Poucas horas depois de gelar o sangue a milhões de pessoas com uma ameaça que nenhum criminoso imperialista se tinha atrevido a lançar desde 2ª Guerra Mundial, “esta noite morrerá uma civilização”, Donald Trump viu-se obrigado a declarar o cessar-fogo e a abrir uma negociação com o Irão.

Digam o que disserem este genocida e o seu aliado sionista, e independentemente do resultado das negociações, este recuo tem uma leitura muito clara. A guerra imperialista que o imperialismo estado-unidense e o regime fascista sionista desencadearam a 28 de fevereiro virou-se contra eles e o saldo, de momento, é uma derrota evidente.

Trump e o imperialismo dos EUA contra as cordas

As condições que servirão de ponto de partida para a negociação em Islamabad, e que são as apresentadas por Teerão, mostram sem qualquer margem para dúvidas até que ponto os Estados Unidos tiveram de recuar. Cessação de todos os ataques contra o Irão; controlo conjunto de Estreito de Ormuz pelo Irão e Omã (os dois países que o estreito atravessa) e pagamento a Teerão de uma taxa às petrolíferas e às companhias de navegação que o utilizam para reconstruir as infraestruturas destruídas; reparações de guerra por parte dos agressores; compromisso destes — apoiadas e ratificadas pela Organização das Nações Unidas — de que não haverão novos ataques, e levantamento das sanções e restrições aos planos de enriquecimento de urânio iranianos impostas pelo imperialismo estado-unidense.

Por muito que Trump tente apresentar a abertura do estreito como uma vitória, isso não convence ninguém. Ormuz já estava aberto, e foi precisamente a guerra que lançou que provocou o seu fecho. Mas, além disso, a sua reabertura atual, sob claro controlo do Irão, nem sequer significa um regresso à situação anterior, mas sim uma demonstração de força e uma vitória para Teerão.

A histeria com que o cessar-fogo foi recebido por parte de Israel é um bom indicador da dimensão do golpe que sofreram. Poucas horas depois de Washington o ter declarado, Benjamin Netanyahu lançou a ofensiva mais letal contra o Líbano desde o início da guerra, assassinando mais de 300 pessoas em poucos minutos.

O vice-presidente estado-unidense J. D. Vance e outros representantes dos Estados Unidos apoiaram publicamente a agressão sionista. Trump classificou-a cinicamente como uma “escaramuça à parte”, demonstrando uma vez mais o seu desprezo absoluto pela vida humana e que está muito habituado a faltar à palavra dada.

Mas o Irão respondeu imediatamente: voltou a atacar o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Catar e voltou a fechar Ormuz, deixando claro que o cessar-fogo e a negociação eram “inviáveis se não incluíssem o Líbano e o Hezbollah”.

Praticamente todos os aliados tradicionais dos EUA, começando pelos do Médio Oriente e seguindo pela União Europeia, Canadá e Japão, exigiram publicamente a inclusão do Líbano no cessar das hostilidades e na negociação. Trump obrigou Netanyahu a reunir-se com o Governo libanês enquanto lhe pedia que “baixasse um pouco” os ataques e os levasse a cabo com “mais dissimulação”. Mas o Irão insistiu que, se estes continuarem, no seu território ou no Líbano, Ormuz continuará fechado.  

Toda esta sucessão de acontecimentos mostra os enormes obstáculos a um possível acordo de paz. Mas também evidencia que os EUA e Israel estão num labirinto de que não sabem como sair e que não se encontram num bom momento para impor as suas condições.

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EUA e Israel estão num labirinto do qual não sabem como sair e não conseguem de momento impor as suas condições.

A situação em Israel

O projeto racista e supremacista do Grande Israel conta com o apoio do conjunto da burguesia israelita, que obtém lucros muito importantes com a produção de armas, com as tecnologias da informação ligadas à guerra e com a brutal opressão sobre a população palestiniana em Gaza e na Cisjordânia.

Os capitalistas sionistas aguardavam com grande expectativa o negócio turístico e imobiliário que tinham desenhado para Gaza e o sul do Líbano com o patrocínio do capital estado-unidense e mundial. Mas a guerra está a adiar e a pôr em causa esses planos, alimentando as tensões dentro da classe dominante.

Todas as sondagens apontam para uma possível derrota de Netanyahu nas eleições da segunda metade do ano, mas nenhuma das formações burguesas da oposição critica o seu Governo por atacar o Irão e invadir o Líbano, mas sim pela sua “aceitação do cessar-fogo” sem “ter alcançado os objetivos”. Por sua vez, a autodenominada esquerda sionista, embora reflita o mal-estar e a inquietação perante o prolongamento da guerra, acompanha essas críticas com elogios constantes ao exército, mantendo o seu apoio à ocupação e ao projeto supremacista.

Apesar disso, e da total censura de informações, o impasse da guerra e a rejeição internacional da mesma estão a ter impacto. Os drones e os mísseis do Irão e do Hezbollah caem todos os dias, pondo em causa o discurso triunfalista do Governo. O Ministério da Saúde israelita reconhece 19 mortos e 7.451 feridos, embora provavelmente sejam bastante mais.

O orçamento militar representa já quase 10% do PIB e o genocídio em Gaza consumiu 80 mil milhões de dólares entre 2023 e 2025, com um custo semanal de 600 milhões que a ofensiva contra o Irão e o Líbano elevou para o dobro. Os cortes na saúde, educação e noutras despesas sociais para sustentar o militarismo sionista estão a alimentar um crescente descontentamento social.

A economia mundial à beira do abismo

Washington e Tel Aviv possuem a máquina de destruição e morte mais brutal que a História conheceu. Demonstraram-no ao perpetrar um holocausto contra o povo palestiniano em Gaza e na Cisjordânia que, não o esqueçamos, continua sob a farsa do seu plano de paz com o aval da comunidade internacional e a passividade da China e da Rússia.

Essa máquina militar matou, em pouco mais de um mês, 4.500 pessoas (entre o Irão e o Líbano), causou milhares de feridos e expulsou das suas casas mais de um milhão de pessoas. Segundo o próprio exército estado-unidense, foram destruídos 13.000 alvos militares e civis apenas em território iraniano. Mas, dos objetivos políticos, económicos e geoestratégicos que tinham com esta guerra, não alcançaram nenhum.

A economia mundial vacila perante “o maior risco para a segurança energética da história”, como explica o presidente da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol: “A quantidade de petróleo e gás natural que perdemos é maior do que a que se perdeu nas duas grandes crises do petróleo dos anos setenta e maior do que a escassez de gás russo após a invasão russa da Ucrânia. Esta crise é maior do que essas três crises históricas juntas. Não se trata apenas de petróleo e gás. Produtos fundamentais como fertilizantes, petroquímicos ou hélio também são afetados, o que terá implicações relevantes nas cadeias de abastecimento globais. Mesmo quando a crise terminar, o mercado não voltará a ser como antes. Os riscos de segurança no Médio Oriente continuarão muito presentes para governos e indústrias de todo o mundo.”

Os mesmos mercados financeiros que lucraram com o genocídio palestiniano e esfregavam as mãos durante os primeiros momentos desta guerra com os ganhos do sector militar e energético, pressionam agora desesperadamente para que Donald Trump lhe ponha fim.

Segundo um estudo do ING baseado nas previsões de resultados das maiores empresas do mundo, uma subida prolongada dos preços do gás e do petróleo e o aumento das taxas de juro reduziria para metade os dividendos por ação: dos 19% e 15,6% previstos para 2026 e 2027, para 10% e 8%, respetivamente.

Uma extensão do conflito poderia impactar os mercados, gerando uma cascata de choques que culminaria numa recessão mundial. “Quando o preço do petróleo for suficientemente elevado, os mercados bolsistas entrarão em colapso, o que provocará uma recessão mundial”, advertiu Andy Xie, antigo chefe da divisão asiática do Morgan Stanley. “Na Ásia, onde o impacto da guerra já se começa a sentir, o Banco do Japão confirma (…) que a guerra do Irão já está a ter impacto nas contas das empresas (…)”.

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As bombas de Trump e de Netanyahu provocaram um fechar de fileiras com o regime. Exatamente o efeito contrário do que acontece nos EUA.

China e Rússia reforçadas pela guerra, e também o regime dos aiatolás

O fiasco militar, a instabilidade geopolítica, a sangria de recursos económicos e a rejeição social desta guerra colocaram um dúvida a capacidade dos Estados Unidos para continuarem a desempenhar o papel de potência hegemónica capaz de impor respeito aos seus adversários e garantir segurança e estabilidade aos seus aliados.

Como puderam comprovar as monarquias reacionárias do Golfo Pérsico, incluindo os paraísos financeiros do Dubai e Abu Dhabi, já não existem garantias sérias de proteção sob a ala de Donald Trump. Pela primeira vez veem seriamente ameaçados os alicerces do seu poder, e já nada será igual.

Pelo contrário, o regime dos aiatolás viu-se — pelo menos por agora — claramente reforçado. Como já assinalámos em declarações anteriores, trata-se de uma ditadura teocrática profundamente reacionária, um inimigo declarado da classe trabalhadora que oprime brutalmente as mulheres, a comunidade queer e as minorias nacionais, que persegue ferozmente a esquerda, e particularmente as forças comunistas há décadas, e que não hesita em reprimir de forma sangrenta as manifestações populares.

Mas as bombas de Trump e de Netanyahu provocaram um fechar de fileiras com o regime e uma profunda indignação e rejeição no povo iraniano. Perfeitamente lógico. Tentar apagar da face da Terra a civilização persa, desprezar de forma tão colonial o orgulho nacional iraniano, galvanizou o sentimento de resistência ativa entre a população. Exatamente o contrário do que acontece dentro dos Estados Unidos.

As massas iranianas estão a ver de forma clara e concreta que do imperialismo e do sionismo apenas podem esperar morte, miséria e mais opressão. A única esperança para elas é uma revolução baseada na sua auto-organização e ação direta e num programa socialista que exproprie a burguesia e a elite militar, burocrática e religiosa que controla a terra e os grandes bancos e empresas.

A par do regime iraniano, a China e a Rússia saem reforçadas na sua influência política e económica, e experimentarão um impulso ainda maior nos próximos meses e anos. A decadência, a impotência e o desespero que transmite o imperialismo estado-unidense — que já ninguém nega — representam a maior ameaça à estabilidade do sistema.

Moscovo aumentou exponencialmente as suas receitas devido à escalada dos preços do gás e do petróleo, ao mesmo tempo que reafirma a sua vitória na guerra da Ucrânia e consolida as suas áreas de influência mais próximas e outras que considera estratégicas em África. Os efeitos económicos da guerra reabriram o debate na União Europeia sobre a compra de gás à Rússia e a necessidade de marcar distâncias em relação a Washington neste e noutros temas.

Por seu lado, a China reivindicou a sua posição como potência capitalista que aspira à hegemonia. Do ponto de vista económico e diplomático, apresenta-se como um parceiro fiável que oferece estabilidade e acordos comerciais e investimentos em vez de bombas, mísseis, tarifas e ameaças.

Mas esta guerra também está a representar um salto qualitativo do ponto de vista do seu potencial militar. A superioridade económica e tecnológica do bloco liderado pela China e pela Rússia está a ter tradução no campo de batalha. Embora, para já, Pequim e Moscovo pareçam continuar a apostar que a superioridade económica e o desgaste dos Estados Unidos lhes proporcionarão uma posição de liderança mundial num curto espaço de tempo — evitando tanto quanto possível uma confrontação armada direta —, o seu apoio ao Irão nesta guerra, especialmente em meios logísticos, tecnológicos e no fornecimento de armamento, diz tudo.

O Irão respondeu militarmente com um recurso massivo a drones e mísseis, muito mais baratos, e em quantidades tão avassaladoras que provocaram uma grave crise na capacidade dos Estados Unidos e de Israel para repor o seu arsenal ao ritmo necessário, especialmente de interceptores, fundamentais para os seus sistemas defensivos.

A resistência iraniana abriu uma enorme brecha nas finanças dos atacantes, que não conseguem aumentar os recursos e os fornecimentos para alcançar um desfecho favorável a curto prazo. E se tivermos em conta todos estes fatores, e acrescentarmos a incerteza de uma recessão profunda, é inevitável que as contradições e divisões internas do império estado-unidense se agudizam.

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A agressão imperialista dos EUA e Israel voltou a abalar a consciência de milhões em todo o mundo. Nestas condições, as ideias da revolução socialista não deixarão de florescer.

O inimigo principal de Trump está em casa

Este é um ponto-chave que forçou Donald Trump a dar um passo atrás e a aceitar as condições de Teerão para negociar. A oposição interna à guerra cresceu com força, e as mobilizações de massas contra a agenda reacionária e totalitária do presidente tornam-se cada vez maiores.

A 28 de março, as manifestações do No Kings protests reuniram mais de sete milhões de pessoas em mais de 3.000 cidades. E nelas ecoaram as palavras de ordem contra o ICE, as políticas racistas e totalitárias, e o Não à Guerra.

A milhares de quilómetros, a imagem de milhares de homens e mulheres iranianos a organizar cadeias humanas em torno de centrais elétricas e instalações nucleares que Trump e Benjamin Netanyahu prometiam arrasar teve impacto em milhões de trabalhadores e jovens nos Estados Unidos e noutros países.

Neste contexto, a tentativa destes genocidas de desencadear um holocausto como o de Gaza no Irão, um país com 92 milhões de habitantes, é evidente que poderia provocar um levantamento de massas. Assim o fizeram saber amigos e inimigos. As vozes a exigir a remoçao de Trump por incapacidade mental dispararam, incluindo figuras destacadas do movimento MAGA, refletindo a oposição massiva à guerra.

Trump fracassou no seu plano de derrubar o regime dos aiatolás para se apoderar do controlo do gás, do petróleo e de outras riquezas do Irão. Também não conseguiu dar a volta decisiva à escalada militar no Médio Oriente, infligindo uma derrota com graves consequências à China e à Rússia, nem enfraquecer de forma decisiva a sua influência numa região de enorme importância geoestratégica.

A guerra virou-se contra Washington. Cada dia de conflito lhes custou mais de mil milhões de dólares. Mas todo este desperdício colossal de recursos continuou sem se traduzir em qualquer vantagem militar decisiva no terreno. Pelo contrário, todos os planos que fizeram para tentar alterar a dinâmica militar — a hipotética tomada da ilha de Jarg, bombardeamentos contra centrais elétricas, infraestruturas de gás e petróleo — tiveram de ser adiados por receio de uma resposta equivalente de Teerão contra as monarquias do Golfo e pelas dúvidas quanto ao facto de, longe de garantir a vitória, poderem provocar um resultado ainda mais catastrófico para a economia mundial.

As pressões de setores decisivos da classe dominante estado-unidense e dos seus aliados para recuar, abrir esta negociação e sair do Irão o mais rapidamente possível são enormes. Mas não será fácil. Um acordo nos termos propostos por Teerão deixaria o imperialismo estado-unidense completamente exposto, provocaria uma crise maior na NATO e abriria caminho a uma derrota eleitoral dos candidatos trumpistas nas eleições intercalares. Qualquer solução é negativa para os interesses de Washington.

Um dos principais obstáculos na negociação será a questão do Líbano. Mas Washington tem meios para pressionar Tel Aviv e estabelecer algum tipo de acordo, o que não impedirá que o regime sionista volte a atacar assim que tiver oportunidade.

A embriaguez de sucesso após massacrar impunemente o povo palestiniano e apoderar-se do controlo da Venezuela com tanta facilidade foi um fator importante no momento e na forma como Trump e Netanyahu decidiram lançar esta guerra. Mas as causas que alimentam a escalada militarista e supremacista dos Estados Unidos têm raízes na crise interna e na decadência do capitalismo estado-unidense.

O extraordinário movimento de massas da juventude e da classe trabalhadora estado-unidense, e a derrota nesta guerra, podem ser a sepultura política de Trump, e isso significaria também um golpe tremendo para a extrema-direita em todo o mundo.

Não é possível estabelecer uma perspetiva fechada sobre o que acontecerá nas próximas semanas, se o cessar-fogo se consolidará e se os bombardeamentos deixarão de se ouvir no Líbano e no Irão. Mas uma coisa é indiscutível. A agressão imperialista dos Estados Unidos e de Israel voltou a abalar a consciência de milhões em todo o mundo e está a servir de escola política para toda uma geração que não está disposta a suportar esta barbárie. Nestas condições, as ideias da revolução socialista não deixarão de florescer.

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