No dia 4 de fevereiro, Gustavo Petro convocou um Conselho de Ministros para fazer o balanço do desempenho do seu governo. O Conselho, transmitido em direto pela televisão, chocou milhões de pessoas que votaram em Petro e ficaram perplexas com uma batalha campal de recriminações e acusações entre ministros que terminou com a demissão de dois deles e de vários cargos de alto nível. A 9 de fevereiro, Petro pediu a todos que se demitissem para nomear um novo governo.
Mas o problema não se resolve apenas com a mudança de ministros. O "Governo da Mudança" de Petro é um exemplo claro das contradições que a esquerda parlamentar e social-democrata enfrenta devido ao seu colaboracionismo com a burguesia, que leva a acordos que pouco ou nada beneficiam a classe trabalhadora. Como o próprio presidente colombiano reconheceu: "Dá-me vergonha. De 195 compromissos, 146 não foram cumpridos".
Os pactos com a direita paralisam o governo
Petro é o primeiro presidente de esquerda da Colômbia. Venceu em 2022 graças à raiva, frustração e descontentamento que espoletaram o levantamento revolucionário de 2021, quando milhões de pessoas oprimidas saíram à rua e paralisaram o país, criando assembleias, comités de luta e as “primeras líneas”, organizações populares de autodefesa contra a repressão militar e policial, que controlavam bairros inteiros.
Se ele e os dirigentes sindicais tivessem convocado uma greve geral e apelado à unificação destas organizações de luta, teriam podido tomar o poder por meios revolucionários. Mas eles argumentaram que tudo tinha de ser feito ganhando as eleições e mudando as coisas no parlamento. Depois de chegar ao governo, recusou-se a confiar no impulso revolucionário das massas para acabar com o poder dos grandes grupos oligárquicos, defendendo um acordo nacional (Pacto Histórico) com partidos políticos do centro e da direita, entregando-lhes ministérios em troca do seu apoio às reformas que propunha na saúde, política, educação, pensões e justiça. Uma postura bastante inocente para um político com a sua trajetória, parlamentar há quase 30 anos e conhecedor da corrupção de todos os partidos burgueses.

As massas que votaram em Petro e na vice-presidente Francia Márquez esperavam uma mudança nas suas condições de vida. Mas os pactos com os políticos burgueses que há décadas sangram económica e fisicamente a população mais vulnerável do país significaram a inclusão em cargos importantes de elementos que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento da política colombiana sabe que as suas acções são, no mínimo, questionáveis. O resultado é que a corrupção atingiu o próprio governo.
Esta situação está a ser explorada pelos meios de comunicação social de direita para gerar desinformação, exagerando os factos de forma a apresentar a direita fascista colombiana como a solução para as eleições presidenciais de 2026. A diretora de um dos meios de comunicação social de extrema-direita, propriedade de banqueiros colombianos condenados por lavagem de dinheiro no Reino Unido, lançou-se como "candidata independente", embora seja evidente que é uma figura do uribismo para tentar limpar a sua imagem e recuperar a presidência.
O que sustenta o governo é o apoio de amplos sectores da juventude e da classe trabalhadora, do movimento feminista e LGTBI+ e dos povos originários, que não hesitaram em mobilizar-se repetidamente contra a extrema-direita. Mas as políticas capitalistas só estão a corroer este apoio.
A economia cresce, mas a precariedade e a desigualdade também
O que os meios de comunicação ao serviço da burguesia previram quando Gustavo Petro ganhou as eleições que a economia do país entraria em colapso, as empresas fechariam, o dólar dispararia e a Colômbia acabaria como a Venezuela, nunca aconteceu. O crescimento do PIB em 2024, de acordo com as estimativas do FMI, rondou os 3%. O ano de 2025 começou com uma taxa de inflação de 5,2%, uma das mais baixas do continente. O peso colombiano é uma das moedas regionais que mais se valorizou, e as exportações aumentaram para os EUA, a Europa, a China e a Venezuela.
Isto beneficiou os empresários. Mas, em vez de aumentarem o investimento produtivo, aumentaram os seus investimentos no estrangeiro em 217%, procurando ganhar ainda mais e pagar menos impostos. Entretanto, a classe trabalhadora colombiana continua a não ver qualquer melhoria na sua qualidade de vida. A Colômbia é o terceiro país mais desigual do mundo, superado apenas pela África do Sul e pela Namíbia. A economia informal afeta 55% da população ativa, aumentando a precariedade e deixando sem efeito medidas governamentais como o aumento do salário mínimo para milhões de trabalhadores, gerando descontentamento porque o preço dos alimentos continua elevado, os serviços de saúde continuam a ser administrados por empresas privadas, etc.
A mudança prometida não está a chegar. Petro sente-se apoiado porque sempre que convoca marchas, a base social que votou nele aparece, mas deve ter em conta que o fazem por medo da extrema-direita e não por estarem satisfeitos com o que conseguiu. O conformismo da esquerda parlamentar é internacional. Acreditam que fazer apenas o suficiente ou menos é suficiente. O derrube de Pedro Castillo no Peru, ou a vitória de Milei na Argentina, devem recordar-lhes que este caminho conduz ao desastre.

Petro e Francia Márquez assinaram um documento público comprometendo-se a não expropriar nenhuma propriedade, apesar de este ser um instrumento aprovado pela própria Constituição no seu artigo 58. Num país onde a deslocação forçada é uma prática constante da burguesia, que tem utilizado o exército e grupos paramilitares para a levar a cabo, expropriar essas terras roubadas e devolvê-las aos camponeses é fundamental.
Mas o governo de esquerda preferiu negociar com os grandes proprietários de terras, incluindo a Federação Nacional de Pecuaristas (FENAGA), liderada por José Félix Lafaurie, um conhecido empresário com ligações aos paramilitares, comprando-lhes parte das terras. Isto implicou a renúncia ao cumprimento do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) acordado nos acordos de paz entre o Estado e as FARC.
O PND prometeu 3 milhões de hectares para os camponeses. Para os governos capitalistas de Santos e Duque foi sempre letra morta. Petro prometeu cumpri-lo mas, depois de tomar posse, a Agência Nacional de Terras (ANT), reduziu-a para metade (1.500.000 hectares) sem qualquer explicação. Em agosto de 2024, tinham sido entregues 353 668 hectares, ou seja, apenas 10% do compromisso inicial.
Apesar destas entregas, a repartição da propriedade agrária é das mais injustas do mundo e o mercado colombiano continua a ser gerido por grandes empresários que manipulam os preços a seu bel-prazer, pagando aos agricultores preços muito baixos pelas suas colheitas e vendendo os produtos ao triplo do preço.
Conflito armado e eclosão da violência em Catatumbo
Tornar-se num simples administrador do capital para não incomodar a burguesia não manterá a esquerda no poder. Mas está a pôr em causa outro compromisso do governo: a paz total, ao manter as desigualdades, a opressão e a miséria no campo, que alimentam o tráfico de droga e a violência.
A 16 de janeiro, o Exército de Libertação Nacional (ELN, grupo paramilitar ligado ao narcotráfico) lançou uma ofensiva contra vários dissidentes das FARC que, até 9 de fevereiro, causou 54 mortes e fez 54.000 deslocados internos na região de Catatumbo. Historicamente, esta zona tem sofrido períodos de violência constante devido à sua localização geográfica na fronteira com a Venezuela, aos poços de petróleo e a um rio que permite o transporte de alimentos, combustível, armas e droga. O que deveria ser sinónimo de prosperidade transformou-se no seu oposto. Desde os anos 70 do século passado, diferentes grupos armados têm usado a zona para o cultivo de folha de coca, obrigando os agricultores a trabalhar para eles, e atualmente existem mais de 52.000 hectares plantados.
O tráfico de droga tornou-se um dos negócios mais lucrativos do sistema capitalista colombiano. Os paramilitares fascistas ligados à oligarquia continuam a operar, fazendo da Colômbia um dos países com mais assassinatos de ativistas do meio ambiente e de ativistas camponeses. A violência paramilitar também já matou dezenas de signatários do acordo de paz com as FARC. Por outro lado, grupos armados que começaram por ser revolucionários, como o ELN e outros, acabaram por fazer da guerra um modo de vida, desmoralizados e lumpenizados.
Petro abordou este surto de violência enviando mais tropas para Catatumbo. Mas os seus habitantes receiam, com razão, que isso aumente as hipóteses de acabarem mortos ou de não regressarem rapidamente a casa. Um governo de esquerda não pode lidar com este problema confiando num exército cujas ligações à oligarquia e ao narco-paramilitarismo são parte do problema.

A única maneira de proteger a população mais vulnerável e acabar com a guerra é uma verdadeira reforma agrária que elimine a concentração de terras nas mãos da oligarquia agrária e pecuária e a nacionalização dos bancos e dos grandes grupos alimentares sob o controlo dos trabalhadores para acabar com a sua especulação e pilhagem, garantindo terra, investimento, tecnologia e formação para o campesinato. Isto entusiasmaria e mobilizaria as massas, criando as condições para acabar com as máfias e a violência.
Combater o imperialismo exige uma política revolucionária
Algo que tem dado apoio a Petro são os seus discursos de denúncia do imperialismo estado-unidense. Historicamente, os governos colombianos têm-se curvado a Washington. Recusou-se a apoiar o governo fascista de Zelensky na guerra da Ucrânia e condenou as ações sionistas em Gaza, falando de genocídio. Mas depois de ter apregoado o corte de relações com Israel, aceitou a pressão da oligarquia para manter as relações comerciais. Um verdadeiro escândalo.
Recentemente, recusou-se a permitir a entrada de aviões estado-unidenses que transportavam migrantes deportados em condições indignas, acorrentados de pés e mãos, exigindo-lhes um tratamento justo. Mas, mais uma vez, a ausência de medidas verdadeiramente socialistas expõe a fragilidade das suas posições reformistas.
A alternativa à submissão dos governos de direita ao imperialismo selvagem dos Estados Unidos não pode ser manter o capitalismo procurando mais investimentos e uma suposta maior soberania através de acordos com a China. A forma de resistir à ofensiva da extrema-direita de Trump e Uribe é uma política revolucionária que exproprie os capitalistas colombianos e as multinacionais para planear democraticamente a economia e dar uma solução às necessidades da classe trabalhadora e do conjunto dos oprimidos. Isto não pode ser feito com a política de pactos com a direita e a burguesia que Petro apresenta. A tarefa para os activistas e militantes da esquerda na Colômbia é levantar uma alternativa revolucionária baseada no programa do marxismo revolucionário.