De 4 a 12 de maio de 1926, a classe trabalhadora britânica levou a cabo, ao longo de 9 dias, a maior greve geral na história desse país berço do movimento operário internacional. A greve começou em solidariedade para com os mineiros, que enfrentavam dos proprietários das minas a exigência de aceitarem um corte de 13% aos seus já salários de miséria, e ainda um acréscimo de uma hora à sua jornada laboral.

Sob a palavra de ordem de “Nem um cêntimo do salário, nem um minuto do horário”, os mineiros ergueram-se em revolta, e foram seguidos, em solidariedade, pela classe trabalhadora britânica, que nos seus milhões saiu dos seus postos de trabalho e colocou em cheque as forças do capitalismo britânico.

A greve geral de 1926, apesar de derrotada – traída pelas suas direções sindicais, que tudo fizeram para sabotar a greve e que, ao mínimo desafio dos tribunais, tomaram a decisão de desertar os trabalhadores mineiros à sua sorte – abalou a consciência da classe trabalhadora britânica e fez ondas por todo o mundo. Até Trotsky, em plena luta pelo futuro da União Soviética, tirou tempo para tomar apontamentos sobre os desafios dessa greve, traçando de forma muito clara as condições e as tarefas da greve, que ia no seu terceiro dia.

Um século depois, traduzimos este texto e publicamo-lo, e não por mero interesse histórico. Após a Greve Geral de 11 de dezembro de 2025, as mesmas questões que nesse momento se colocavam à classe trabalhadora britânica colocam-se agora à classe trabalhadora em Portugal. Desafiamos, portanto, uma leitura crítica do texto, que projete as questões que Trotsky colocava para aquela época ao momento histórico que enfrentamos.

De seguida apresentamos uma curta análise da Greve Geral produzida pela nossa organização e logo abaixo o texto de Trotsky de 1926.

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Fez agora cem anos, a 3 de maio de 1926, que milhões de trabalhadores do Reino Unido iniciaram uma greve geral que colocou o governo de Sua Majestade e o próprio sistema capitalista contra a parede. Durante nove dias, a classe trabalhadora britânica manteve um braço de ferro titânico com a classe dominante mais experiente e poderosa do mundo, proprietária de um império que se estendia pelos cinco continentes, senhora dos mares graças à sua frota de guerra, pioneira no desenvolvimento da grande indústria e líder indiscutível das finanças mundiais.

Mas um movimento que poderia ter culminado numa revolução socialista e na tomada do poder pela classe trabalhadora foi frustrado pela traição aberta dos dirigentes do TUC, a confederação sindical do país. Nesta derrota também desempenharam um papel destacado os erros da direção estalinizada da Internacional Comunista e o seu oportunismo político, refletindo os interesses de uma burocracia usurpadora que só pensava em proteger a sua posição social privilegiada.

Crise do imperialismo britânico e luta de classes

A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou um ponto de viragem no poder do imperialismo britânico. Do outro lado do oceano Atlântico, a sua antiga colónia, os Estados Unidos da América, iniciava a ascensão como potência hegemónica e deslocava a sua antiga metrópole para uma posição subordinada.

Os enormes lúcros que a burguesia britânica obtinha graças ao saque colonial, que lhe permitiam comprar a paz social em casa subornando uma camada dos dirigentes sindicais e da esquerda reformista, começaram a reduzir-se. A classe dominante quis fazer recair sobre os ombros da classe trabalhadora o custo da guerra e começou a endurecer as condições laborais e a reduzir os salários.

A resposta dos trabalhadores não se fez esperar. Sob a pressão das suas bases, os dirigentes sindicais dos mineiros, dos ferroviários e dos estivadores formaram a Trípla Aliança, com quase um milhão e meio de trabalhadores, para fazer frente à ofensiva patronal. Em 1917, as notícias da vitória da revolução na Rússia e da tomada do poder pelos bolcheviques entusiasmaram a classe trabalhadora da Grã-Bretanha, a ponto de que, quando no verão de 1920 o Governo de Londres tentou uma nova intervenção militar contra o primeiro Estado operário da História, os dirigentes sindicais e do Partido Trabalhista se viram obrigados a ameaçar com uma greve geral se esses planos belicistas se concretizassem.

Em 1921 os capitalistas desataram uma ofensiva brutal contra o movimento operário mais consciente e organizado, os mineiros, tentando impor uma dura redução salarial. O sindicato dos mineiros convocou imediatamente uma greve e o governo conservador respondeu enviando o Exército para ocupar as minas.

Os mineiros reclamaram o apoio dos sindicatos que formavam a Tripla Aliança e tudo indicava que a 15 de abril a Grã-Bretanha seria paralisada pela primeira greve geral da sua história. Mas no último momento os dirigentes sindicais dos caminhos-de-ferro e os estivadores, com a cumplicidade dos próprios líderes mineiros, voltaram atrás e anunciaram que não haveria greve. Esse dia, 15 de abril de 1921, passou para a história como a Sexta-feira Negra: uma derrota operária que permitiu aos patrões conseguir uma redução salarial entre 10% e 40%.

Mas muito rapidamente os efeitos negativos desta traição foram superados. A perspectiva de novos ataques, o ambiente de efervescência revolucionária que se vivia em todo o mundo, desde a Alemanha até à China, e o maravilhoso exemplo que irradiava a consolidação do poder soviético na Rússia propiciaram uma forte viragem à esquerda entre a base dos sindicatos britânicos.

O jovem Partido Comunista da Grã-Bretanha, embora ainda muito fraco, desempenhou um papel central na organização desse ambiente de raiva, promovendo a constituição no seio do TUC do Movimento Minoritário Nacional, cujo objetivo era, nas suas próprias palavras, “converter a minoria revolucionária dentro de cada indústria numa maioria revolucionária”.

Em muito pouco tempo, esta corrente de esquerda ganhou posições decisivas nos sindicatos mais fortes e um grande apoio e simpatia entre a grande massa da classe trabalhadora. As lições da traição e derrota de 1921 tinham sido assimiladas pelos trabalhadores e os dirigentes sindicais reformistas eram impotentes para travar a firme e decidida vontade das suas bases de lutar até ao triunfo total.

O Comité Anglo-Russo e a greve geral de 1926

Mas apesar de que tanto as condições objetivas como o ânimo da classe trabalhadora eram completamente favoráveis a um triunfo revolucionário, um obstáculo inesperado surgiu no caminho da revolução na Grã-Bretanha.

Não foi o apoio social aos dirigentes reformistas nem muito menos ao governo burguês que finalmente fez descarrilar a grande greve de 1926. Foi a orientação oportunista, imposta pelos dirigentes estalinistas de Moscovo ao PC da Grã-Bretanha, que preparou o terreno para uma nova derrota de graves consequências.

Devido aos fracassos revolucionários de 1923 na Alemanha, e anteriormente em Itália e Hungria, e às condições materiais tão adversas à construção do socialismo na Rússia, a Revolução de Outubro sofreu um processo de isolamento muito negativo. O fracasso da revolução na Europa criou um enorme ceticismo entre a classe trabalhadora russa, exausta por anos de guerras, sacrifícios e privações enormes. Nesse contexto, foi-se consolidando um aparelho burocrático dentro do jovem Estado operário soviético e dentro do PCUS, que Lenin combateu e denunciou duramente nos seus últimos escritos.

Este fenómeno, que foi advertido por León Trotsky e numerosos dirigentes bolcheviques organizados na Oposição de Esquerda, respondia a processos objetivos, que afectavam a base material da sociedade, e à psicológica e à consciência das amplas massas operárias da Rússia. A burocracia foi minando a democracia operária e eliminando qualquer vestígio de controlo proletário na vida económica, social e cultural do país. Suprimiu-se brutalmente a tradição bolchevique do debate aberto, da controvérsia fraternal e da máxima unidade de ação quando se adoptavam decisões democraticamente. E a vida interna do partido foi coberta com o manto opressor da obediência cega, da violência contra os discrepantes, das purgas, das expulsões, e finalmente das detenções e dos fuzilamentos de comunistas.

A nova burocracia soviética estava muito mais interessada em consolidar o seu próprio poder do que em extender o triunfo da revolução mundial, uma orientação que tentavam encobrir sob a folha de parreira da teoria do “socialismo num só país”.

A prioridade dessa casta burocrática, liderada por Stalin, foi restabelecer a qualquer custo os vínculos comerciais com as grandes potências capitalistas, e fazê-lo de tal forma que se evitasse qualquer confronto sério com as burguesias ocidentais.

Com o objetivo de normalizar as relações com a oligarquia financeira britânica, desde Moscovo foi promovida a criação em abril de 1925 do Comité Sindical Anglo-Russo, estabelecido como organismo de cooperação entre os sindicatos soviéticos e britânicos. A formação deste organismo teve apenas um beneficiário, a burocracia reformista dos sindicatos britânicos, que pôde encobrir as suas políticas de capitulação com o halo e o prestígio da Revolução russa e defender as suas posições, que a ascensão do Movimento Minoritário colocava em perigo.

No final de 1925, a burguesia britânica, com o pleno apoio do governo do conservador Stanley Baldwin, decidiu que era necessário piorar as condições de vida dos trabalhadores. Tal como em 1921, foi a patronal mineira que lançou a primeira ofensiva, propondo aos seus trabalhadores uma drástica redução salarial e um prolongamento da jornada laboral.

A resposta dos mineiros foi imediata: a greve e um apelo ao resto do movimento sindical para se unir à luta. Os dirigentes reformistas, ao contrário do sucedido em 1921, não puderam evitar a pressão das suas bases, e a 3 de maio de 1926 a greve geral paralisou a Grã-Bretanha, a princípio de forma indefinida.

Em vastas zonas do país, o controlo das estradas, do transporte e da distribuição estava nas mãos dos Conselhos de Ação que os trabalhadores tinham constituído de forma espontânea. O que tinha começado como um conflito laboral avançava a passos largos para um confronto direto com a burguesia e o seu aparelho de Estado. A questão do poder estava objetivamente em cima da mesa, e assim a compreendeu a burguesia, que aceitou o desafio e recusou terminantemente aceitar sequer a menor concessão.

Era o momento propício para que uma direção revolucionária consequente colocasse a necessidade de expandir e coordenar os Comités de Ação e orientar o movimento para a tomada do poder. Mas o PC da GB, amarrado de pés e mãos à burocracia sindical através do Comité Anglo-Russo, recusou-se a dar esse passo.

A sua passividade deu alento à ala mais à direita da direção sindical que promoveu uma capitulação sem condições. Mas essa ala carecia de autoridade para impor o seu critério, e teria sido completamente derrotada se não fosse por, poucos dias depois do início da greve, os dirigentes da “esquerda sindical”, supostos “amigos” e “aliados” da Revolução russa como promotores do Comité Anglo-Russo, se juntaram à ala reformista e desconvocaram de surpresa a greve.

A reação da classe trabalhadora foi de enorme indignação e sectores importantes, como os trabalhadores portuários e ferroviários, mantiveram a greve durante alguns dias mais até que se tornou evidente que o movimento estava derrotado. Milhares de mineiros continuaram em greve ainda durante vários meses, graças a um fundo de resistência que conseguiu contar com um amplo apoio social, mas finalmente tiveram de voltar ao trabalho.

O PC britânico, apesar da traição dos seus aliados dessa esquerda sindical fantasmagórica, evitou a confrontação. Os líderes de Moscovo impuseram como tarefa prioritária salvar o “prestígio” do Comité Anglo-Russo e mascarar o fracasso com frases pomposas e retórica vazia.

Alguns meses depois, em setembro de 1927, quando a onda revolucionária já tinha completamente passado, esses supostos aliados de esquerda nas TUC romperam as suas relações com Moscovo e dissolveu-se sem mais o Comité Anglo-Russo, um organismo que ficará para sempre como um triste exemplo de que o caminho da conciliação e dos pactos com os reformistas de esquerda, no momento em que se exige a máxima audácia para impulsionar uma política revolucionária, acaba por conduzir à mais terrível das derrotas.

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Trotsky - Notas sobre a situação na Grã-Bretanha - 6 de maio de 1926

Há um ano, o governo conservador ainda estava em lua-de-mel. Baldwin [1] pregava a paz social. Sem nada com que opor o conservadorismo, MacDonald [2] rivalizava com este no ódio à revolução, à guerra civil e à luta de classes. Os líderes dos três partidos declaravam que as instituições britânicas eram inteiramente adequadas para assegurar colaboração pacífica entre classes. Naturalmente, o prognóstico revolucionário sobre o futuro do Império Britânico feito no livro [Aonde Vai a Grã-Bretanha (1925) [3] foi declarado por toda a imprensa britânica – do The Morning Post [4] ao Lansbury’s Labour Weekly [5] – como um completo disparate e fantasmagoria de Moscovo.

Hoje a situação apresenta-se algo diferente. A Grã-Bretanha está convulsionada por uma grande greve de massas. O governo conservador prossegue uma política de ataque frenético. Do topo, tudo está a ser feito para provocar uma guerra civil aberta. A contradição entre os factos sociais fundamentais e a fraude de um parlamentarismo ultrapassado revelou-se na Grã-Bretanha como nunca antes.

A Greve Geral é sintoma da Crise Capitalista

A greve de massas surgiu do desequilíbrio entre a atual posição da economia britânica no mercado global e as relações industriais e de classe tradicionais dentro do país. Formalmente, a questão em disputa era a redução dos salários dos mineiros, o prolongamento da jornada de trabalho e a transferência de parte dos sacrifícios necessários para uma reorganização séria da indústria do carvão para os ombros dos trabalhadores.

Colocada desta forma, a questão é insolúvel. É perfeitamente verdade que a indústria do carvão, e de facto a economia britânica como um todo, não possa ser reorganizada sem sacrifícios por parte do proletariado britânico – e sacrifícios consideráveis. Mas apenas um tolo miserável pode imaginar que o proletariado britânico aceitará suportar esses sacrifícios com base nas antigas fundações da propriedade privada.

O capitalismo tem sido apresentado como um sistema de progresso contínuo e de melhoria constante das condições de vida das massas trabalhadoras. Isto foi verdade até certo ponto, pelo menos em alguns países durante o século XIX. Na Grã-Bretanha, a religião do progresso capitalista foi mais potente do que em qualquer outro lugar. E foi precisamente isso que constituiu a base das tendências conservadoras no próprio movimento operário e especialmente nos sindicatos. As ilusões britânicas sobre a guerra (1914-1918) foram, mais do que em qualquer outro lugar, ilusões sobre o poder capitalista e o “progresso social”.

Na vitória sobre a Alemanha, esperava-se que essas esperanças atingissem a sua realização máxima. Mas agora, a sociedade burguesa diz aos mineiros: “Se querem garantir para vocês mesmos pelo menos o tipo de vida que tinham antes da guerra, têm de aceitar um exacerbar de todas as condições de vida durante um período indefinido.” Em vez da perspetiva de progresso social ininterrupto que lhes foi recentemente prometida, os mineiros são convidados a descer um degrau hoje para evitar cair três ou mais amanhã. Isto é uma declaração de falência por parte do capitalismo britânico. A Greve Geral é a resposta do proletariado, que não quer nem pode permitir que a falência do capitalismo britânico signifique a falência da nação britânica e da cultura britânica.

Esta resposta, no entanto, foi-lhe ditada pela lógica da situação do que pela lógica da consciência. A classe trabalhadora britânica não teve outra escolha. A luta, quaisquer que fosse a sua mecânica de bastidores, foi-lhe imposta pela pressão mecânica do conjunto das circunstâncias. A posição global da economia britânica não deixou uma base material para um compromisso voluntário.

Os Thomases [6], MacDonalds e demais acabaram como moinhos cujas velas giram com um vento forte, mas que não produzem um único quilo de farinha, porque não há grão para moer. O vazio desesperante do reformismo britânico contemporâneo revelou-se de forma tão convincente que aos reformistas não restou outro recurso senão tomar parte na greve de massas do proletariado. Isso revelou a força da greve – mas também a sua fraqueza.

A Greve Geral necessita de uma liderança revolucionária

A greve geral é a forma mais aguda da luta de classes. Da greve geral à insurreição armada há apenas um passo. É precisamente por isso que a greve geral, mais do que qualquer outra forma de luta de classes, exige uma direção clara, distinta, resoluta e, portanto, revolucionária. Na greve atual do proletariado britânico não há nem sequer o espetro de tal direção, e não é de esperar que possa ser improvisada do nada.

O Conselho Geral do Congresso dos Sindicatos iniciou-se com a ridícula declaração que a atual Greve Geral não representava uma luta política e que não constituía, de forma alguma, um ataque ao poder estatal dos banqueiros, industrialistas e senhorios, ou ao sacrossanto parlamentarismo britânico. Esta declaração de guerra, a mais leal e submissa, não parece, no entanto, minimamente convincente para o governo, que sente os verdadeiros instrumentos do poder a escaparem-se-lhe das mãos sob o efeito da greve.

O poder estatal não é uma “ideia”, mas aparato material. Quando o aparelho governativo e repressivo fica paralisado, o próprio poder de Estado fica paralisado. Na sociedade moderna, ninguém pode manter o poder sem controlar as ferrovias, as frotas, os correios, os telégrafos, as centrais elétricas, o carvão e assim por diante. O facto de MacDonald e Thomas terem jurado renunciar a quaisquer objetivos políticos pode caracterizá-los pessoalmente, mas de modo algum caracteriza a natureza da Greve Geral, que, se levada até ao fim, coloca à classe revolucionária a tarefa de organizar um novo poder de Estado.

Porém, aqueles mesmos que, pelo curso dos eventos, foram colocados “à frente” da Greve Geral, combatem-na com toda a força. E é esse o principal perigo. Gente que não queria a Greve Geral, que nega a natureza política da Greve Geral, e que teme acima de tudo as consequências de uma greve vitoriosa, inevitavelmente orientarão todos os seus esforços para a manter dentro dos limites de uma semigreve semipolítica, isto é, para a castrar.

Temos de encarar os factos: os principais esforços dos dirigentes oficiais do Partido Trabalhista e de um número considerável de dirigentes oficiais dos sindicatos não se dirigirão para paralisar o Estado burguês por meio da greve, mas para paralisar a Greve Geral por meio do Estado burguês. O governo, na forma dos seus conservadores mais intransigentes, sem dúvida quererá provocar uma guerra civil de pequena escala para obter a oportunidade de aplicar medidas de terror antes de a luta se desenvolver plenamente e, assim, fazer recuar o movimento.

Ao privarem a greve de um programa político, ao dispersarem a vontade revolucionária do proletariado, e ao conduzirem o movimento a um beco sem saída, os reformistas empurram assim grupos isolados de trabalhadores para o caminho das revoltas descoordenadas. Nesse sentido, os reformistas vão ao encontro dos elementos mais fascistas do Partido Conservador. Aí reside o principal perigo da luta agora em curso.

As tarefas dos revolucionários na Greve Geral

Este não é o momento para prever a duração, o curso e muito menos o desfecho da luta. Tudo deve ser feito à escala internacional para ajudar os combatentes e melhorar as suas hipóteses de êxito. Mas é preciso reconhecer claramente que tal êxito só será possível na medida que a classe trabalhadora britânica, no processo de desenvolvimento e intensificação da Greve Geral, entenda a necessidade de mudar a sua direção e se mostre à altura de tal tarefa.

Há um provérbio estado-unidense que diz que não se pode trocar de cavalo a meio do rio. Mas esta sabedoria prática só é verdadeira dentro de certos limites. O rio da revolução nunca foi atravessado no cavalo do reformismo, e a classe que entrou na luta sob uma direção oportunista será obrigada a mudá-la sob o fogo do inimigo. A atuação dos elementos verdadeiramente revolucionários do proletariado britânico, e sobretudo dos comunistas, é determinada por isto. Defenderão por todos os meios a unidade de ação de massas, mas não permitirão nem sequer a aparência de unidade com os dirigentes oportunistas do Partido Trabalhista e dos sindicatos.

Uma luta implacável contra todo e qualquer ato de traição ou tentativa de traição, e a denúncia sem piedade das ilusões reformistas, são os principais elementos do trabalho dos participantes genuinamente revolucionários na Greve Geral. Isto não só ajudará a tarefa fundamental e prolongada de formar novos quadros, sem a qual a vitória do proletariado britânico é inteiramente impossível, como também contribuirão diretamente para o êxito desta greve, aprofundando-a, revelando as suas tendências revolucionárias, afastando os oportunistas e fortalecendo a posição dos revolucionários. Os resultados da greve, tanto imediatos como mais remotos, serão tanto mais significativos quanto mais resolutamente a força revolucionária das massas varrer os obstáculos erguidos pela direção contrarrevolucionária.

A greve, por si só, não pode alterar a posição do capitalismo britânico, e em particular da indústria do carvão, no mercado mundial. Isso exige a reorganização de toda a economia britânica. A greve é apenas uma expressão aguda dessa necessidade. O programa de reorganização da economia britânica é o programa de um novo poder, de um novo Estado e de uma nova classe. A importância fundamental da Greve Geral reside em colocar a questão do poder sem rodeios. Uma verdadeira vitória para a Greve Geral consiste apenas na conquista do poder pelo proletariado e no estabelecimento da ditadura do proletariado.

Dada a insolvência do capitalismo britânico, a Greve Geral é, mais do que em qualquer outro momento, incapaz de se transformar num veículo de reformas ou de ganhos parciais. Mais concretamente, mesmo que os proprietários das minas ou o governo façam esta ou aquela concessão económica sob a pressão da greve, tal concessão não poderia, dadas as circunstâncias gerais, ter um significado profundo, muito menos duradouro.

A Greve Geral avançará a luta de classes

Isto não significa, no entanto, que a greve atual enfrente a dicotomia do tudo ou nada. Se o proletariado britânico tivesse uma direção que correspondesse, ainda que aproximadamente, à sua força de classe e à maturidade das condições, o poder passaria das mãos dos conservadores para as mãos do proletariado no prazo de poucas semanas. Mas não se pode contar com tal desfecho. Isto também não significa que a greve seja inútil. Quanto mais amplamente se desenvolver, quanto mais fortemente abalar as fundações do capitalismo, e quanto mais afastar os líderes traidores e oportunistas, mais difícil será para a reação burguesa passar à contraofensiva, menos sofrerão as organizações de trabalhadores, e mais cedo virá a etapa seguinte, mais decisiva, da luta.

A colisão atual entre classes será uma lição tremenda e terá consequências imensuráveis para lá dos seus resultados imediatos. Ficará claro para toda a classe trabalhadora britânica que o parlamento é impotente para resolver as tarefas fundamentais e mais vitais do país. A questão da salvação económica da Grã-Bretanha passará, doravante, a surgir perante o proletariado como uma questão de conquista do poder. Todos os elementos pseudopacifistas intervenientes, mediadores e conciliadores sofrerão um golpe mortal.

O Partido Liberal, por mais que os seus dirigentes se contorçam e tentem escapar, sairá de tal provação ainda mais significante do que nela entrou. Dentro do Partido Conservador, os elementos mais intransigentes ganharão predominância. No seio do Partido Trabalhista, a ala revolucionária ganhará em organização e influência. Os Comunistas avançarão decisivamente. O desenvolvimento revolucionário da Grã-Bretanha dará um passo gigantesco em direção ao seu desfecho.

À luz da poderosa onda grevista em curso, as questões de reforma e revolução, de desenvolvimento pacífico e do uso da força, de reformas e ditadura de classe, apoderar-se-ão da consciência dos trabalhadores britânicos, nas suas centenas de milhares e milhões, com toda a sua acuidade. Disso não pode haver dúvida. O proletariado britânico, mantido pela burguesia e pelos seus agentes fabianos [7] num estado de aterrador atraso ideológico, avançará agora como um leão. As condições materiais na Grã-Bretanha há muito que estão maduras para o socialismo. A greve colocou na ordem do dia a substituição do Estado burguês pelo Estado proletário. Se a própria greve não produzir essa mudança, aproximá-la-á muito mais. A data exata não a podemos dizer. Mas devemos estar preparados para que seja cedo.


Notas:

[1] Stanley Baldwin (1867-1947), primeiro-ministro durante a Greve Geral de 1926, do Partido Conservador, que usou forças militares para furar a greve, juntamente com voluntários conservadores.

[2] Ramsay MacDonald (1866-1937), líder da oposição durante a Greve Geral, líder da fação direitista do Partido Trabalhista, o qual posteriormente abandonaria em prol de um ‘governo de unidade nacional’.

[3] https://www.marxists.org/archive/trotsky/britain/wibg/index.htm

[4] The Morning Post, jornal britânico conservador publicado entre 1772 e 1937, quando foi adquirido pelo The Daily Telegraph, que se mantém em publicação, com uma linha política idêntica.

[5] Lansbury’s Labour Weekly, jornal britânico publicado entre 1925 e 1927 por George Lansbury (1859-1940), marcado por flutuações centristas entre o reformismo e uma política mais esquerdista.

[6] J. H. Thomas (1874-1949), dirigente sindicalista histórico que, nos meses anteriores à Greve Geral, tinha liderado as negociações com o governo – já na altura conhecido pelo seu posicionamento conciliador, opondo-se a greves de solidariedade, e vindo a servir como ministro das Colónias em diversos governos.

[7] Sociedade Fabiana: fundada em 1884, esta organização serviu durante décadas como lobby reformista e direitista dentro do Partido Trabalhista britânico, com grande influência dentro desta organização e em vários outros países ex-colónias britânicas.

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