Há 50 anos, a 9 de abril de 1975, o mundo perdeu a voz de Phil Ochs. Um dos maiores nomes da música folk dos anos 60, Ochs foi ao longo da sua carreira mais do que um cantor e autor, mas foi também um militante revolucionário, um agitador com uma voz incansável, que fez da música uma arma política – e cujas canções se tornaram hinos do movimento antiguerra.

Inserindo na tradição de “música de intervenção”, ao lado de figuras como Victor Jara – com quem privou no Chile – e que em Portugal, encontra os seus maiores expoentes em figuras como Zeca Afonso e Zé Mário Branco, a obra musical de Phil Ochs sempre esteve intimamente ligada à sua militância política, e à sua visão do mundo – do que ele era, e do que poderia ser.

Cinco décadas depois, muitos dos problemas que Phil Ochs cantava continuam por resolver. Não basta apelar à sua memória, mas também a que se ergam hoje artistas com o mesmo compromisso – não apenas criadores, mas militantes e revolucionários consequentes, capazes de dar voz ao seu tempo como Ochs, Victor Jara ou Zeca Afonso fizeram ao seu.

“What Are You Fighting For” – Phil Ochs e o movimento antiguerra

Phil Ochs encontrou o seu espaço em Greenwich Village, um bairro de Nova Iorque que, nos anos 60, era um centro cultural vibrante onde artistas, dissidentes e marginalizados se cruzavam, e onde se situava, nomeadamente, Stonewall Inn. Foi nesse ambiente repleto de artistas vanguardistas que Ochs se destacou pela sua voz combativa e clareza política.

A sua conscientização começou a dar-se no início da década de 60, influenciado por um amigo e inspirado pelo sucesso da Revolução Cubana em 1959. Mas foi no verão de 1964, quando trabalhou como voluntário no Mississippi para o movimento de direitos civis, que a sua militância ganhou forma concreta. A música de intervenção estado-unidense teve grandes influências do movimento negro por direitos civis, e Phil Ochs escreveria várias canções sobre casos de racismo e hipocrisia branca no Sul dos EUA.

Mas seria a guerra do Vietname que marcaria a carreira musical de Phil Ochs.

Durante duas décadas, os EUA travaram uma guerra brutal no Sudeste Asiático, marcada por bombardeamentos massivos, uso de armas químicas e milhões de mortes indiscriminadas. Ao mesmo tempo, na frente doméstica, o serviço militar obrigatório era usado para alimentar a máquina de guerra imperialista, com um recrutamento seletivo e discriminatório, que poupava os jovens brancos ricos, e enviava para combate jovens racializados e de classe trabalhadora, para lutarem uma guerra injusta em prol da classe dominante de um país que os explorava e tratava como cidadãos de segunda.

Dessa enorme injustiça, desenvolveu-se um movimento de resistência contra a guerra e contra o recrutamento, do qual Phil Ochs se tornou uma das mais notáveis vozes.

Canções como “Draft-Dodger Rag” ou “I Ain’t Marching Anymore” tornaram-se símbolos de resistência para centenas de milhares de jovens, que não aceitaram o recrutamento e abertamente resistiram, num esforço que foi decisivo para forçar o fim da guerra, e permitir a vitória da revolução vietnamita.

Phil Ochs era “determinado, preciso, bem informado, e cheio de raiva e propósito político nas suas canções”. Informava-se e lia obsessivamente jornais, acompanhava o mundo. As notícias davam-lhe mais ideias do que tempo tinha para as transformar em canções. Mais do que sentir, entendia os assuntos que falava, e era esse rigor que dava força às suas músicas.

“I Declare the War is Over” – Phil Ochs e o Teatro do Ridículo

A militância de Ochs nunca foi seca ou dogmática. Pelo contrário: era criativa, teatral, e até provocadora.

Em 1967, esteve envolvido na organização de manifestações em várias cidades norte-americanas – nomeadamente Los Angeles, Nova Iorque e Washington DC – em que se declarava unilateralmente o fim à guerra do Vietname, com a música de Phil Ochs, apropriadamente intitulada “The War is Over” servindo como grito de convocatória a centenas de milhares para marchar, anunciando o fim simbólico da guerra.

Em Nova Iorque, milhares correram pelas avenidas fora, celebrando como se a guerra tivesse realmente terminado.

Phil Ochs estava consciente de que não bastava “declarar” o fim da guerra. Ele entendia estas performances, a que chamava de “teatro de rua”, como uma forma de expor o absurdo do conflito, e despertar consciências.

No ano seguinte, colaborou no movimento “Yippie” (Youth International Party), organizado para protestar a Convenção Democrata de 1968 em Chicago, em que o candidato pró-guerra acabaria por ser nomeado. Organizaram uma manifestação de 250 mil jovens, que uniria os vários grupos antiguerra, incluindo organizações socialistas, de direitos civis negros, feministas, etc., inspirados pela política de Frente Única dos anos 30.

Apesar de participar no movimento, Ochs mantinha reservas aos métodos dos yippies. “Tive uma reação contra a contracultura. A ideia de uma contracultura aberrante era desastrosa. O que era necessário era uma conexão orgânica à classe trabalhadora. Não se devia alienar a classe trabalhadora americana”. Como previa, o estabelecimento reacionário rapidamente explorou essa imagem de “freak” para descredibilizar o movimento.

Ainda assim, perante a ameaça de repressão policial, e quando a vasta maioria dos artistas recuaram de atuar em Chicago, Phil Ochs ficou. Num dos momentos mais marcantes da sua carreira, durante a sua atuação de “I Ain’t Marching Anymore”, um movimento espontâneo entre jovens na multidão, que tinham sido convocados para a guerra, queimaram publicamente os seus cartões de recrutamento. O gesto tornar-se-ia um símbolo de toda uma geração.

Phil Ochs vs. Bob Dylan – o papel do político na arte

A tensão entre arte e militância política marcou desde cedo a carreira de Ochs, e ficaria particularmente visível na sua relação com outro jovem músico residente em Greenwich Village no início dos anos 60 – Bob Dylan.

Os dois artistas começaram juntos na cena folk, e desenvolveriam nos primeiros anos das suas carreiras uma amizade bastante competitiva. Mas acabariam por seguir caminhos artísticos bastante diferentes. Enquanto Phil Ochs se continuaria a conscientizar e politizar, tornando-se um músico militante, Bob Dylan afastar-se-ia da música explicitamente política, tornando-se mais universal – e, inevitavelmente, mais popular.

A crítica que o seu amigo/rival fazia à sua música pesava a Ochs: “Dylan despreza o que eu escrevo. Já falei bastante com ele sobre isto. Ele não consegue aceitar o que eu estou a fazer, porque é político e, por isso, para ele é treta, porque não estou a escrever sobre mim próprio e sobre as minhas emoções mais profundas, acha ele. […] Eis o homem que mais respeito no mundo, Dylan, a dizer-me isto, e isso ajudou-me, porque me fez questionar sobre os meus motivos para escrever estas músicas, serei um falso como Dylan diz? Será verdade?”

A sua amizade icónica terminaria de forma igualmente icónica, com Bob Dylan a expulsar Ochs da sua limusine para a neve certa noite, após este, tendo sido perguntado o que achava de uma nova música de Dylan, ter simplesmente respondido que “é uma merda”.

A rivalidade entre Ochs e Dylan acaba por representar uma questão geracional dos movimentos artísticos contemporâneos: deverá a arte ser introspetiva, preocupando-se com “as emoções mais profundas”, ou se deveria ser orientada para fora, e lidar com os problemas do mundo.

Não há uma resposta única à questão – mas é injusto depreciar o valor de um artista e da sua arte por ser militante e política, como o era Phil Ochs e a sua arte. Os seres humanos são criaturas sociais – animais políticos. O que sentimos, o que somos, é indissociável da sociedade em que nos inserimos, e os problemas desta.

A vida de Phil Ochs mostra também o custo pessoal dessa coerência. Nos anos finais, marcado por desilusões políticas e pessoais, afastou-se da música e da política, e entrou numa espiral autodestrutiva que culminaria no seu suicídio, em 1976. A sua voz não se calou por falta de razão – mas pelo peso de um mundo que se recusava a mudar ao ritmo que ele exigia.

Uma arte militante é possível – e necessária

“Se há esperança para a América, está numa revolução. E se há esperança para uma revolução na América, está em tornar Elvis Presley no Che Guevara” – Phil Ochs

50 anos após a morte de Phil Ochs, vemo-nos novamente perante a missão de organizar um movimento antiguerra, que possa salvar a juventude de classe trabalhadora da máquina de morte que o imperialismo necessita para se perpetuar.

Num momento em que novos conflitos reacendem a lógica de blocos e confrontação entre potências imperialistas, e em que a hegemonia dos EUA sobre o mundo sofre os seus maiores desafios desde a época de Ochs, mais uma vez, a sua resposta é furiosa e sanguinária, e só promete piorar.

A memória de Phil Ochs, e da sua arte militante, deve servir para inspirar uma nova geração de artistas que se vê dividido entre expressar os seus sentimentos e falar sobre as questões políticas que lhes interessam – guerra, pobreza, racismo, sexismo, queerfobia, etc.

A obra de Phil Ochs, e dos cantores de intervenção da sua geração, demonstra que é possível e saudável transformar a arte num veículo político, que seja mobilizador.

E para conseguir ter-se esse papel, é necessário manter a postura que Phil Ochs sempre manteve ao longo da sua carreira – da manifestação, artística e política, como elemento que mobiliza, que anima a ação, e não desanime, desmobilize ou aliene. É preciso ser-se curioso e informado – ler sobre o que se passa no mundo, e incorporar o que se aprende na nossa análise das coisas.

É preciso, em suma, ser militante — estar consciente, organizado, e disposto a agir. É preciso participar na construção do movimento de luta da nossa classe, o partido revolucionário. Porque, como mostrou Phil Ochs, a arte não serve apenas para refletir o mundo. Serve para o mudar.

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