapidamente e eram necessário passar à ofensiva. Os trabalhadores alemães sofreram a terceira derrota em apenas cinco anos.

Essa nova derrota teve um efeito devastador nas fileiras do partido russo e alimentou os ataques contra Trotsky. Uma avalanche de artigos nos órgãos de imprensa soviéticos e do partido, assinados por Stalin e Zinoviev, tentou desacreditá-lo pondo especial ênfase no seu passado não bolchevique. As velhas diferenças com Lenin, completamente superadas após o triunfo de Outubro e pelo papel que ele desempenhou à frente do Estado soviético nas responsabilidades mais difíceis, foram levantadas e brutalmente manipuladas. Citações de controvérsias anteriores, tiradas do contexto, foram usadas como munição. Por outro lado, os ataques a Trotsky pelas suas tendências autoritárias, mesmo "bonapartistas", pretendiam atribuir-lhe um papel num possível golpe de Estado militar. A estas calúnias juntaram-se outras, especialmente aquela que se refere à sua alegada "subestimação" do campesinato e da "capacidade" da Rússia soviética de avançar para o socialismo com as suas próprias forças.

Trotsky defendeu-se escrevendo o Lições de Outubro, uma reafirmação da sua posição leninista durante a revolução, e ao mesmo tempo uma denúncia do papel lamentável que alguns dos "velhos bolcheviques" desempenharam nas horas decisivas. A força da Oposição de Esquerda ficou evidente em numerosas reuniões partidárias realizadas no final de 1923. O seu apoio no Exército era notável, assim como entre os quadros dirigentes da Juventude Comunista. Assim o relata Isaac Deutscher:

«O triunvirato não conseguia suprimir facilmente este “motim”. Os amotinados não eram soldados rasos, mas quarenta e seis generais da revolução. Muitos eram membros do Comité Central. Alguns haviam aderido aos bolcheviques em 1917, junto com Trotsky, outros eram bolcheviques desde 1904. O seu protesto não podia ser escondido (...) As células do partido em Moscovo estavam com uma atitude de rebelião. Receberam os dirigentes oficiais com hostilidade e aclamaram os porta-vozes da Oposição. Em algumas assembleias nas grandes fábricas, os próprios triúnviros foram ridicularizados e perderam os votos por larga margem (…) Antonov-Ovseineko falou perante as organizações pró-militares da guarnição e, pouco depois de iniciado o debate, pelo menos um terço dessas organizações se aliaram à Oposição. O Comité Central da Juventude Comunista e a maioria das células do Komsomol em Moscovo fizeram o mesmo. As universidades foram tomadas de entusiasmo, e a vasta maioria das células de estudantes declarou seu apoio entusiástico aos 46. Os líderes da Oposição reagiram com alegria. (...)

Os triúnviros ficaram assustados. Quando viram em que direção a balança estava a pender nas células da guarnição resolveram que não poderiam permitir que continuassem a votar. Imediatamente removeram Antonov-Ovseineko do seu posto de comissário político chefe do Exército Vermelho, alegando que este havia ameaçado o Comité Central ao declarar que as forças armadas se levantariam “como um só homem” a favor de Trotsky, “o chefe, organizador e inspirador das vitórias da revolução”. (...) Seguiu-se a rejeição dessas críticas. A Secretaria-Geral, em violação dos estatutos, dissolveu o Comité Central de Komsomol e substituiu-o por funcionários designados...».[3]

A batalha estendeu-se para além das fronteiras da Rússia. No Quinto Congresso da Internacional Comunista, realizado entre Junho e Julho de 1924, Stalin e Zinoviev proclamaram a “bolchevização” das seções nacionais, submetendo ao seu controle os aparatos dos partidos comunistas e eliminando os dissidentes. Este foi o primeiro passo de muitos outros, embora a dinâmica de depuração desencadeada não tenha tardado em voltar-se contra alguns dos seus promotores.

O socialismo num só país

A partir do final de 1924 a discussão encontrou um novo eixo: os efeitos económicos, políticos e sociais que supunha a manutenção da NEP, e o consequente fortalecimento das tendências pequeno-burguesas e o perigo de restauração capitalista que isso implicava. No "grande debate", dirigentes como Trotsky ou Preobrazhenski insistiram em reforçar a industrialização do país por meio de um plano centralizado e reduzir progressivamente os altos preços dos produtos manufaturados e de consumo necessários tanto no campo quanto na cidade. Com esta orientação estratégica, pretendia-se dar um salto decisivo para acabar com o quadro de atraso e baixa produtividade da indústria e, sobretudo, melhorar as condições de vida e salários dos trabalhadores, aumentando as taxas de prosperidade e igualdade, absolutamente essenciais para a construção do socialismo.

A tese a favor da industrialização foi rejeitada pelo aparato dirigente, com duas teorias: o socialismo num só país e, destacando-se dele, o apelo à construção do socialismo a passo de tartaruga. Giuliano Procacci, um estudioso daqueles anos, aponta:

«Em Janeiro de 1925, enquanto o longo debate sobre o trotskismo estava a aproximar-se do fim, Stalin reeditou como prefácio do volume Caminho de Outubro, um escrito seu em polêmica com Trotsky que já havia sido publicado a 20 de Dezembro de 1924 no Pravda. Como se sabe, é um livro que alcançou grande sucesso e foi reproduzido nas sucessivas edições das Perguntas do Leninismo. Sabe-se também que o seu sucesso se deve ao facto de que neste trabalho se formulou pela primeira vez a ideia da construção do “socialismo num só país”. (...) Os acontecimentos e discussões dos meses seguintes provavelmente contribuíram em grande medida para fixar muita atenção a essa fórmula. De facto, no final de Março, a sessão plenária do Comité Executivo da Internacional Comunista reuniu-se em Moscovo, e o sinal sob o qual suas tarefas foram realizadas foi a admissão de que, momentaneamente exaurida a grande onda revolucionária aberta pela revolução de Outubro, aos poucos se tinha entrado num período de “relativa estabilização” do capitalismo. (...)

No mesmo período em que foi lançada a teoria da construção do socialismo num só país, desenvolvia-se um outro debate no cenário político soviético, em cujo centro se encontrava também a figura de Bukharin. A 17 de Abril, fez um discurso no Teatro Bolshoi que suscitou amplo eco e viva polémica: nele Bukharin lançou um slogan para os camponeses 'ricos' e delineou a perspectiva política de uma continuação indefinida da NEP e, consequentemente, de uma construção do socialismo a “passo de tartaruga” — como ele o expressará no decorrer dos debates do XIV Congresso (18-31 de Dezembro de 1925) (...).» [4]

A fórmula do socialismo num só país deitava pela borda fora os fundamentos da teoria marxista e renunciava ao internacionalismo proletário. «O que significa a possibilidade do triunfo do socialismo num só país?» perguntava Stalin, «Significa a possibilidade de resolver as contradições entre o proletariado e o campesinato com as forças internas de nosso país, a possibilidade de que o proletariado tome o poder e o use para construir a sociedade socialista completa no nosso país, contando com a simpatia e o apoio dos proletários dos restantes países, mas sem que antes a revolução proletária triunfe noutros países». [5]

Passo a passo preparava-se a degeneração em linhas nacionais e reformistas da burocracia stalinista, de tal forma que o "projecto" de construir o socialismo nas estreitas fronteiras da URSS logo decidiria a política da Internacional Comunista, condicionando-a às necessidades da nova casta dirigente russa, seus interesses materiais e nacionais e, quando apropriado, seus pactos e acordos com os diferentes blocos da burguesia estrangeira. A teoria colidiu com o internacionalismo leninista que uma geração de revolucionários havia firmemente assimilado:

«Desde o início da Revolução de Outubro», assinalou Lenin, «que a nossa política externa e de relações internacionais tem sido o principal problema que enfrentamos. Não simplesmente porque a partir de agora todos os Estados do mundo estão a ser firmemente unidos pelo imperialismo numa única massa suja e sangrenta, mas porque a vitória completa da revolução socialista num só país é inconcebível e exige a cooperação mais activa pelo menos vários países avançados, o que não inclui a Rússia (...) Sempre dissemos, portanto, que a vitória da revolução socialista só pode ser considerada completa quando se torna a vitória do proletariado pelo menos em vários países avançados».[6]

O Termidor da Revolução Russa respondeu a poderosas forças sociais. Stalin expressou o ambiente de depressão do movimento operário, reforçado pelas sucessivas derrotas da revolução europeia, e forneceu uma justificativa política para que todos os burocratas pudessem tirar proveito das novas circunstâncias.

Um fenómeno político dessa magnitude não podia consolidar-se sem graves tensões, sem resistência e luta. Durante a Primavera de 1925, as discrepâncias no Triunvirato explodiram: a nova teoria era um afastamento demasiado grosseiro do pensamento de Marx e Lenin, e Zinoviev e Kamenev denunciaram-no, reconhecendo a sua responsabilidade nos ataques a Trotsky.

A 4 de Setembro de 1925, Kamenev, Zinoviev, Sokolnikov e a viúva de Lenin, Krupskaya, apresentaram uma plataforma perante o Politburo contra a política económica que privilegia os camponeses ricos. Trotsky apontaria dois meses depois: «A posição adoptada pelos círculos dirigentes de Leningrado é uma expressão burocraticamente distorcida da ansiedade política que consome a fação mais avançada da classe trabalhadora perante a orientação económica no seu conjunto e face ao futuro do regime». [7]

O XIV Congresso do PCUS, realizado em Dezembro de 1925, ratificou a posição de Stalin, auxiliado por Bukharin, e constituiu um retumbante triunfo sobre Zinoviev e Kamenev. Só na Primavera de 1926, na sessão do Comité Central de Abril, Trotsky, Zinoviev e Kamenev coincidem na votação das emendas às resoluções de Stalin-Bukharin sobre política económica. A partir desse momento, a Oposição de Esquerda foi reforçada com a chegada dos partidários de Zinoviev e Kamenev, que tinham uma ampla base militante na organização de Leningrado e Moscovo.

Obviamente Trotsky conhecia perfeitamente o carácter pouco fiável dos seus novos aliados, mas entendia a necessidade de influenciar diretamente os milhares de operários e militantes comunistas que os apoiavam e que poderiam constituir uma força decisiva na luta contra o aparelho burocrático. A Oposição Conjunta não demorou muito para causar pânico nas fileiras da liderança stalinista.

A apresentação pública das novas forças de oposição teve lugar na sessão do CC em Junho do mesmo ano e voltou a medir-se no debate sobre a Revolução Chinesa. Em maio de 1927, perante o Comité Executivo da Internacional Comunista, Trotsky apresentou as teses da Oposição e condenou as políticas de Stalin e Bukharin, responsáveis ​​pela aliança com o partido nacionalista burguês do Kuomintang e a derrota do comunismo chinês [8].

O crescente poder da burocracia foi imediatamente demonstrado no debate interno. As reuniões públicas em que participaram membros da Oposição foram atacadas por piquetes armados e a coerção foi generalizada para cobrir a boca dos dissidentes. A partir de Abril de 1927, ocorreram as primeiras prisões de militantes e transferências forçadas: Preobrazhensky e Piatakov foram enviados a Paris junto com Rakovski; Antonov-Ovseyenko para Praga; Kamenev para a Itália. As expulsões afetaram todos os níveis do partido e da Juventude (Komsomol), enquanto a censura aos escritos e textos dos oposicionistas aumentou.

Diante da recusa da facção stalinista em publicar a plataforma política da Oposição para o XV Congresso, esta decidiu distribuí-la clandestinamente, fazendo milhares de cópias e realizando centenas de reuniões com membros do partido para apresentá-la e debatê-la. A reacção foi imediata: Miashkovski, Preobrazhensky, Serebryakov e 14 outros líderes bolcheviques foram expulsos. Trotsky e Zinoviev seriam-no do Comité Central a 23 de Outubro e do partido a 15 de Novembro.

A Oposição Conjunta acusou duramente estas pressões e começou a ceder. Alguns sectores tendiam para a divisão, enquanto outros levantavam abertamente a possibilidade de um entendimento com a facção stalinista. Trotsky rejeitou vigorosamente ambas as posições, reivindicando o endireitamento da política do partido, a restauração da democracia interna e o retorno ao programa leninista.

Os ziguezagues de Stalin

A partir de 1924 a burocracia stalinista empreendeu uma série de ziguezagues políticos, simultaneamente correspondidos com purgas massivas de militantes nas organizações do partido e da Internacional.

Entre 1924 e 1925, o apoio doméstico aos kulaks e aos nepmen transferiu-se ao exterior na forma de acordos oportunistas e burocráticos com organizações reformistas e nacionalistas. Foi o caso da subordinação imposta ao Partido Comunista Chinês em relação ao Kuomintang, que resultou na derrota da revolução chinesa em 1925-1927 e no massacre de milhares de militantes e quadros comunistas em Guangzhou e Xangai. Foi o caso também da aliança com a burocracia sindical inglesa, o chamado “comité anglo-russo”, que facilitou uma cobertura esquerdista dos dirigentes reformistas dos sindicatos que traíram a greve geral de 1926.

Todos os erros da direcção stalinista, com os seus consequentes resultados, foram denunciados pela Oposição, que alertou para os perigos que ameaçavam o Estado operário. Defendendo a economia planificada e as suas conquistas, exigindo o restabelecimento da democracia operária no partido, no Estado e nos sovietes, e o abandono da teoria do socialismo num só país e da colaboração de classes, a Oposição defendia uma política firme de independência internacionalista e de classe.

As advertências da Oposição não demoraram a ser justificadas pelos acontecimentos. Depois de contar com os kulaks e nepmen, a burocracia enfrentou a liquidação pelas próprias forças sociais que havia animado. A restauração capitalista na URSS tornou-se uma ameaça real. A casta burocrática sufocava a participação democrática das massas na gestão e controle do Estado, da economia, da política e da cultura, mas, pelo menos naqueles anos, não estava interessada em que as relações sociais de produção que nasceram com a Revolução de Outubro, ou seja, a nacionalização da economia, fossem eliminadas. Era deste regime económico que obtinha a maior parte dos seus privilégios e rendimentos, mas agindo como organismo parasita consumia parte fundamental da mais-valia gerada pelos trabalhadores, tornando-se um travão cada vez mais importante à construção socialista.

Em pânico, Stalin deu uma nova viragem na sua política e começou a purga da facção dirigida por Bukharin, campeão das concessões aos kulaks e aos nepmen. Com métodos brutais, incentivou a coletivização forçada da terra, a "liquidação do Kulak como classe" e um plano quinquenal de industrialização do país (em quatro anos), assumindo de forma distorcida um dos principais pontos do programa da Oposição de Esquerda. Entre as fileiras da oposição, muitos quadros e militantes honestos, ansiosos por contribuir para o desenvolvimento do Estado operário, viram na virada de Stalin um reconhecimento de sua luta e o caminho para a reconciliação. Assim, houve uma onda de capitulações de muitos líderes e militantes presos e deportados. Mas os eventos cedo provariam que esse julgamento estava errado.

Essa nova manobra teria, como era de se esperar, o seu reflexo correspondente no âmbito da Internacional e uma nova reviravolta da repressão interna. Como mencionamos anteriormente, no Quinto Congresso do Comintern (Junho-Julho de 1924), Zinoviev e Stalin decidiram pela “bolchevização da Internacional” e um purgar em grande escala as direcções dos partidos comunistas. Nesse congresso, também foram delineados os contornos das teses sectárias que mais tarde seriam adotadas. [9] No Sexto Congresso — realizado em 1928 após um lapso de quatro anos — a Internacional Comunista, a pedido de Stalin, deu luz verde à viragem ultra-esquerdista que conduziria às conhecidas teses do "terceiro período" e do social-fascismo, com trágicas consequências para o proletariado alemão e de toda a Europa.

De acordo com a escola stalinista, o "primeiro período" — a crise do capitalismo e a ascensão revolucionária — durou de 1917 a 1924; o “segundo” — estabilização do capitalismo — de 1925 a 1928; a partir desse momento, o “terceiro período”, representado como a crise final do capitalismo, levou ao argumento de que a social-democracia e o fascismo eram gémeos. A nova doutrina foi consagrada em Julho de 1929, durante a X sessão plenária do Comité Executivo da IC com a demissão de Bukharin como chefe da Internacional: «A assimilação da social-democracia ao fascismo é feita com perfeição, e a primeira converte-se em social-fascismo: “os objetivos dos fascistas e dos social-democratas são idênticos; a diferença está nos slogans e, em parte, nos métodos” (...) “é claro que à medida que o social-fascismo se desenvolve, mais se aproxima do fascismo puro”...». [10]

Dado que o resto das correntes da classe trabalhadora eram classificadas como fascistas (social-fascistas, anarco-fascistas, trotsko-fascistas), era impossível para os partidos comunistas defenderem com eles a frente unida antifascista. Nenhuma política poderia ser mais útil a Hitler na época em que se preparava para tomar o poder.

A tragédia alemã

No intervalo de 1927 a 1933, Trotsky sofreu a expulsão do partido, o desterro para a cidade de Alma-Ata, na Ásia Central, e o subsequente exílio do país pela ordem de expulsão de Stalin. Chegado à ilha de Prinkipo (Turquia) em Fevereiro de 1929 com a sua companheira Natalia e o seu filho Leon Sedov, permaneceu isolado dos seus camaradas da Oposição que sofreram a repressão brutal do aparato stalinista. Aos milhares, foram expulsos do Partido, demitidos dos seus empregos e expulsos das suas casas. Mais tarde seriam presos e transferidos para os campos de concentração da Sibéria e do Círculo Polar para serem massacrados.

Nesta primeira etapa de seu novo exílio, Trotsky escreveu textos brilhantes, de grande lucidez, abordando o equilíbrio de sua atuação como revolucionário e os acontecimentos mais candentes da luta de classes internacional. Em Prinkipo, ele concluiu a escrita de A minha vida, A revolução permanente, a sua monumental História da Revolução Russa [11], e numerosos artigos sobre o avanço do fascismo na Alemanha, além dos primeiros trabalhos sobre a revolução espanhola. Naqueles anos começou com grandes dificuldades a tarefa de organizar a Oposição de Esquerda Internacional.

Os escritos sobre a ascensão do fascismo na Alemanha destacam-se pela sua profundidade teórica e suas previsões certeiras. Nas condições de falência da democracia burguesa — assolada pela crise económica e extrema polarização social — surge o fascismo mobilizando amplos setores das classes médias empobrecidas, camadas da classe trabalhadora desiludidas com a política reformista e a legião de deserdados e lúmpenes decorrentes dessa decomposição social. O fascismo aparece como a forma destilada adoptada pela ditadura do capital financeiro para quebrar a resistência dos trabalhadores e esmagar a revolução.

Após sua vitória em Itália, o fascismo entoou a sua marcha triunfal sobre a Alemanha. A República capitalista de Weimar empurrou milhões de trabalhadores alemães para o desemprego e arruinou uma parte significativa da classe média. Essas massas pequeno-burguesas, que poderiam ter sido conquistadas para a causa do proletariado se as organizações operárias tivessem defendido um programa revolucionário, giraram violentamente à direita. Numa sociedade desfeita, os nazis conseguiram aumentar a sua influência consideravelmente. Nas eleições de Setembro de 1930, o SPD obteve 8.577.700 votos; o Partido Comunista (KPD), 4.592.100; e o partido nazi 6.409.600. Se o KPD aumentou os seus votos em relação às eleições anteriores de 1928 em 40%, os nazis fizeram-no em 700%.

Trotsky denunciou incansavelmente as posições sectárias da IC stalinizada e apelou a uma política de frente unida entre comunistas e social-democratas para combater Hitler, baseada em acordos entre as organizações operárias sobre pontos comuns mínimos extremamente claros, começando pela defesa dos locais de trabalho, imprensa, manifestações, direitos sindicais e democráticos e a organização conjunta de milícias de autodefesa dos trabalhadores. Esta política de frente unida não implicou em nenhum caso o abandono da propaganda do programa socialista e favoreceu o entendimento com os trabalhadores social-democratas mais honestos e avançados, que queriam combater a ameaça fascista, pois era a sua própria sobrevivência que estava em causa.

«Devemos dizer claramente aos trabalhadores não partidários, cristãos e social-democratas: “Os fascistas, uma pequena minoria, desejam derrubar o governo actual para tomar o poder. Nós, comunistas, pensamos que o atual governo é inimigo do proletariado, mas este governo conta com a vossa confiança e com os vossos votos; Queremos derrubar este governo por meio de uma aliança com vocês, não por meio de uma aliança com os fascistas contra vocês. Se os fascistas tentarem organizar um levante, então nós comunistas lutaremos com vocês até a última gota de sangue, não para defender o governo de Braun e Brüning, mas para salvar a nata do proletariado de ser aniquilada e estrangulada, para salvar as organizações e a imprensa operária, não só a nossa imprensa comunista, mas também a sua imprensa social-democrata. Estamos dispostos a defender, junto com vocês, quaisquer instalações operárias, sejam elas quais forem, qualquer tipografia operária dos ataques dos fascistas. E pedimos que vocês se comprometam a vir em nosso auxílio no caso de uma ameaça às nossas organizações. Propomos uma frente única da classe trabalhadora contra os fascistas. Quanto mais firme e persistentemente cumprirmos esta política, aplicando-a a todos os assuntos, mais difícil será para os fascistas nos apanharem desprevenidos e menores serão as suas chances de nos derrotarem numa luta aberta”...». [12]

As advertências de Trotsky caíram em ouvidos surdos. Muitos anos depois, Fernando Claudín, líder da Juventude Comunista dos anos 1930 e depois membro da Comissão Executiva do PCE, teve a coragem de fazer o seguinte balanço: «Os acontecimentos logo demonstraram a clarividência das análises e sugestões de Trotsky nos seus escritos de 1931-1932 na Alemanha. Mas a liderança da IC e do KPD não as tomaram em consideração…». [13]

Nas eleições de Novembro de 1932, os nazis obtiveram 11.737.000 votos, mas o KPD e o SPD ainda os superavam em número com mais de 13 milhões (a social-democracia alcançou 7.248.000 votos e os comunistas 5.980.000). Esses números testemunham que o apoio de milhões nas urnas não vale muito sem uma política revolucionária. Em Janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler sem enfrentar resistências dignas desse nome da social-democracia ou do KPD. Enquanto o primeiro aceitou a vitória de Hitler porque era democrática e advertiu os seus militantes a absterem-se de participar de qualquer acção de protesto, os líderes stalinistas alemães, comprometidos com a teoria do social-fascismo e aconselhados por Moscovo, continuavam sem reconhecer a gravidade da situação, contentando-se em considerar o triunfo dos nazis como um prelúdio para a vitória comunista.

Não houve resposta armada do proletariado, apesar de tanto o SPD como o KPD contarem com milícias que totalizavam meio milhão de trabalhadores. Os dirigentes paralisaram politicamente o proletariado alemão, o mais forte da Europa, e os nazis completaram o trabalho esmagando as organizações operárias, que foram pulverizadas. Em Fevereiro de 1933, Hitler dissolveu o Reichstag, depois de o incendiar e culpar os comunistas, e suspendeu todas as garantias constitucionais: o KPD foi declarado ilegal e milhares de seus militantes presos. Não foi a última vitória sobre o proletariado europeu. Na Áustria, o governo do social-cristão Dollfuss (o modelo no qual Gil-Robles se inspirou) fechou o parlamento em Março de 1933 e liderou uma ditadura bonapartista após derrotar a insurreição dos trabalhadores em Viena.

A falência da direcção stalinista diante dos acontecimentos alemães, a sua recusa em enfrentar qualquer equilíbrio e rectificar a sua orientação, levou Trotsky a considerar a necessidade de criar uma nova Internacional.

A Internacional Comunista stalinizada deixou de ser o instrumento da revolução mundial, e a luta pela sua correcção carecia já do significado que tinha anteriormente. A tragédia alemã constituiu um canto de cisne para a Internacional Comunista, da mesma forma que a Primeira Guerra Mundial e a posição patriota o foram para a Segunda Internacional. «Até agora, desenvolvemo-nos como uma facção da Terceira Internacional», escreveu Trotsky, fazendo um balanço dos eventos alemães, «Depois da expulsão, considerámo-nos uma facção e tínhamos como objectivo a reforma da Internacional Comunista. Essa etapa era absolutamente inevitável. (…) Temos que liquidar essa etapa tanto internacional quanto nacionalmente. Vimos a possibilidade teórica de que eventos históricos, explicados de antemão por nós, poderiam produzir, junto com a nossa crítica, uma mudança radical na política da Comintern. (…) A catástrofe alemã teve que causar uma mudança no Comintern, seja tornando possível a reforma, seja acelerando sua desintegração. A Comintern não pode permanecer o que era antes dessa catástrofe. Agora o caminho que ele tomou está bem definido. Não se pode esperar um milagre. Está condenada à derrota. Há que abandonar a ideia de reformar, nacional e internacionalmente, a Comintern como um todo...». [14]

Em Agosto de 1933, o Plenário da Oposição de Esquerda Internacional foi convocado para adoptar todas as conclusões práticas da estratégia de construção da organização. «Agora há uma necessidade imperiosa de coesão estreita nas nossas fileiras, de clareza absoluta de posições e princípios, de fomentarmos a actividade em todos os domínios entre as massas trabalhadoras e oprimidas. Estas premissas permitirão aplicar uma táctica flexível a todas as correntes orientadas para o comunismo e com base em princípios firmes; facilitar a assimilação das verdades fundamentais e sua passagem definitiva ao campo dos intransigentes e sem quartel da luta pela derrubada do capitalismo. Como construir esta nova Internacional? (…) Considerar-se o embrião de um verdadeiro partido comunista; estabelecer em cada secção o nosso programa de acção (...) criar facções em todas as organizações operárias...» Esta foi a nova estratégia adoptada pela Oposição, que a partir de então assumiria o nome de Liga Comunista Internacional (Bolchevique-Leninistas) (LCI).

A frente Popular

A crise política e económica do capitalismo europeu na década de 30 apodreceu as bases da democracia parlamentar e quebrou o equilíbrio da sociedade, acelerando a saída fascista:

«O regime fascista», escreveu Trotsky, «vê chegar a sua vez porque os meios militares e policiais “normais” da ditadura burguesa, com a sua cobertura parlamentar, não são suficientes para manter a sociedade em equilíbrio. Por meio dos agentes do fascismo, o capital põe em movimento as massas da pequena-burguesia irritada e os gangues do lumpenproletariado, desclassificados e desmoralizados, todos esses inúmeros seres humanos que o capital financeiro tem empurrado para a fúria e o desespero. A burguesia exige um trabalho completo do fascismo: desde que aceitou os métodos da guerra civil, ela deseja alcançar a calma por vários anos (...) a vitória do fascismo leva o capital financeiro a tomar directamente em suas mãos de aço todos os órgãos e instrumentos de dominação, direcção e educação: o aparelho do Estado com o exército, municipalidades, escolas, universidades, imprensa, organizações sindicais, cooperativas (...) e exige, acima de tudo, o esmagamento das organizações de trabalhadores». [15]

Stalin permaneceu no poder, mas o regime proletário bonapartista da URSS estava longe de ser estável. Esta era a razão dos constantes movimentos para conseguir "segurança interna" e defesa externa. Após o triunfo nazi de 1933, Stalin tentou uma reaproximação com a Alemanha de Hitler. «Naturalmente, o regime fascista na Alemanha está muito longe de nos entusiasmar», apontou Stalin, «Mas não se trata aqui do fascismo, pela simples razão de que o fascismo na Itália, por exemplo, não impediu a URSS de estabelecer as melhores relações diplomáticas com aquele país». [16] Mas a rejeição de Hitler levou Stalin a buscar refúgio na "legalidade internacional" das demais potências imperialistas: a URSS aderiu à Liga das Nações, denunciada por Lenin como um "grupo de ladrões", e traçou para a Internacional Comunista a política de "segurança colectiva" baseada numa frente comum com os "poderes democráticos", especialmente a França. A Frente Popular foi posta em marcha.

O VII Congresso da Internacional Comunista, reunido em Moscovo a 25 de Julho, incentivou as alianças dos Partidos Comunistas com a social-democracia e as formações burguesas de diferentes tipos com o aparente objectivo de "defender a democracia" e evitar a "ameaça fascista”. Na realidade, a viragem frente-populista representou uma regressão aberta e indisfarçável em relação aos postulados da colaboração de classes da Segunda Internacional.

No contexto da crise revolucionária que abalou a França ao longo de 1936, e que na Espanha adquiriu o seu grau mais agudo entre as eleições de Fevereiro daquele ano e a eclosão revolucionária após o golpe militar de 18 de Julho, a política frente-populista e de colaboração de classe dos dirigentes do PCUS, e consequentemente da IC, completaria o círculo da sua degeneração política iniciada com a teoria do socialismo num só país.

Quando mais necessário era um programa de independência de classe; quando mais urgente era livrar a sociedade das garras da oligarquia financeira e industrial e do peso morto dos latifundiários, os líderes stalinistas teorizaram a defesa da "democracia burguesa", sacudiram toda a experiência histórica do bolchevismo, e prepararam a derrota dos trabalhadores espanhóis e franceses. Mas tudo isso, incluindo os seus acordos diplomáticos com a França e a Inglaterra e o infame pacto germano-soviético de 1939, não impediram nem a Guerra Mundial nem a agressão hitleriana contra a URSS.

A posição de Lenin na política da frente popular e a sua crítica às concepções reformistas do Estado são amplamente conhecidas. Mesmo na época em que Lenin pensava que uma revolução socialista não poderia triunfar na Rússia mais cedo do que na Europa Ocidental, ele sempre rejeitou a ideia de um bloco de programas com a burguesia liberal. Em 1917, como se sabe, nunca pensou em ingressar ou apoiar o governo de coligação como os mencheviques. Em O Estado e a Revolução [17] Lenin deixou clara a concepção marxista a esse respeito, como aponta Trotsky:

«Naquela época, Lenin dirigiu toda a sua crítica teórica contra a teoria da democracia pura. As suas inovações foram as de um restaurador. Ele purificou a doutrina de Marx e Engels — o Estado como instrumento de opressão de classe — de todas as amálgamas e falsificações, restaurando-a à sua pureza teórica intransigente. Ele contrastou o mito da democracia pura com a realidade da democracia burguesa, construída sobre os alicerces da propriedade privada e transformada pelo desenvolvimento do processo num instrumento do imperialismo. Segundo Lenin, a estrutura de classes do Estado, determinada pela estrutura de classes da sociedade, excluía a possibilidade do proletariado conquistar o poder no quadro da democracia e com os seus métodos. Um adversário armado até os dentes não pode ser derrotado com os métodos impostos pelo próprio adversário se, além disso, for também o árbitro supremo da luta». [18]

Mais tarde, nas Teses sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado, Lenin escreveu, pesando cada palavra com o pensamento voltado para a formação dos quadros da nova Internacional, com firmeza:

«4. Todos os socialistas, ao explicar o carácter de classe da civilização burguesa, da democracia burguesa, do parlamentarismo burguês, expressaram o pensamento que Marx e Engels formularam com a maior precisão científica quando disseram que a república burguesa, mesmo a mais democrática, nada mais é do que uma máquina de opressão da classe trabalhadora pela burguesia, da massa operária por um punhado de capitalistas. Não há um único revolucionário, nenhum marxista dos que hoje gritam contra a ditadura e a favor da democracia que não jure e perjure perante os trabalhadores por tudo que é humano e divino que reconhece aquele axioma fundamental do socialismo; mas agora, quando o proletariado revolucionário entra em estado de efervescência e se põe em movimento para destruir aquela máquina de opressão e conquistar a ditadura do proletariado, esses traidores do socialismo apresentam as coisas como se a burguesia oferecesse aos trabalhadores uma "democracia pura" , como se a burguesia tivesse renunciado à resistência e estivesse disposta a submeter-se à maioria dos trabalhadores, como se não tivesse existido e continuasse a existir uma máquina estatal de opressão do trabalho pelo capital na república democrática. (...)

20. A destruição do poder do Estado é um fim que todos os socialistas estabeleceram para si próprios, entre eles, e à sua cabeça, Marx. Se esse fim não for alcançado, a verdadeira democracia não pode ser realizada, isto é, igualdade e liberdade. Na práctica, só a democracia soviética ou proletária leva a este objetivo, pois, ao atrair as organizações de massas dos trabalhadores à participação permanente e inevitável na direção do Estado, começa imediatamente a preparar-se para a extinção total de qualquer Estado ( …)» [19].

Estas teses foram redactadas num momento crítico para a Rússia soviética, quando era perseguida pela intervenção de 21 exércitos imperialistas. Nessas condições extremas, o líder bolchevique nunca abandonou o método e o programa marxista. Argumentar, como têm feito os stalinistas de forma a justificar a política da frente popular, que a proximidade da guerra mundial e a ameaça à URSS tornava necessário este tipo de "acordos" com a burguesia imperialista, não se sustém.

Lenin, Trotsky e os bolcheviques jamais confiaram a sorte da Revolução Russa, nem da URSS, e muito menos da revolução mundial, à colaboração política com as burguesias da França, Grã-Bretanha, da Alemanha nem de nenhum outro país. A sua posição foi sempre a de estimular a acção revolucionária dos operários russos e do resto do mundo. Esta era a melhor garantia de defesa da União Soviética, a maior contribuição para a construção do socialismo na Rússia, e foi o motivo pelo qual nasceu a Internacional Comunista. Em A Terceira Internacional e o seu lugar na história, Lenin clarifica-o:

«Para continuar a obra da construção do socialismo, para levá-la a cabo, ainda falta muito, muitíssimo. As Repúblicas Soviéticas dos países mais cultos, onde o proletariado goza de maior peso e influência, contam com todas as probabilidades para ultrapassar a Rússia, se emprendem o caminho da ditadura do proletariado. A Segunda Internacional em falência está a agonizar. (...) Os seus chefes ideológicos mais destacados, como Kautsky, louvam a democracia burguesa, qualificando-a de "democracia" em geral ou — o que é ainda mais ignorante e tosco — de "democracia pura". A democracia burguesa já expirou, assim como a Segunda Internacional, apesar de que cumpria um trabalho historicamente necessário e útil, quando colocava na ordem do dia a obra de preparar as massas operárias nas estruturas desta democracia burguesa. (...) A república democrática burguesa prometia o poder à maioria, proclamava-o, mas jamais pôde realizá-lo, já que existia a propriedade privada da terra e dos demais meios de produção. A "liberdade" na república democrática burguesa era, de facto, a liberdade para os ricos. Os proletários e camponeses trabalhadores podiam e deviam aproveitá-la com o objetivo de preparar as suas forças para derrubar o capital, para vencer a democracia burguesa; mas, de facto, as massas trabalhadoras, regra geral, não podiam gozar da democracia sob o capitalismo...»

Lenin conclui o seu artigo com uma ideia que golpeia duramente as teses frente-populistas de Stalin, Dimitrov e Togliatti:

«Quem, ao ler Marx, não compreendeu que na sociedade capitalista, a cada situação grave, a cada importante conflito de classes, só é possível a ditadura da burguesia ou a ditadura do proletariado, não compreendeu nada da doutrina económica nem da doutrina política de Marx.» [20]

A destruição do partido de Lenin

A doutrina adoptada pela Internacional Comunista em 1935 não só foi uma caricatura do menchevismo, como também supôs a liquidação política das lições de Lenin, Marx e Engels [21]. As consequências desta traição foram terríveis: para além de preparar a derrota do proletariado espanhol e desarmar a URSS frente a Hitler, Stalin derrubou um rio de sangue entre a velha geração revolucionária.

A revolução e a guerra civil espanhola foram um foco de atenção para Stalin até 1938. A possibilidade de os acontecimentos espanhóis se desdobrarem e deitarem fora a sua estratégia de alianças internacionais, unida ao medo de que a revolução pudesse despertar a actividade oposicionista no seio do PCUS e da IC, explicam muitas coisas. Apesar de os partidários de Trotsky terem sido eliminados das fileiras do PCUS, Stalin precisava de consolidar um poder incontestável, sem nenhum tipo de competência e completamente hegemónico. O seu monopólio do poder empurrava-o para uma política de extermínio de todos aqueles que pudessem, nalgum momento e de alguma forma, pô-lo em questão.

As grandes purgas stalinistas começaram em 1936, atingindo o seu apogeu no ano seguinte, e mantiveram-se até finais da década de 40. O extermínio foi dirigido em primeiro lugar contra os militantes intransigentes da Oposição de Esquerda. Nas palavras de Pierre Broué:

«Baptizaram aos seus inimigos como trotskistas, mas chamavam-se a si próprios de bolcheviques-leninistas, sentindo-se e querendo ser os verdadeiros continuadores do Partido Bolchevique de Lenin e Trotsky. Eram a geração de Outubro, enquadrada e às vezes freada pelos velhos de um partido sorrateado, cansado, desgastado e frequentemente desmoralizado. Um jovem cabo, ao ser ordenado a disparar sobre dezenas de prisioneiros, ficou impressionado que morressem cantando e disse que eram uns fanáticos. Um erro grosseiro, mas útil para os chefes dos algozes. Na realidade, tratavam-se de militantes convictos. Tinham uma moral, mas também uma moral rigorosa que lhes granjeou o respeito dos seus companheiros de calvário. (...)

Estes aproximadamente dez mil opositores que acabaram nas fossas comuns de Vorkuta e Kolyma eram o resíduo de um passado caduco ou um embrião do futuro? (...) Pensamos que esse resíduo vivo poderia ter-se convertido num embrião irresistível: para assegurar o seu poder e aumentar os seus privilégios, os burocratas mais próximos de Stalin deviam eliminar os portadores deste passado até o último deles — matá-los a todos. As mulheres e homens que participaram nas greves de fome até à morte sabiam-no perfeitamente. Apenas confiavam que depois outros dariam a conhecer as suas ideias, a sua entrega, a sua coragem, a sua qualidade humana, o valor do modelo social e político que defendiam.» [22]

A feroz repressão contra dezenas de milhares de comunistas do partido russo teve a sua réplica brutal nas secções nacionais da Comintern, entre os brigadistas internacionais e os assessores militares soviéticos do exército republicano, entre os partisanos e resistentes que combateram Hitler. Este crime contra uma geração de revolucionários marcou um abismo entre o regime despótico de Stalin e a democracia operária instaurada nos primeiros anos da Revolução Russa sob Lenin.

«A 14 de Agosto — escreve Pierre Broué — um comunicado oficial anuncia o começo do que seria a era dos "Processos de Moscovo". Em Agosto de 1936, em Janeiro de 1937, em Março de 1938, terão lugar em público cenas idênticas frente ao colégio militar da Corte Suprema da URSS; acusados que tinham sido companheiros e colaboradores de Lenin, fundador do Estado e do Partido, dirigentes revolucionários mundialmente conhecidos, cujos simples nomes evocam ainda, para certas pessoas, a epopeia revolucionária de 1917, são culpados dos piores crimes, são proclamados assassinos, saboteadores, traidores e espías, todos afirmam o seu ódio a Trotsky, vencido na luta aberta no partido como resultado da morte de Lenin, todos cantam louvores ao seu vencedor, Stalin, o "chefe genial", que "guia o país com mãos firmes"...» [23]

A matança perpetrada por Stalin extendeu-se a todo o partido, e alcançou muitos dos que lhe tinham sido leais no passado. No XVII Congresso do PCUS, celebrado entre Janeiro e Fevereiro de 1934, expressou-se pela última vez um desafio de grandes proporções a Stalin. Mais de 200 delegados votaram contra a sua inclusão no Comité Central, enquanto que Sergei Kirov, responsável da organização em Leningrado, converteu-se no mais apoiado. Este resultado foi ocultado ao Congresso, obviamente, mas refletia o descontentamento crescente com a ditadura despótica do amo do Kremlin.

Kirov foi assassinado no mês de Dezembro de 1934 por ordens de Stalin, e em torno deste crime organizou uma farsa policial e jurídica que terminou numa nova onda de expulsões e detenções de membros e dirigentes do Partido. A grande novela de Victor Serge, O caso do camarada Tulayev, descreve estes acontecimentos e o ambiente de terror vividos nas fileiras do partido a todos os níveis.

A inícios de 1939, dos 1.996 delegados presentes neste XVII Congresso — também chamado o dos "condenados" —, 1.108 tinham sido presos e deles dois terços foram executados entre 1936 e 1940. Dos 139 membros do Comité Central eleitos, 110 foram presos. A fins de 1940, do Comité Central do Partido Bolchevique de Outubro de 1917, só dois membros tinham sobrevivido: Stalin, chefe supremo do Estado, e Alexandra Kollontai, que actuava como embaixadora na Suécia.

Roy Medvedev na sua obra documentada sobre as purgas afirma:

«O conjunto dos antigos membros dos diferentes grupos da defunta oposição não passava de uns 20 ou 30 mil indivíduos, muitos dos quais foram presos ou fuzilados a inícios de 1937. Foi uma perda dolorosa para o Partido; mas ainda estava numa fase inicial. Ao longo de 1937 e 1938 a onda de repressão atingiu o seu auge, arrastando o núcleo central dos dirigentes do Partido. Esta destruição implacável e tão bem planeada de todos os que tinham realizado a obra principal da Revolução desde os dias da luta clandestina, e logo através da sublevação e da guerra civil, alcançando a restauração da economia destruída e o grande florescimento dos primeiros anos 30, foi o acto mais tenebroso da tragédia daquela década.» [24]

Nem as fileiras do Exército Vermelho escaparam desta chacina. Pouco antes de estalar a Segunda Guerra Mundial, todo o Estado Maior foi preso, e estrategas militares brilhantes como Tukhachevsky, Yakir, Gamarnik, foram executados por ordens de Stalin. Entre 1937 e 1938 foram liquidados entre 20 a 35 mil oficiais do Exército Vermelho. 90% dos generais e 80% de todos os coroneis foram assassinados pelo NKVD (denominação posterior da GPU), a temida polícia secreta às ordens de Stalin. Três marechais, 13 comandantes, 57 comandantes de corpo, 111 comandantes de divisão, 220 comandantes de brigada e todos os comandantes dos distritos militares foram fuzilados. [25] A dimensão desta chacina constituiu o melhor favor que se poderia ter feito a Hitler, que evidentemente o aproveitou a fundo.

Uma grande quantidade de assessores soviéticos, comandos das Brigadas Internacionais e simples combatentes, foram caluniados, perseguidos e expulsos, ou pereceram nas grandes purgas. O historiador Kowalsky assinala a este respeito:

«Nenhum dos assessores destacados sobre o terreno ignorava o que estava a acontecer em Moscovo. Os julgamentos-espetáculo aos quais foram submetidos muitos velhos bolcheviques e altos oficiais do Exército Vermelho receberam uma ampla cobertura mediática, e os assessores soviéticos tinham ao seu alcance na Espanha todo tipo de jornais. O diário Mundo Obrero, órgão do PCE de ampla difusão, tinha a sua própria correspondente em Moscovo, Irene Falcón, encarregada de informar sobre os julgamentos. Para além disso, o Comissariado de Guerra utilizou outro método de intimidação, e nesse sentido deu-se ao trabalho de informar directamente os assessores destinados a Espanha o carácter dos processos celebrados em Moscovo. (...) O contingente soviético que prestou os seus serviços na guerra civil sofreu enormes perdas nas mãos dos executores de Stalin em Moscovo, frequentemente imediatamente após de voltar de Espanha.» [26]

Milhares de militantes, após lutar heroicamente na guerra civil espanhola e ocupar um lugar de vanguarda na resistência partisana na França, Itália, Iugoslávia, Hungria, inclusive nas fileiras do Exército Vermelho, obtiveram uma recompensa inesperada: esperava-lhes o encarceramento, quando não a forca e os pelotões de execução. Remi Skoutelsky escreve:
«Após a libertação [da Europa] muitos quadros experientes da Resistência Imigrada na França regressaram aos seus respectivos países para assumir importantes responsabilidades, principalmente onde os comunistas tinham chegado ao poder. Assim, Ljubomir Illitch, designado por Tito para que o representasse perante Eisenhower em 1944, foi à Jugoslávia, Artur London à Checoslováquia e Marino Mazzeti à Itália. Em 1948, Tito rompeu com a URSS. (...) A partir de 1949, em todos os países do Leste, excepto na Polónia, começou uma caça às bruxas similar à que havia ocorrido em Moscovo em 1936, com confissões forçadas e execuções sumárias. Assim, Laszlo Rajk, ministro de Assuntos Exteriores da Hungria, secretário adjunto do Partido Comunista, que tinha sido comissário no batalhão Rakosi e tinha sido ferido três vezes em Espanha, mais tarde preso em Gurs, confessou que tinha sido enviado pela polícia secreta do almirante Horti, o ditador regente aliado de Hitler, "com a dupla intenção de descobrir os nomes do batalhão Rakosi e tentar diminuir a eficácia deste batalhão no plano militar". E acrescentou: "Devo acrescentar que também realizei propaganda trotskysta". Otto Katz, mão direita de Willi Münzenberg na luta a favor da Espanha republicana foi enforcado junto com ele. O objectivo destes processos, que também eram claramente anti-semitas, era impor a supremacia da URSS eliminando qualquer tendência independentista. Por isso apontavam especialmente àqueles que tinham tido lutas internacionalistas, ou seja, os ex-brigadistas.» [27]

Alguns tiveram melhor sorte apesar de terem sido caluniados duramente, como André Marty, expulso do Partido Comunista Francês (PCF). A Assembleia Geral da AVER, a associação de brigadistas franceses na guerra civil espanhola que os stalinistas controlavam, votou uma resolução que dizia: «Os voluntários têm o dever de expulsar das suas fileiras o seu ex-presidente André Marty que, devido aos vínculos com os elementos policiais e os inimigos declarados da causa pela qual lutaram e continuarão lutando, traiu a vossa confiança e desertou das fileiras dos combatentes da democracia.» [28]

Mas foi na URSS onde o terror stalinista alcançou as suas formas mais cruéis, submergindo a sociedade numa atmosfera de paranoia. Segundo Karl Schlögel, na sua obra Terror e utopia, no ano de 1937 foram presas cerca de dois milhões de pessoas, 700 mil das quais foram assassinadas, e quase 1.3 milhões enviadas a campos de concentração e campos de trabalho forçado.

Todas as expulsões, as purgas, os processos, as execuções sumárias, as sentenças aos campos da Sibéria, eram associados à acusação de trotskysmo, termo que na boca do aparelho stalinista era sinónimo do maior dos crimes possíveis. Mas porquê esta hostilidade inigualável contra Trotsky e o trotskysmo? Porquê esta perseguição até ao ponto de desencandear uma carnificina que implicava todo o aparato do Estado soviético?

Trotsky, o colaborador mais próximo de Lenin nos grandes acontecimentos de Outubro de 1917, fundador do Exército Vermelho e comissário das suas tropas durante os difíceis anos de intervenção imperialista e de guerra civil, havia denunciado valentemente a política oportunista da nova burocracia, a sua viragem autoritária e a sua traição ao internacionalismo proletário. Os seus seguidores foram perseguidos furiosamente na URSS, presos e internados em Vorkuta, Kolima e noutros lugares, onde foram exterminados aos milhares. [29]

Mas Trotsky nunca capitulou, apesar de ter sofrido brutalmente a calúnia e a perseguição, a sua expulsão da URSS, a morte e o assassinato de todos os seus filhos e filhas — entre eles Leon Sedov, o seu mais estreito colaborador político — dos seus colaboradores mais próximos, e a aniquilação dos seus camaradas. Até o seu último sopro dedicou toda a sua energia à construção do partido mundial da revolução socialista, a Quarta Internacional, cuja conferência fundadora se reuniu nas periferias de Paris a inícios de Setembro de 1938.

Após recorrer milhares de quilómetros desde a Turquia, passando pela França e Noruega, aterrou no México isolado pelo regime de Lázaro Cárdenas graças a gestões dos seus amigos e camaradas, entre os quais se destacou o genial muralista Diego Rivera. É impossível sintetizar o que foram aqueles anos de exílio, narrados com força e profundidade pelos seus principais biógrafos.

Apesar de Trotsky se sentir condenado, pois estava bem consciente de que escapar da maquinaria assassina do regime stalinista se havia tornado uma tarefa impossível, sabia que era imprescindível para chegar às futuras gerações de revolucionários uma bandeira limpa, não contaminada pelos crimes de uma burocracia degenerada. Nos momentos mais baixos, quando a sua moral sofria os embates das adversidades, não deixava de refletir sobre esta ideia. No seu Diário do exílio, escrito em 1935, diria sobre isso:

«Em 1926, quando Zinoviev e Kamenev, depois de mais de três anos a conspirar com Stalin contra mim, se uniram à Oposição, fizeram-me uma série de advertências não supérfluas. "Você crê que Stalin reflecte sobre os argumentos a usar contra si?" Dizia-me por exemplo Kamenev sobre a crítica que eu fazia da política de Stalin-Bukharin-Molotov na China, Inglaterra e noutros lugares. "Equivoca-se. Reflecte sobre os meios para aniquilá-lo, moralmente e se possível fisicamente. Caluniar, fabricar uma conspiração militar e logo que o terreno esteja preparado, arranjar um acto terrorista. Stalin leva adiante a guerra num plano diferente do seu". (...)

Stalin levava adiante o combate para a concentração do poder nas mãos da burocracia e para eliminar a Oposição, enquanto nós levávamos adiante a batalha pelos interesses da revolução internacional dirigindo-nos assim contra o conservadorismo da burocracia, contra as suas aspirações à tranquilidade, à satisfação, ao conforto. Dada a decadência prolongada da revolução mundial, a vitória da burocracia e, em consequência, de Stalin, estava determinada previamente. O resultado que os curiosos e os tontos atribuem à força pessoal de Stalin, ou ao menos à sua extraordinária habilidade, estava profundamente enraizado na dinâmica das forças históricas… (...)

Para ser claro direi isto. Se eu não estivesse estado em 1917, em Petersburgo, a revolução de Outubro tinha acontecido — condicionada pela presença e a direcção de Lenin. Se nem Lenin nem eu tivéssemos estado em Petersburgo, não tinha ocorrido a revolução de Outubro. (...) Assim não posso dizer que o meu trabalho tenha sido "insubstituível", inclusive no que se refere ao período de 1917-1921, enquanto que o que faço agora é insubstituível, no pleno sentido da palavra. Não há a mínima vaidade nesta afirmação. A queda das duas Internacionais colocou um problema que nenhum dos chefes destas Internacionais está de forma alguma capacitado para tratar. As particularidades do meu destino pessoal colocaram-me frente a este problema completamente armado de uma experiência séria...» [30]

Quando foi assassinado cobardemente na sua residência mexicana de Coyoacán por Ramón Mercader, um mercenário bem treinado pela GPU, essa bandeira pôde ser transmitida e hoje levantamo-la com força milhares de revolucionários em todo o mundo. Tal como deixou escrito, «as leis da História são mais fortes do que os aparelhos burocráticos». [31]

Foram muitos os que acreditaram nas mentiras e calúnias do stalinismo, os que justificaram os seus crimes ou viraram ao lado. Não obstante, muitos reconheceram a impostura ainda que para isso tivessem que viver na própria pele a sua repressão. Os testemunhos destes militantes, que apesar de tudo não renunciaram à causa do socialismo, fazem justiça a essa geração de comunistas aniquilados. Artur London, o brigadista que combateu nas trincheiras espanholas, membro do Partido Comunista Tchecoslovaco e companheiro de Lise London, escreveu um balanço que merece ser lembrado:

«(...) Não é de estranhar que em 1934 tenhamos aceitado as teses stalinistas de que o assassinato de Kirov era uma manifestação de agressividade hitleriana, um complô anti-soviético que exigia uma resposta imediata. Também acreditávamos nas acusações lançadas por Stalin e a equipa dirigente do Partido Bolchevique contra Trotsky, e, mais tarde, contra os demais companheiros de Lenin. A nossa fé em Stalin cegava-nos e não entendíamos que os seus desacordos com outros líderes do partido tinham degenerado num simples ajuste de contas, que as medidas repressivas tinham substituído a discussão, e que a calúnia e a mentira eram utilizadas para desacreditar autênticos revolucionários. Tudo que parecia um ataque contra a URSS era considerado "objectivamente" uma ajuda aos nossos adversários. Assim foi possível entre nós a visão de um Trotsky transformado em agente do nazismo. Esta é uma página negra do movimento comunista internacional, que seguindo Stalin se tornou seu cúmplice.» [32]

Artur London não foi o único a reconhecer esta actividade criminal, incompatível com a causa dos trabalhadores. Entre os inúmeros testemunhos de comunistas que romperam com Stalin citaremos por último Ignacio Reiss, o agente do NKVD assassinado em Setembro de 1937 pelos seus antigos companheiros. Reiss, conhecido como Ludwig, escreveu uma carta ao Comité Central do PCUS a 17 de Julho de 1937, que rendeu um tributo imortal à figura e obra de Leon Trotsky:

«A carta que hoje vos escrevo deveria tê-la escrito já há muito tempo, no mesmo dia em que os Dezesseis foram massacrados nos sótãos da Lubianka seguindo as ordens do "pai dos povos".

Então guardei silêncio. Também não levantei a minha voz para protestar contra os assassinatos que se seguiram, e esse silêncio lança sobre mim um pesado fardo. A minha culpa é grande, mas esforçarei-me para repará-la o mais rapidamente o possível, com o fim de aliviar a minha consciência.

Até agora marchei ao vosso lado, mas não darei um passo mais na vossa companhia. Os nossos caminhos separam-se! Quem hoje cala converte-se em cúmplice de Stalin e trai a causa da classe operária e do socialismo!

Luto pelo socialismo desde os 20 anos. No limiar dos 40, não quero viver mais pelos favores de um Yezhov. Ficam para trás 16 anos de trabalho clandestino. Não é pouco, mas ainda me restam forças suficientes para começar tudo de novo. Pois trata-se de começar tudo de novo, de salvar o socialismo. Já há muito tempo que a luta está soterrada. Desejo ocupar o meu lugar nela.

O estrondo organizado ao redor dos aviadores que sobrevoaram o Pólo tem como objectivo calar os gritos e os gemidos das vítimas torturadas em Lubianka, em Svobodnaia, em Minsk, em Kiev, em Leningrado, em Tiflis. Esses esforços são inúteis. A palavra, a palavra da verdade é mais forte que o estrondo do mais poderoso dos motores. É certo que os ases da aviação comoverão o coração das senhoras estado-unidenses e da juventude dos dois continentes, intoxicada pelo desporto, mais facilmente que nós, na tentativa de conquistar a opinião pública internacional e fazer estremecer a consciência do mundo!

Mas que ninguém se equivoque: a verdade abrirá caminho, o dia da verdade está mais perto do que pensam os amos do Kremlin. O dia em que o socialismo internacional julgará os crimes cometidos nestes últimos dez anos está próximo. Nada será esquecido, nada será perdoado. A história é inflexível: "o chefe genial, o pai dos povos, o sol do socialismo" será responsabilizado pelos seus actos: a derrota da Revolução Chinesa, o plebiscito vermelho, o esmagamento do proletariado alemão, o social-fascismo e a frente popular, as confidências ao senhor Howard, o terno caso de amorcom Laval… Todas elas histórias cada uma mais insólita!

Esse processo será público e com testemunhos, uma multitude de testemunhos, mortos ou vivos: falarão todos uma vez mais, mas esta vez para dizer a verdade, toda a verdade. Comparecerão os inocentes destruídos e caluniados, e o movimento operário internacional irá reabilitá-los a todos. A esses Kamenev, Mrachkovski, Smirnov, Muralov, Drobnis, Serebriakov, Mdivani, Okudzhava, Rakovski e Andreu Nin, todos esses "espiões e provocadores", todos esses "agentes da Gestapo e saboteadores"!

Para que a União Soviética e o conjunto do movimento operário internacional não sucumbam definitivamente sob os golpes da contra-revolução aberta e do fascismo, o movimento operário deve livrar-se de Stalin e do stalinismo. Essa mistura do pior do oportunismo — um oportunismo sem princípios —, de sangue e de mentiras ameaça envenenar o mundo inteiro e aniquilar os restos do movimento operário.

Uma luta sem trégua contra o stalinismo! Não à frente popular, sim à luta de classes! Tais são as tarefas inevitáveis do momento.

Abaixo a mentira do socialismo num só país! Voltemos ao internacionalismo de Lenin!

Nem a Segunda nem a Terceira Internacional são capazes de levar a cabo esta missão histórica: desintegradas e corruptas, apenas servem para evitar a luta da classe trabalhadora, apenas servem como auxiliares das forças policiais da burguesia. Ironias da história: noutro tempo, a burguesia expulsaria das suas fileiras os Cavaignac e os Galliffet, os Trepov e os Wrangel. Hoje, sob a "gloriosa direcção" das duas internacionais, são os próprios proletários que assumem o papel de algozes dos seus camaradas. A burguesia pode dedicar-se tranquilamente aos seus negócios: "a ordem e a tranquilidade" reinam por toda a parte, ainda há indivíduos como Noske e Yezhov. Stalin é o seu chefe e Feuchtwanger, o seu Homero.

Não posso mais. Recupero a minha liberdade. Retorno a Lenin, aos seus ensinamentos e à sua acção. Pretendo consagrar as minhas humildes forças à causa de Lenin. Quero combater porque apenas a nossa vitória — a vitória da revolução proletária — libertará a humanidade do capitalismo e a União Soviética do stalinismo!

Avante, rumo a novos combates pelo socialismo e pela revolução proletária!

Pela construção da Quarta Internacional!

Ludwig
17 de Julho de 1937

PS: Em 1928 fui condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha pelos meus serviços à revolução proletária. Em anexo envio dita condecoração. Iria contra a minha dignidade exibi-la ao mesmo tempo que os algozes dos melhores representantes da classe operária russa. (O Izvestia publicou nestes últimos dois meses as listas dos novos condecorados, cujas funções foram pudicamente silenciadas: são os executores das penas de morte).» [33]

 

[Esta é a última parte de um artigo escrito em três partes. Podes ler aqui a primeira parte e aqui a segunda.]

 

Cronologia política de Leon Trotsky

1879
Lev Davidovich Bronstein, mais conhecido como Leon Trotsky, nasce a 26 de Outubro na cidade de Yanovka (actual Bereslavka, oblast de Kirovogrado), Ucrânia (7 de Novembro segundo o novo calendário).

1897-1899
Começa a actividade clandestina contra o czarismo e participa na fundação da União Operária do Sul da Rússia. Um ano depois é preso pela primeira vez por causa da sua actividade revolucionária. Em 1899 os tribunais czaristas condenam-no à sua primeira deportação para a Sibéria.

1902
Graças à colaboração dos seus camaradas e utilizando um passaporte falso consegue fugir do confinamento para dedicar-se plenamente à organização do movimento social-democrata russo. Neste momento adopta o pseudónimo de Leon Trotsky. Aterra em Londres, onde conhece Lenin. Imediatamente passa a colaborar com a redacção do Iskra. Lenin apelida-o de Pena pelo seu talento como escritor revolucionário.

1903
Participa como delegado do segundo congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), que dará origem à divisão histórica entre bolcheviques e mencheviques. Nesse período mantém diferenças com Lenin em questões de organização e colabora com o grupo dirigente menchevique. Um ano mais tarde rompe politicamente com os mencheviques e opõe-se rotundamente com a aliança política com os liberais que aqueles defendiam.

1905
Ocupa um papel protagonista na primeira revolução russa; agitador do soviete de Petrogrado, converte-se no seu presidente. Após a derrota da revolução é apanhado e preso na fortaleza de Pedro e Paulo. Um ano mais tarde é condenado pelos tribunais czaristas à deportação vitalícia. Em 1906 escreve a obra fundamental daquela revolução, Balanço e perspectivas, onde sistematiza a teoria da revolução permanente.

1907
Após uns meses de deportação na Sibéria, escapa novamente, pela segunda vez. Após passar por Finlândia, Londres e Berlin, estabelece-se em Viena, onde residirá até o começo da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

1912
Uma vez consumada definitivamente a cisão entre bolcheviques e mencheviques tenta, em vão, reunir numa conferência todas as tendências social-democratas (o denominado Bloco de Agosto). Lenin critica-o duramente pela sua atitude conciliadora, erro que reconhece plenamente nos seus escritos posteriores.

1914
Trotsky decide refugiar-se na Suíça, onde escreve A guerra e a Internacional. Em Novembro muda-se para a França, onde desenvolverá uma intensa agitação internacionalista contra a guerra imperialista. Um ano mais tarde começa a sua colaboração no jornal Nasche Slovo, sobre o qual exercerá grande influência. Rompe definitivamente com as posições conciliadoras que tinham inspirado o Bloco de Agosto de 1912. Em Setembro de 1915 é um dos organizadores da Conferência Internacional de Zimmerwald (Suíça).

1917
O governo capitalista da França, aliado da Rússia na grande guerra, aprova a sua expulsão do país por suas actividades revolucionárias. Após o estalo da revolução de Fevereiro em Petrogrado consegue do Governo Provisório a autorização para entrar na Rússia. Durante a viagem de regresso à Europa é preso pelas autoridades britânicas em Halifax (Canadá) e colocado num campo de prisioneiros de guerra alemães. Libertado a 29 de Abril, chegará à Rússia a 17 de Maio.

No mesmo momento em que regressa a Petrogrado, e à proposta dos bolcheviques, é incluído no Comité Executivo do soviete da cidade. Dirige uma organização de veteranos revolucionários internacionalistas conhecida como Mezhraiontsy (Interdistritais). No terreno táctico e estratégico adopta as mesmas posições que Lenin sobre a revolução russa. É preso, junto com centenas de militantes bolcheviques, na onda repressiva posterior às Jornadas de Julho. Na prisão formaliza o seu ingresso no partido bolchevique junto com os seus camaradas do grupo Interdistritais e é eleito membro do Comité Central bolchevique.

Em Setembro, e à proposta do partido bolchevique que já tinha ganhado a maioria do soviete de Petrogrado, Trotsky é eleito presidente do mesmo. Mão direita de Lenin, imediatamente assume a direcção do Comité Militar Revolucionário e é designado pelo partido bolchevique para dirigir a preparação da insurreição de Outubro. Após o triunfo é eleito Comissário do Povo de Assuntos Exteriores no primeiro governo revolucionário. Dirige a delegação soviética nas negociações de Brest-Litovsk com os imperialistas alemães.

1918
Por proposta de Lenin é designado Comissário do Povo para a Guerra, entregando-se à tarefa de levantar o Exército Vermelho. Como chefe militar do Exército Vermelho comanda com êxito as tropas revolucionárias de trabalhadores e camponeses contra os guardas brancos e os invasores imperialistas. A sua contribuição à estratégia militar revolucionária está recolhida nos cinco volumes dos seus Escritos Militares editados pelo Estado soviético. Durante os seus deslocamentos no comboio blindado, com o qual recorre todo o frente de guerra, escreve uma magistral resposta às posições revisionistas de Kautsky e as suas acusações contra os bolcheviques: Terrorismo e Comunismo.

1919-1922
Durante o Congresso fundacional da Internacional Comunista (IC) no mês de Março, Trotsky redacta o projecto de manifesto final. Um ano mais tarde, no II Congresso da IC redacta as teses sobre a situação mundial. É encarregado de dirigir a mobilização do Exército Vermelho na batalha decisiva contra o exército de Wrangel, cuja derrota marca o final da guerra civil. Em 1921 participa no III Congresso da Internacional Comunista, e volta a estar encarregado de escrever as teses sobre a situação mundial. Junto com Lenin defende a táctica da frente unida em contraposição às posições ultra-esquerdistas que surgem na IC.

1923
Tem início a luta contra a gangrena burocrática nas fileiras do partido e do Estado soviético. Trotsky elabora uma série de artigos recolhidos no O Novo Curso. Realiza uma crítica aguda contra a atitude do Partido Comunista Alemão e da Internacional pela oportunidade perdida na crise revolucionária que atravessava o país. Começa a actividade da Oposição de Esquerda que agrupa uma parte fundamental dos quadros e militantes leninistas que resistem ao poder da burocracia e aos ataques contra a democracia operária.

1924
Em Janeiro morre Lenin após dois anos de prostração por motivo de doença. O crescimento do aparelho burocrático adquiriu proporções alarmantes; para fixar as suas opiniões Trotsky publica Lenin e Lições de Outubro. As posições de Trotsky concentram todo o fogo da troika Stalin-Zinoviev-Kamenev, que ampliam o ataque no V Congresso da Internacional Comunista que tem lugar nos meses de Junho e Julho. Stalin formula pela primeira vez a sua teoria do "socialismo num só país", uma ruptura decisiva com o programa leninista.

1925
Trotsky é destituído em Janeiro pela nova direcção burocrática das suas funções como Comissário do Povo para a Guerra e presidente do Conselho Superior de Guerra.

1926
É constituída a Oposição Conjunta, que une os partidários da Oposição de Esquerda e os seguidores de Zinoviev e Kamenev, já confrontados com o aparelho stalinista.

1927
Trotsky desenvolve uma dura crítica da linha oportunista da Internacional Comunista durante a segunda revolução chinesa (1925-1927), que impõe aos comunistas chineses a subordinação ao partido burguês Kuomintang. O massacre de comunistas em Canton e Shanghai às mãos das tropas de Chiang Kai-shek confirma os piores medos de Trotsky e da Oposição. Em Setembro deste ano é expulso do Comité Executivo da Internacional Comunista. Em Novembro é expulso do Comité Central do Partido Comunista da URSS. A 14 de Novembro é expulso do partido, junto com Zinoviev.

1928
Após a deserção de Zinoviev e dos seus seguidores, Trotsky continua a dirigir a Oposição de Esquerda e a sua luta intransigente contra a degeneração burocrática. Utilizando métodos gangsters, Stalin decide a deportação de Trotsky à Alma-Ata, centro administrativo do Cazaquistão. Nesta localidade Trotsky escreve a crítica ao projecto de programa para o VI Congresso da Internacional Comunista, que é publicado em numerosas edições com o nome A Terceira Internacional depois de Lenin. Também iniciará a redacção da sua obra A revolução permanente, que será terminada no ano seguinte.

1929-1932
Stalin consegue que Trotsky seja expulso da União Soviética e deportado para a ilha de Prinkipo na Turquia. Em Julho publica o primeiro número do Boletim da Oposição que é distribuído clandestinamente na URSS. Em 1930 escreve uma série de artigos sobre os acontecimentos revolucionários em Espanha e Alemanha. Em 1931 publica o primeiro volume da História da Revolução Russa.

1933
As deportações e detenções de membros da Oposição de Esquerda na URSS às mãos da política de Stalin atingem o seu apogeu. A sua filha Zina suicida-se, o que o afecta profundamente. A catástrofe que supõe para o movimento operário internacional o triunfo de Hitler na Alemanha e a política falsa levada a cabo pela Internacional stalinizada incapaz de frear o avanço do fascismo, convence-o da necessidade de construir novos partidos comunistas e uma nova internacional. Em Outubro declara que apenas a revolução política e o derrube da burocracia poderão restabelecer a democracia proletária na URSS. Em Julho deste ano estabelece-se em França junto com Natalia, sua incansável companheira. No Outono de 1934 começa a redacção de Para onde vai França?

1935-1936
Por pressões de Stalin e da direcção do PCF, Trotsky é novamente expulso de França e instala-se na Noruega. Inicia a redacção da sua grande obra sobre a degeneração stalinista com a qual se armará teoricamente o movimento proletário mundial, A revolução traída. Todos os governos capitalistas do mundo negam asilo a Trotsky até que por fim os seus camaradas conseguem que seja aceite no México pelo general Lázaro Cárdenas em 1936. Iniciam-se os julgamentos farsa de Moscovo que acabam no fuzilamento da velha guarda bolchevique e o internamento em campos de concentração de dezenas de milhares de bolcheviques leninistas. Ao longo de cinco anos, as grandes purgas organizadas por Stalin e o seu aparelho aniquilam o Partido Bolchevique. Escreve artigos esclarecedores sobre a Revolução Espanhola e a guerra civil.

1937-1938
O seu filho Sergei é detido na URSS e morrerá num campo de concentração. Em Fevereiro de 1938 o seu filho Leon Sedov, estreito colaborador político de Trotsky, é assassinado por agentes stalinistas em Paris.

Trotsky escreve A moral deles e a nossa e nesse mesmo ano prepara os documentos para a conferência fundacional da Quarta Internacional, que ocorre em Paris no mês de Setembro. Elabora o documento programático da nova internacional, O programa de transição.

1940
Em Maio, agentes stalinistas levam a cabo uma tentativa falhada de assassinar Trotsky na sua casa em Coyoacán. Finalmente, numa segunda tentativa a 20 de Agosto, Trotsky é assassinado com uma picareta pelo agente espanhol da GPU Ramón Mercader. Deixou quase completa a sua obra biográfica sobre Stalin.

 

 

NOTAS
[1] O Partido Bolchevique, Pierre Broué. Ed. Ayuso, Madrid 1974, p.214.

[2] Trotsky, revolucionário sem fronteiras, Jean Jacques-Marie. Fondo de Cultura Económica, México 204, p.291.

[3] O profeta desarmado, Isaac Deutscher. Ed. ERA, México 1985, pp.116-117.

[4] "As posições em litígio", em O Grande Debate - II. O socialismo num só país (textos de Stalin e Zinoviev), Guiliano Procacci. Ed. Passado e Presente, Córdoba 1972.

[5] "Questões do Leninismo", em O Grande Debate, Stalin. P. 118

[6] Ted Grant, op. Cit., p.78.

[7] Trotsky, revolucionário sem fronteiras (citação), Jean Jacques-Marie. Fondo de Cultura Económica, México 204, p.332.

[8] Kuomintang (KMT): partido nacionalista burguês fundado por Sun Yat-sen em 1911 e dirigido por Chiang Kai-shek desde 1926. Encabeçou as mobilizações que derrubaram a dinastia imperial. Apesar do seu carácter, os comunistas chineses ingressaram no partido em 1923 seguindo as diretrizes da direcção da IC. Em 1927, os stalinistas nomearam Chiang como membro honorífico do Comité Executivo da Internacional Comunista. Poucos meses depois, o Kuomintang organizou o massacre em Shanghai, assassinando dezenas de milhares de comunistas e trabalhadores e esmagando o Partido Comunista Chinês, seu antigo aliado. Chiang Kai-shek implantou uma ditadura bonapartista burguesa até ser derrubado pelo Exército Vermelho de Mao em 1949.

[9] No seu livro documentado sobre a Internacional Comunista, Fernando Claudin assinala: «Nas suas teses [V Congresso] diz: "quando mais se decompõe a sociedade burguesa mais os partidos burgueses, principalmente a social-democracia, tomam um carácter mais ou menos fascista. O fascismo e a social-democracia são duas faces de um mesmo instrumento da ditadura do grande capital. Por isso a social-democracia não poderá jamais ser um aliado seguro do proletariado na sua luta contra o fascismo". "Os fascistas", diz Zinoviev, "são a mão direita da burguesia e os social-democratas a mão esquerda (...)". Pouco depois do V Congresso, Stalin aprofunda as fórmulas de Zinoviev sobre a social-democracia e o fascismo: "O fascismo é uma organização de choque da burguesia, que conta com o apoio activo da social-democracia. A social-democracia é objectivamente a ala moderada do fascismo (...) estas organizações não se excluem, mas sim complementam-se. Não são antípodas mas sim gémeas. O fascismo é o bloco político táctico destas duas organizações fundamentais, surgido na situação criada pelo imperialismo no pós-guerra para lutar contra a revolução proletária…"» (A crise do movimento comunista, Fernando Claudin. Ibérica de Edições e Publicações, Barcelona 1978, pp.118-119).

[10] Ibidem, pp.121-122.

[11] As três obras foram editadas pela Fundação Federico Engels.

[12] "Contra o comunismo nacional. Lições do referendo vermelho", em A luta contra o fascismo, Leon Trotsky. Fundação Federico Engels, Madrid 2004, p.84.

[13] A crise do movimento comunista, Fernando Claudin. Ibérica de Edições e Publicações, Barcelona 1978, p.128.

[14] Por novos partidos comunistas e uma nova internacional, Leon Trotsky. 27 de Julho de 1933.

[15] "E agora?", em A luta contra o fascismo, Leon Trotsky. p.131.

[16] Informe de Stalin no XVII Congresso do PCUS, 26 de Janeiro de 134 (citado em Claudin, op. cit., p.139).

[17] Ver O Estado e a revolução, V. I. Lenin. Fundação Federico Engels, Madrid 1997.

[18] O congresso de liquidação da Comintern, Leon Trotsky. 21 de Agosto de 1935.

[19] "Teses sobre a democracia burguesa e a ditadura do proletariado" em A Internacional Comunista - Teses, manifestos e resoluções dos quatro primeiros congressos (1919-1922). Fundação Federico Engels, p.44-52.

[20] A Terceira Internacional e o seu lugar na história (25 de Abril de 1919); Em defesa da revolução de Outubro. Pp.153-154.

[21] «Desde logo que nenhum dos delegados do VII Congresso», escreveu Trotsky, «repudiou de forma directa a revolução proletária, nem a ditadura do proletariado, nem nenhuma dessas coisas terríveis. Pelo contrário: os oradores oficiais juraram que no fundo dos seus corações nada tinha mudado e que as mudanças de táctica aplicam-se apenas a uma etapa histórica determinada, na qual corresponde defender tanto a União Soviética como aos retalhos da democracia ocidental frente a Hitler. Entretanto, não é aconselhável dar crédito a estes juramentos solenes. Se os métodos da luta de classe revolucionária se mostram inúteis em circunstâncias históricas difíceis, isso significa que a sua bancarrota é total, sobretudo tendo em conta que a época que se avizinha será caracterizada pelas dificuldades crescentes. Como se ria Lenin dos social-patriotas quando juravam que arquivavam as suas obrigações internacionais apenas "enquanto durar a guerra"!» (O congresso de liquidação da Comintern, Leon Trotsky. 23 de Agosto de 1935).

[22] Comunistas contra Stalin, Pierre Broué. Ed. Sepha, Málaga 2008, p.32.

[23] Os processos de Moscovo, Pierre Broué. Ed. Anagrama, Barcelona 1988, p.9.

[24] Que julgue a história, Roy A. Medvedev. Ed. Destino, Barcelona 1977, p.220.

[25] Rússia, da revolução à contra-revolução, Ted Grant. P.175.
Também Roy Medvedev comenta esta grande purga no seu livro: «A verdade, ainda que nos choque, foi muito simples. Nunca os comandantes de nenhum exército sofreram tanto em tempo de guerra como sofreu na paz o Exército Vermelho. Anos inteiros dedicados a formar os quadros militares foram reduzidos a nada. A base do partido nas Forças Armadas foi drasticamente reduzida. Em 1940 a relação do inspector geral da Infantaria mostrava que entre os 225 chefes de regimento que permaneciam activos durante o verão daquele ano, nenhum tinha saído de uma academia militar, 25 tinham completado a sua formação numa escola militar e os 200 restantes tinham realizado cursos para jovens tenentes. A inícios de 1940, mais de 70% dos comandantes de divisão, cerca de 70% dos chefes de regimento e 60% dos comissários militares e chefes das divisões políticas ocupavam os seus postos há apenas um ano. E tudo isto ocorria precisamente antes da guerra mais cruel da História» (Medvedev, op. cit., p.242).

[26] A União Soviética e a guerra civil espanhola - Uma revisão crítica, Daniel Kowalsky. Ed. Crítica, Barcelona 2004, p.335.

[27] Novidade no frente - As Brigadas Internacionais na guerra civil, Remi Skoutelsky. Ed. Temas de Hoje, Madrid 2006, p.439.

[28] Ibidem, p.444.

[29] Para conhecer mais a fundo a repressão e o extermínio da Oposição de Esquerda da URSS, Pierre Broué escreveu um livro imprescindível: Comunistas contra Stalin - Massacre duma geração, Ed. SEPHA, Málaga 2008.

[30] Diário do exílio, Leon Trotsky. CEIP Leon Trotsky, Buenos Aires 2013, pp.228-243.

[31] O programa de transição, Leon Trotsky. Fundação Federico Engels, Madrid 2008, p.30.

[32] Levantaram-se antes do amanhecer, Artur London. Ed. Península, Barcelona 1978, p.13.
Também escreveu um relato cru do seu tormento nas prisões stalinistas na sua grande obra A confissão. A sua mulher, Lise London, que participou na organização das Brigadas Internacionais na base de Albacete, e, posteriormente, como Artur, denunciou activamente o stalinismo, escreveu dois grandes obras sobre a sua actividade militante na guerra civil espanhola e na resistência contra o nazismo: Primavera Vermelha e Memória da Resistência, ambos editados por Edições do Oriente e do Mediterrâneo, Madrid 1996 e 1997. Lise morreu a 13 de Março de 2012.

[33] Recolhida no livro escrito por sua companheira Elisabeth K. Poretsky, Os nossos, Fundação Federico Engels, Madrid 2008, p.25.

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